Emirados Árabes Unidos. Quando eu fui à Fujeira

Mala de viagem (55). Um retrato muito pessoal dos Emirados Árabes Unidos.

Fui ao encontro da criatividade de uma cidade que nasceu num território que não era completamente desértico, ao contrário do que se possa pensar. Existem diferentes complexos arqueológicos neolíticos a atestar povos antigos. Por exemplo, em Umm al-Quwain, arqueólogos franceses descobriram a pérola fina mais antiga de que há conhecimento, com cerca de 7500 anos. Depois, o nomadismo era feito por povos que sempre transportavam consigo tudo o que possuíam. Mais proximamente, vieram a pesca artesanal e o petróleo. Em 1971, nasceram os Emirados Árabes Unidos, localizados no Sudeste da Península Arábica, entre Omã e a Arábia Saudita. Passou a haver uma federação de sete estados: Abu Dhabi, Dubai, Xarja, Ajmã, Umm al-Quwain, Ras al-Khaimah e Fujeira. Nas últimas cinco décadas, a nação transformou-se rapidamente dos lugares de pesca para um dos mais importantes centros económicos do mundo. Neste panorama, talvez o Estado mais suspeito de se visitar seja o de Fujeira, cujo nome, traduzido para português sabe-se lá por quem, me soa a um daqueles lugares suburbanos de Lisboa ou da margem sul do Tejo. Mas não, Fujeira vem do árabe "Fujairah". A cidade do mesmo nome, capital deste Estado, é atravessada pela estrada Hamad Bin Abdulla, que também liga esta cidade ao Dubai e onde está instalada a maioria dos hotéis. Precisamente, vindo do Dubai, fiz essa estrada com um guia brasileiro que trabalha nestas cidades. Fui para conhecer de perto a chamada "Cidade Criativa", na Sheikh Khalifa Highway, a oeste, criada como um centro de conexão de entidades e serviços associados à comunicação social, à música, ao entretenimento, aos eventos, à promoção e ao "design". A organização ajuda novos empreendedores e garante o progresso das pequenas empresas, com facilidade e segurança, no espaço regional e mundial dos negócios. A minha ideia era explorar as possibilidades de criar uma empresa em turismo de arquitetura para exercer nos diferentes Estados dos Emirados. A razão é que este país reinventa o urbanismo e a arquitetura. A história do século XXI desenvolve-se neste território em todas as áreas criativas, mas principalmente nas do urbanismo e da arquitetura, que refletem cidades globalmente ativas. A incrível pressão da economia de mercado imprimiu à arquitetura condições cada vez mais extravagantes, e antes absurdas, mas realmente concretizáveis neste território. Todos os dias há um novo começo. O fenómeno é ambíguo e multifacetado, e o resto do mundo tem sido cúmplice desta extravagância. E o que é que estes estados terão para nos oferecer no futuro? Será como o "sonho americano" de há um século? Olhar este território de perto e descobrir as fontes de beleza para além das de riqueza é uma porta importante para se conhecer o fenómeno. Antes do regresso, que estava marcado para sábado, ainda deu para assistir a uma tourada, na sexta-feira. Apenas fiquei interessado nela porque já sabia que não inclui matadores, embora consista numa luta entre dois touros pelos chifres, o que pode resultar em ferimentos, mas sem o sofrimento que existe na tourada ibérica. No dia seguinte, segui para o aeroporto, num voo com destino a Islamabad, no Paquistão. Há quem não "fuja" deste lugar e ganhe muito bem a sua vida, e há sempre uma pérola fina num sítio cujo nome foi assim traduzido pela criatividade lusófona.

Jorge Mangorrinha, professor universitário e pós-doutorado em turismo, faz um ensaio de memória através de fragmentos de viagem realizadas por ar, mar e terra e por olhares, leituras e conversas, entre o sonho que se fez realidade e a realidade que se fez sonho. Viagens fascinantes que são descritas pelo único português que até à data colocou em palavras imaginativas o que sente por todos os países do mundo. Uma série para ler aqui, na edição digital do DN.

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