A ideia de que a Suécia será o Douro do futuro, como região de produção vinícola por excelência, pode ser uma profecia demasiado ousada, mas que o atlas mundial do vinho corre sério risco de alterações, é uma evidência anunciada pelos diversos estudos nesta área. As alterações climáticas já estão a mudar o vinho que é produzido hoje e as projeções de futuro são suficientemente preocupantes para que o setor invista cada vez mais recursos em investigação, em busca das melhores formas de se adaptar a um aquecimento global que, em Portugal, pode levar a um aumento da temperatura média anual entre 0,7 e 3 graus centígrados até final do século.."Se a temperatura média aumentar dois ou três graus no verão ficaremos com temperaturas semelhantes ao norte de África, e não há videiras no deserto do Sara", resume João Santos, professor da UTAD e investigador do CITAB, o Centro de Investigação e de Tecnologias Agroambientais e Biológicas associado à universidade transmontana. A urgência está na adaptação, para uma indústria de vinhos que a nível global, em 2017, estava avaliada em cerca de 265 mil milhões de euros, segundo a Zion Market Research.."Todas as regiões de vinho provavelmente irão mudar, de uma maneira ou de outra. Aquelas com áreas relativamente pequenas e muito pouca diversidade climática na região serão as que mais vão mudar as suas fronteiras. Algumas regiões maiores, com maior diversidade climática, podem ver algumas áreas dentro da própria região tornarem-se mais adequadas e outras nem tanto. No entanto, dada a magnitude das alterações projetadas para o futuro, não vejo como qualquer região possa ficar imune à mudança", responde ao DN, por e-mail, o norte-americano Gregory Jones, especialista na climatologia aplicada à viticultura e diretor do Evenstad Center for Wine Education, em Oregon..Gregory Jones é um dos nomes com presença anunciada na cimeira Climate Change Leadership - que vai decorrer na próxima semana, no Porto, entre os dias 5 e 7 de março, neste ano com Al Gore como orador principal (convidado por Adrian Bridge, entrevistado nesta edição do Dinheiro Vivo) - e aponta como regiões sob maior risco "aquelas que já estão mais quentes ou perto do limite do clima em termos de temperatura e escassez de recursos hídricos"..O hotspot mediterrânico.Os modelos de previsão do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas [IPCC] são particularmente preocupantes para Portugal. "A bacia mediterrânica é um hotspot das alterações climáticas", lembra João Santos. "E Portugal será dos países mais afetados", acrescenta, identificando "o Alentejo interior como a zona de maior risco, seguido do Douro Superior"..O prolongamento das estações secas e a diminuição de precipitação na primavera (sobretudo) vão sujeitar as videiras a "maior stress hídrico". E se estas plantas aguentam bem a secura moderada do Mediterrâneo atual, sofrerão com a secura excessiva e o aumento do dióxido de carbono projetados, avisa o docente, enumerando possíveis efeitos: "Menor produção, maturação mais rápida da uva obrigando a colheitas antecipadas, vinhos com mais álcool e menos acidez, alteração da estrutura fenólica do vinho...".No processo de adaptação, é a própria paisagem vinhateira que se vai alterando, em busca de regiões mais frescas, cotas mais altas e castas mais resistentes à seca. "Pode-se ter de rever a tipicidade dos vinhos produzidos", aponta João Santos. "Há que ver que castas se adaptam melhor a cada caso e ao tipo de vinho que se quer. Mas pode levar a uma alteração da localização das vinhas, de cotas mais baixas para mais altas, onde o clima é mais fresco. As zonas que eram ótimas no passado, se calhar já não serão as melhores no futuro", explica este professor, que coordena o Clim4Vitis, projeto europeu de investigação liderado pela UTAD sobre o impacto das alterações climáticas na viticultura..Protetores, robôs e outras técnicas.Enquanto a alteração da paisagem vinhateira se vai projetando a longo prazo, há medidas de mitigação dos efeitos das alterações climáticas que vão sendo já testadas e implementadas. José Moutinho, professor do departamento de Biologia e Ambiente da UTAD, lidera uma dessas linhas de investigação no terreno, que consiste em aplicar uma espécie de protetor solar (o caulino) nas folhas da videira para as proteger do escaldão.."Esta prática não é a solução milagrosa, é apenas uma medida que, juntamente com muitas outras, deve ser equacionada em função das especificidades das parcelas e da maior ou menor sensibilidade das castas. É mais ou menos como o uso de protetor solar para cada tipo de pele das pessoas que vão para a praia...", diz José Moutinho..O caulino está a ser aplicado já em grandes quintas no Douro e no Alentejo. E os resultados têm demonstrado uma "redução significativa da temperatura das folhas", com "reflexos positivos no comportamento fisiológico da planta e na melhoria da produtividade e da qualidade das uvas"..Além disso, tem permitido a redução do uso e dos custos de água, outro fator de extrema importância no quadro das alterações climáticas, já que os recursos hídricos são cada vez mais escassos. "A maioria das regiões estão a ter aumento de temperatura e de secura, por isso a irrigação pode tornar-se cada vez mais importante. Para regiões sem histórico de rega, como o Douro, onde se levantam inúmeras questões como os recursos hídricos disponíveis, as infraestruturas de rega e a concorrência pela água para fins sociais, essa solução pode ser difícil, senão impossível", alerta Gregory Jones, há muito um estudioso da região duriense..Na Quinta do Ataíde, propriedade da Symington, no Douro Superior, uma equipa de investigadores da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP) liderada pelo professor Jorge Queiroz desenvolve outro projeto europeu, o VISCA. Aqui testa-se um serviço de clima, com projeções de curto, médio e longo prazo. "Um dos objetivos é antecipar a previsão sobre que castas serão mais adequadas a que locais daqui a 20 ou 30 anos", refere o investigador..No âmbito do projeto, está a ser desenvolvida uma plataforma que integrará especificações de clima, agrícolas e outras, e que "vai ajudar os produtores a perceber se o ano está adiantado ou atrasado, em termos de ciclo de maturação, permitindo atuar de acordo com a informação disponível e melhorando a qualidade de gestão ", explica Fernando Alves, responsável pela área de desenvolvimento e investigação da Symington..Em simultâneo, os investigadores da FCUP testam, numa casta Touriga Nacional, a técnica crop forcing (poda tardia forçada), para atrasar três a quatro semanas o ciclo de maturação, devolvendo as vindimas a alturas como finais de setembro ou outubro por forma a obter vinhos mais equilibrados (vinhos precoces têm mais álcool e menos acidez)..A Symington acolhe ainda um outro projeto europeu de investigação, o VineScout, que coloca um robô a monitorizar a vinha. Mas estas são intervenções de curto prazo. A médio e longo prazo outras medidas podem impor-se, como as já referidas alterações de castas (o tipo de vinho produzido) e relocalização das vinhas (para cotas mais altas e exposições solares mais a norte)..Castas autóctones: as pistas do passado.Em muitos casos, trata-se de voltar ao passado para antecipar o futuro. Isto é, redescobrir as castas autóctones que melhor se adaptam ao clima e ao solo de cada região e que, muitas delas, foram sendo abandonadas em prol das mais procuradas pelo mercado.."O Douro tem a vantagem de, primeiro, ter uma orografia muito particular, que leva a que muitas vezes, numa mesma propriedade, se tenha um desnível de 100 a 200 metros, permitindo subir a encosta ou mudar a exposição mais facilmente. O Alentejo já não tem essa hipótese. E depois há um património genético muito rico. Temos mais de 200 castas autóctones. Por isso, é fazer o trabalho de casa e ver as que melhor se adaptam ao futuro clima", sublinha Jorge Queiroz..É nesse trabalho de casa que as grandes empresas do vinho apostam cada vez mais, de forma a antecipar soluções para o impacto das alterações do clima. A Symington tem nesta altura "três campos ampelográficos espalhados por diferentes propriedades, onde está a testar a resposta de diferentes castas", diz Fernando Alves, que, sem quantificar, garante: "Fazemos um investimento muito importante em investigação.".Nesta altura, no entanto, o responsável Symington diz que "é prematuro dizer se o clima vai obrigar a mudar castas dos vinhos ou a procurar outras geografias para as vinhas" da empresa. O que não é prematuro é a necessidade de estar preparado para essas possíveis adaptações. "Não adaptar a vinha é, provavelmente, a maior ameaça de todas. Continuar a fazer os mesmos vinhos para o mercado perante as alterações climáticas em curso não seria prudente", alerta Gregory Jones.