"Se os britânicos passarem a comer galinha lavada com cloro, a divergência entre o Reino Unido e a UE terá sido substantiva"

Entrevista a Bernardo Ivo Cruz, editor da The London Brexit Monthly Digest, sobre o estado das relações entre o Reino Unido e a União Europeia um mês depois da saída dos britânicos da organização que integravam desde 1973.

O The Guardian dava o exemplo do frango lavado com cloro para mostrar o quão complicado podem ser as negociações entre o Reino Unido e a União Europeia para definir a relação pós-Brexit. É um exagero?
O frango lavado com cloro é mais uma das expressões que entrou no léxico britânico com o Brexit, já que enquanto os Estados Unidos permitem que frangos lavados com cloro entrem no mercado, a União Europeia proíbe-o por razões de saúde pública. A questão que se coloca até ao final das negociações (seja em julho, em dezembro, em 2021 ou mesmo em 2022) é saber qual o grau de divergência regulatória que o Reino Unido poderá introduzir nas regras da UE e continuar a ter acesso ao mercado Europeu. Se for longe de mais, deixará de poder vender para os 500 milhões de consumidores europeus, mas se continuar muito alinhado não terá as vantagens competitivas que o Brexit prometeu. Se os britânicos passarem a comer galinha lavada com cloro, a divergência entre o Reino Unido e a União Europeia terá sido substantiva.

Tendo em conta as divisões entre os restantes 27 em temas como o orçamento plurianual, é de prever que o negociador-chefe Michel Barnier apresente linhas claras do que pretende a União Europeia, ou vai estar sujeito à tentação de alguns países de reformularem por si sós a relação com o Reino Unido?
A história recente do Brexit mostrou que a UE unida tem um poder negocial muito relevante e consegue "levar a água ao seu moinho". Mas há sempre o risco de haver divisões entre os 27, principalmente agora que estaremos a negociar o futuro das relações com Londres e não a regular o passado. Temos de ter em atenção que há áreas de negociação que pertencem à UE, em que Bruxelas fala pelos 27, e há outras áreas em que cada Estado membro é livre de negociar os seus próprios acordos. É, portanto, possível que os 27 mantenham a unidade nas questões da UE e tenham posições individuais noutras áreas. Como também é possível que os interesses nacionais falem mais alto. Teremos de ver como o processo se desenrola.

Como estão os setores anti-Brexit britânicos a gerir a situação atual? Conformaram-se com a rutura, ou continuam a trabalhar para que em algum momento num futuro mais ou menos distante o Reino Unido volte à União Europeia?
Os apoiantes da continuação do Reino Unido na União Europeia na Inglaterra aparentam estar conformados. Perderam o referendo e perderam as eleições de 2019, agora esperam para ver como decorrem as negociações. Se houver um acordo equilibrado entre Londres e Bruxelas, o Brexit será uma realidade com a qual terão de viver durante muitos anos. A questão coloca-se, portanto, se o acordo for mau ou mesmo se não houver acordo. Já os opositores ao Brexitna Escócia estão galvanizados. Não quiseram o Brexit em 2016 e votaram fortemente no Partido Nacionalista Escocês em 2019, que promete lutar pela independência da Escócia e voltar a integrar a União Europeia. O Parlamento e o governo de Edimburgo já aprovaram a realização do referendo, mas Londres está contra. Será uma longa batalha política e jurídica com um final incerto.

Vitória do Sinn Féin nas eleições irlandesas vem ameaçar ainda mais a sobrevivência do Reino Unido, com a Irlanda do Norte até mais próxima da rutura do que a própria Escócia ultraeuropeísta?
A vitória do Sinn Féin na República da Irlanda, que se soma à eleição na Irlanda do Norte de mais deputados que defendem a reunificação da Irlanda do que os que defendem a continuação do Reino Unido, são sinais importantes e que podem ter consequências para o futuro. Note-se que o Acordo de Sexta-Feira Santa (que puseram fim a 30 anos de quase guerra civil na Irlanda do Norte) prevê que, quando houver uma maioria que o deseje, possa haver um referendo na Irlanda do Norte - seguido de um outro referendo na República da Irlanda - para decidir o futuro da província.

Boris Johnson reformulou há semanas o governo britânico. O objetivo foi torná-lo mais à sua imagem, ou ainda tem que ver com a estratégia pós-Brexit?
O primeiro-ministro enfrenta vários desafios nos próximos meses e anos: a negociação com a União Europeia, as negociações com outros países para estabelecer novos acordos comerciais e, internamente, lidar com as consequências do Brexit e tentar curar uma sociedade muito dividida. É natural que deseje ter à sua volta uma equipa em que confie. A surpresa da remodelação foi a demissão do ministro das Finanças, que não aceitou a ordem para demitir todos os seus assessores e trabalhar com os assessores do gabinete do PM, o que poderá significar a vontade de Boris Johnson em controlar muito mais de perto o funcionamento do governo.

Ao manter o 5G da Huawei, o Reino Unido rejeita as pressões americanas contra a empresa chinesa, um pouco com estão a fazer os 27. Isso significa que a tão falada parceria entre Johnson e Donald Trump não é assim tão certa?
Brexit significa que o Reino Unido terá de construir uma nova rede de parceiros económicos e comerciais e que a China, tal como os Estados Unidos ou a União Europeia, não pode ser ignorada. Londres terá agora de fazer um exercício de equilíbrios e negociações entre interesses opostos. Aceitar a participação da Huawei contra a vontade expressa dos Estados Unidos poderá ser um sinal desses equilíbrios.

O PIB britânico foi ultrapassado em 2019 pelo da Índia, o que é simbólico do fim de uma era. Que sinais há de desempenho da economia britânica neste primeiro mês pós-Brexit?
Em bom rigor, e sendo certo que o Reino Unido já não é um Estado membro da União Europeia, até ao fim do período de transição continua a ter o mesmo acesso ao mercado comum que tinha antes. por isso ainda não é possível avaliar o impacto do Brexit na economia britânica. E esse impacto dependerá dos acordos que Londres consiga com a UE e com os outros potenciais parceiros E, mesmo que as coisas não corram assim tão bem, poderão passar alguns meses ou mesmo anos até podermos avaliar esses impactos, pois o governo britânico tem previsto um programa de investimento público massivo, o que fará acelerar a economias.


A Defesa, nomeadamente a cooperação no âmbito da NATO, continuará a ser o principal ponto de união entre o Reino Unido e os 27?
A Defesa foi sempre um caso de amor-ódio entre o Reino Unido e alguns Estados da União Europeia, pois enquanto Londres sempre defendeu o primado da NATO, outros entendem que a UE deve ter capacidade militar autónoma. Os discursos e proclamações dos dois lados do canal da Mancha são unânimes em afirmar a colaboração em questões de defesa e segurança, e esperemos que assim seja, pois o Reino Unido tem o maior exército europeu e é um dos dois países no continente com capacidade nuclear e com assento permanente no Conselho de Segurança da ONU.

Algum sinal até agora de impacto do Brexit nas relações luso-britânicas?
Até à data, nada mudou e nada mudará durante o período de transição. Mas importa começar já a trabalhar no modelo de relacionamento entre Lisboa e Londres após 2020. E devemos trabalhar igualmente na criação de condições para que as universidades, as organizações da sociedade civil e as empresas dos dois países possam manter e até aprofundar as suas relações. Portugal e o Reino Unido são aliados antigos, são democracias atlânticas e têm interesses comuns. Dentro ou fora da União Europeia, temos o dever e temos o interesse partilhado em estabelecer as mais vastas e mais profundas relações bilaterais em todas as áreas possíveis.

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