O último apaga a luz?

Sei bem que o mundo, as pessoas, as vossas vidas, têm problemas maiores. Têm problemas maiores, mas não têm uma placa vitrocerâmica que começa a apitar à noite mal se apaga a última luz. E não sendo um problema grande, é um grande problema. Eu explico melhor: há uma cozinha, nessa cozinha há uma placa vitrocerâmica, a gente cozinha nela e até aqui tudo bem. Tudo bem também não é bem assim, já que estamos a falar nisso, não foi óbvio passar de comandar os fogos e bater panelas nas grades do fogão para uma placa preta sofisticada, ou melhor noir, luzes vermelhas, com que se tem de ter cuidado a largar os tachos, pode sempre partir, embora digam que não parte e ainda não tenha partido, e depois não se rodam manípulos com uma força e intenção em que dos nossos pulsos sai chama quando rodamos para a direita como no Anime, e apagamos chama quando rodamos para a esquerda como o senhor dos crepes do Gambrinus que sorve o fogo com a mão para dentro da manga. Com a placa, sai calor que não se vê da ponta dos dedos, que se transforma primeiro num som e depois num número de luz vermelha, ao contrário, que a luz viaja mais depressa do que o som.

Ora essa placa, que já vinha com a casa, e que faz muito bem a sua função de cocção, ao fim de uns anos e de um dia para o outro começou a ter um comportamento estranho, sobretudo de noite, o que ainda é mais estranho. Vamos imaginar uma família normalmente a deitar-se, depois vai alguém apagar as luzes, porque as famílias quando se vão deitar não apagam as luzes organicamente, o apagar das luzes é sempre uma ação própria, assíncrona e separada do ir deitar, pelo menos nas minhas famílias, e quando essa pessoa faz isso, a placa começa a apitar. É um beep de dois segundos, com espaços de sete a dez segundos. As luzes vermelhas acendem-se, mas não com os números da temperatura dos bicos, que não são bicos, são círculos de luz, acendem-se a piscar F 5, assim mesmo um F maiúsculo afastado de um 5. E os apitos, sempre os apitos.

Isto já criou uma dinâmica familiar perversa, e desculpem estar aqui a partilhar, mas já que perguntam, é um grande problema, é que o último não apaga a luz porque o último não quer ficar com a responsabilidade de ter de lidar com o apito, e os outros a berrar dos quartos "olha o apito". E por isso não apaga a luz. Ora tendo em conta que este que vos escreve normalmente é o último a chegar, fica sempre com o dilema para si, de apagar a luz, fingir que não há uma luz para apagar, ou apagar a luz e ter de resolver os apitos.

Resolver os apitos é um misto de arte, ciência e sorte. Tem de se pegar num pano meio húmido, encontrar o intervalo certo entre os apitos, e esfregar muito bem, como se estivesse a dar lustro à placa, mas só na zona dos sensores. E por vezes resulta logo, noutras carece de esfrega prolongada.

Consultado o Google, nada diz, já andei para frente e para trás, nada. Consultados os especialistas, também nada de jeito. Dizem que não é possível porque não faz sentido. E portanto não existe, estamos doidos, são fantasmas. Claro que há de lá ir o eletricista especialista. Ah, mas claro, a placa não vai apitar, vamos ficar todos às escuras e ela caladinha sem tugir nem mugir, a rir-se de nós. Ela e o eletricista, que disse que não podia ser, e na realidade não está a ser, e o que não está a ser não é, nem foi, nem será. Acha ele, porque assim que a placa o sentir no carro, a caminho de casa, e se apagarem as luzes outra vez, vai começar a ganir. E o mais estranho é que acontece sobretudo de noite. Claro que além do Google e dos especialistas já consultámos os generalistas, que são todos a quem contámos o estranho caso da placa. E aqui há uma resposta unânime: é de certeza mau contacto.

Se alguém encontrar as causas ou as soluções, dão-se alvíssaras. É que aqui o último quer poder apagar a luz.

Advogado

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