Portugueses são dos que mais investem em dívida do Estado

Em cinco anos as famílias portuguesas triplicaram o valor investido em dívida pública. Portugueses já têm 14% da dívida direta do Estado

Portugal já foi um dos países da Europa em que as famílias menos investiam em dívida do Estado. Mas isso mudou nos últimos anos. Em cinco anos o valor aplicado pelos particulares no financiamento do Estado mais que triplicou para 34,5 mil milhões de euros. Em maio de 2013 esse valor era de pouco mais de 11 mil milhões.

Cerca de 14% da dívida direta do Estado estava, no final de maio, nas mãos das famílias, segundo cálculos do DN/Dinheiro Vivo baseados em dados da Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública (IGCP). Na zona euro, apenas em Malta os particulares têm um peso mais alto, de acordo com o Eurostat.

Há cinco anos, as famílias portuguesas detinham apenas 5% da dívida direta do Estado. Mas nos últimos anos, o Tesouro tentou captar as famílias com novos produtos com taxas acima dos depósitos dos bancos. E os aforradores aderiram em força.

Só em 2016 e 2017, os portugueses colocaram cerca de 13,3 mil milhões de euros em dívida pública. As famílias asseguraram 25% das necessidades de financiamento do Estado desses dois anos. Esse apoio foi importante para Portugal conseguir fazer reembolsos antecipados ao FMI. O Tesouro antecipou o pagamento de mais de 80% do empréstimo concedido por aquela instituição no âmbito do programa de resgate, o que livrou o país de juros mais altos.

Ritmo do investimento desce

Este ano, os portugueses continuam a dar um apoio positivo ao financiamento da República. Mas a um ritmo menor que nos anos anteriores. Nos primeiros cinco meses do ano investiram mil milhões de euros em instrumentos de poupança do Estado.

As aplicações mais moderadas devem-se à descida da remuneração de alguns produtos. Em outubro do ano passado, o IGCP decidiu baixar os juros nos Certificados do Tesouro. Pagam uma taxa efetiva ilíquida de 1,38% para quem os detenha por sete anos. Antes disso, o juro efetivo antes de impostos era de 2,23% para quem mantivesse a aplicação durante cinco anos.

Apesar da descida da remuneração, os Certificados do Tesouro continuam a ter taxas acima dos depósitos oferecidos pelos bancos, o que ajuda a explicar as subscrições líquidas deste produto desde o início do ano. Já os Certificados de Aforro têm perdido investimento. Segundo os dados mais recentes do Banco de Portugal, relativos a abril, a média dos novos depósitos pagava 0,18% de juro.

Tesouro quer mais 500 milhões das famílias

Outra das grandes armas do Estado para captar a poupança das famílias foram as Obrigações do Tesouro de Rendimento Variável. Este produto foi lançado em 2016 e foram feitas seis emissões desde essa data. Apesar de ser um instrumento que tem risco de mercado e de, contrariamente aos certificados, ter custos com comissões bancárias, foram uma fonte importante de financiamento.

Em 2016 e 2017, nas seis ofertas de OTRV, o Estado captou quase sete mil milhões de euros. O IGCP anunciou uma nova oferta destes instrumentos que arranca na próxima quarta-feira e termina a 17 de julho. O Tesouro conta obter um financiamento a sete anos de 500 milhões de euros com a operação. Em troca propõe um juro ilíquido de 1%, a que pode acrescer o valor da Euribor quando esta taxa regressar a valores positivos, algo que o mercado estima que apenas aconteça em 2020.

O valor final da operação poderá ser maior, já que o IGCP tem a opção de aumentar o montante a emitir até 10 de julho. Em todas as ofertas de OTRV realizadas no passado, o Tesouro optou sempre por rever em alta esse valor.

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