Em busca do acórdão perdido

Eles eram dois cortes de cabelo talhados para dar-se bem. As têmporas rapadas de um, de onde brotava um tufo negro e adolescente, encaixavam na melena canária já incapaz de esconder a careca do outro. Kim Jong-un e Donald Trump estavam destinados a entender-se com a perfeição dos contrários que são feitos um para o outro. Como a chave e a fechadura; o pacto Molotov-Ribbentrop e o Ribbentrop-Molotov, em 1939... Gritantemente diferentes e, no entanto, de explicação mútua.

Mas acabou tudo (e agora refiro-me só ao par inicial, o Kim e o Donald), por causa de um problema de tradução. O do tufo ridículo pensava que. Por seu lado, o da madeixa ridícula pensava que. Era uma disputa entre não sanções a troco de não treinos nucleares. Algures na tradução perdeu-se a ligação da ficha com a tomada. Perdeu-se a cimeira e a próxima, agora, só depois do Carnaval. Entenda-se por Carnaval as eleições presidenciais americanas do ano que vem...

Diz-se das guerras que elas são demasiado importantes para ser deixadas nas mãos dos militares. O mesmo, afinal, para as cimeiras, das quais devem ser afastados os líderes mundiais que se distinguem só pelo cocuruto fantástico. Sejamos claros, as cimeiras são para ser feitas por cabeças, sim, mas do lado de dentro: na área cerebral de Broca e na área cerebral de Wernicke (ide ler o António Damásio que ele explica). Lá, onde as palavras se fazem, formam e se misturam.

As palavras, a maravilha de elas se juntarem, o mundo que elas nos abrem... O respeito por cada uma delas. Em breve, depois do Carnaval que talvez nos tenha já livrado daquele que tropeça nas palavras, fará um século que Marcel Proust morreu. A 18 de novembro de 1922, o autor dos sete volumes de Em Busca do Tempo Perdido (3500 páginas nas edições de bolso) escreveu uma frase de 30 caracteres, bem menos do que um tuíte, então ainda não inventado. Era um bilhetinho para a criada, Céleste Albaret, que o cuidava na gripe mal curada que mataria o romancista. Foram as últimas palavras escritas de Marcel Proust.

Ele estava acamado e Céleste para o entreter lia-lhe palavras cruzadas de jornal. Ela pediu-lhe a solução para: "Há também, e talvez sobretudo, nas casas de vidro, com onze letras?" Proust respondeu: "Antiferrugem [antirouille, em francês]." Ela disse-lhe que não, e foi para a cozinha. Demorou-se. Não há testemunhas para o que se seguiu - senão o bilhetinho, que em português é ainda mais curto: "Ouvi ferro em vez de vidro", foi como Proust explicou a Céleste o seu erro. Ouvira dela "casas de ferro", em vez de "casas de vidro" - em francês fer (ferro) e verre (vidro) são quase homófonas - e, assim, ele não pôde adivinhar a solução certa: cachotterie, segredinho, pequeno mistério, como tantos há nos locais expostos (casas de vidro)...

Em si mesmo foi um simples problema de palavras cruzadas. Li-o em edição recente da revista literária francesa Lire e o episódio é uma espécie de lenda. Em 2011, o bilhete, sujo por mancha de café, foi vendido em leilão pela Sotheby's por 21 mil euros... Mas a história vale pela vontade do agonizante em querer que as suas últimas palavras levassem com elas uma explicação. Goethe foi grandioso: "Deixem entrar a luz." As últimas palavras de Almeida Garrett são pungentes: "Eu já não o vejo", disse a um amigo... As últimas palavras de Marcel Proust foram para as palavras, dizendo quanto as respeitava.

Estou-me nas tintas para as últimas palavras do juiz Neto de Moura. Mas agradecia que respeitasse, entretanto, o valor das palavras, a força delas e a influência delas nos acórdãos que ele escreve. Proponho um jogo ao juiz: pense que as portuguesas e os portugueses são a Céleste, que Proust quis que soubesse que as palavras são o que são, mesmo em palavras cruzadas. Quanto mais em acórdãos!

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