Poder físico e defesas intratáveis. Inglaterra e África do Sul discutem trono do râguebi mundial

Depois de dois Mundiais consecutivos ganhos pela Nova Zelândia, Inglaterra e África do Sul disputam no sábado, em Yokohama, a final do Mundial do Japão, para definir quem vai ocupar o trono do râguebi deixado vago pelos All Blacks que dominaram a modalidade nos últimos oito anos.

Doze anos depois da final do saudoso Mundial de 2007 em França - única presença da nossa seleção nacional numa fase final -, Inglaterra e África do Sul voltam a encontrar-se no jogo decisivo da prova. E se os ingleses nunca aceitaram a derrota então sofrida no Stade de France (15-6) - ainda hoje consideram que a decisão do árbitro australiano Stuart Dickinson, após intervenção do videoárbitro, de anular o ensaio ao ponta Mark Cueto por ter pisado a linha lateral, foi errada - então a partida deste sábado, em Yokohama (09.00, SportTV1), servirá como um tardio ajuste de contas entre as duas seleções. O jogo será dirigido pelo francês Jérome Garcès, que fará a despedida dos relvados internacionais.

Frente a frente estarão dois modelos distintos de jogo, qualquer deles suportado por um tremendo poder físico e uma intratável defesa. Serão certamente 80 minutos de enorme intensidade - algo que os ingleses irão privilegiar perante uns sul-africanos que pretenderão reduzir o infernal ritmo imposto pelos temíveis transportadores de bola adversários - e plenos de brutais embates entre os dois mais agressivos e poderosos packs avançados do mundo.

É uma final de difícil previsão, apesar do maior favoritismo concedido à Inglaterra, isto depois da lição dada à Nova Zelândia na meia-final (19-7) e que a conduziu ao 1.º lugar do ranking mundial onde não estava desde junho de 2004. Os seus avançados são colossais com uma tendência para perfurar as defesas adversárias como há muito não se via. E os três-quartos são muito imaginativos e munidos de uma panóplia de movimentos de ataque difíceis de contrariar. Para lá dos fantásticos alinhamentos, departamento no qual os Springboks têm igualmente os seus heróis voadores - a batalha aérea será digna dos célebres combates da Segunda Guerra Mundial.

A partida contra os All Blacks, das meias-finais, terá sido o melhor jogo de sempre da seleção rosa - e qualquer outra equipa do mundo teria sido dizimada após aqueles fantásticos 80 minutos que entrarão como um clássico na história -, em que a Inglaterra adotou uma estratégia que impediu e anulou os pontos fortes da Nova Zelândia, dominando em todos os capítulos de jogo, nomeadamente nos turnovers (fez 15 contra 4), fruto da tremenda agressividade defensiva que conseguiu desacelerar a normalmente muito rápida saída de bola dos neozelandeses. O que desorganizou e confundiu por completo o seu espetacular estilo de jogo.

A Inglaterra que, finalmente e sob o comando de Eddie Jones - que fará no sábado o seu 50.º jogo ao leme dos ingleses, apresentando uma taxa de sucesso de 80%, a melhor na história da equipa da rosa -, deixou de praticar um râguebi previsível, facilmente dissecado e contrariado. E em caso de vitória, poderá orgulhar-se de um inesquecível hat-trick ao bater, de enfiada, as três maiores potências do hemisfério sul que, curiosamente, ocuparam o pódio no Mundial 2015.

Mas, bem avisados, os Springboks, agora na 2.ª posição do ranking, terão outras ideias em mente. Até porque sabem que, em caso de triunfo, serão a primeira seleção a sagrar-se campeã mundial tendo perdido um jogo na prova, fruto do desaire na ronda inaugural diante da Nova Zelândia (23-13).

Claro que a sua exibição na meia-final diante de Gales foi bem menos impressionante e objeto de menores elogios. Numa partida não tão entusiasmante de seguir e com muito menos quebras da linha da vantagem, a "pegada springbok" esteve sempre presente e o seu jogo tremendamente físico obrigou os galeses a efetuar muitas faltas. E mesmo com o resultado em 16-16 perto do final, pairou sempre a ideia de que os sul-africanos iriam arranjar maneira de superar o adversário. E conseguiram-no a quatro minutos do fim com nova penalidade de Handré Pollard (11 pontos em pontapés) depois de destroçarem, mais uma vez, a avançada galesa num demolidor maul.

Inglaterra sem mudanças e Kolbe regressa nos Springboks

A Inglaterra venceu os últimos dois duelos entre ambos, mas no ano passado perdeu as series na digressão de verão à Africa do Sul (2-1). As duas seleções encontraram-se quatro vezes em Mundiais, com três triunfos sul-africanos (1999 e duas vezes em 2007) contra uma vitória inglesa, em 2003, ano em que a equipa da rosa conquistou o seu único título mundial.

Enquanto a Inglaterra irá apresentar o mesmo quinze que derrotou os All Blacks (primeira vez desde 2016 em que é repetida idêntica equipa em jogos sucessivos!), a África do Sul - liderada por Siya Kolisi, primeiro negro a capitanear a sua seleção e que cumprirá a 50.ª internacionalização - recebeu o enorme impulso de ver o regresso do recuperado de lesão Cheslin Kolbe, um dos mais rápidos e perigosos pontas do mundo, e que traz ao quinze sul-africano o fator x que pode ser determinante. No banco springbok estará François Steyn, de 32 anos, que em 2007 foi titular como 1.º centro na triunfante final de Paris e poderá tornar-se o 21.º jogador a sagrar-se bicampeão mundial e segundo sul-africano após o antigo pilar Os du Randt.

"Definitivamente que podemos jogar mais", disse Eddie Jones na antevisão da final. "E os jogadores têm a noção disso. Eles têm-me impressionado com a sua atitude nos treinos, particularmente nesta semana. Nota-se uma enorme determinação e ao mesmo tempo um sentimento de uma certa satisfação, mesmo felicidade, pois reconhecem o muito que trabalharam para aqui chegar e sabem qual o caminho certo para a vitória final", concluiu o técnico australiano que, curiosamente, na final de 2007 estava do outro lado como consultor da equipa técnica liderada por Jake White.

"Chegar à final não é suficiente para os meus jogadores", disse por seu turno Rassie Erasmus, que irá abandonar o cargo de selecionador após ter tomado conta da seleção sul-africana no início de 2018 com os Springboks em completa desordem (tinham perdido 11 dos últimos 25 jogos!), levando-os à conquista do Rugby Championship deste ano, 10 anos depois do derradeiro triunfo na prova que junta as quatro potências do hemisfério sul.

"Talvez não sejamos favoritos, mas tenho a certeza de que os jogadores vão deixar tudo em campo e não ficará gota de combustível no depósito, que é tudo o que lhes posso pedir. Se perderem com um quinze que lhes foi superior é a vida e seguimos em frente." E terminou: "Enfrentamos difíceis problemas no nosso país, mas o râguebi pode, durante um dia ou mesmo durante meses, fazer as pessoas esquecerem dificuldades e discórdias, tal como aconteceu nos triunfos nos Mundiais de 1995 e 2007. Precisamos desta vitória e isso dá-nos a máxima motivação. Queremos ganhar pelo nosso país."

All Blacks e Gales no jogo em que ninguém queria estar

Nesta sexta-feira, em Tóquio, Nova Zelândia e País de Gales, os derrotados nas meias-finais defrontam-se no jogo que ninguém quereria disputar: a atribuição dos 3.º e 4.º lugares, que ficará marcado pela despedida do dois selecionadores (os neozelandeses Steve Hansen e Warren Gatland) e de algumas figuras que marcaram indelevelmente o râguebi all black nos últimos largos anos como o capitão Kieran Read e ainda Ben Smith, Ryan Crotty e Sonny Bill Williams.

Depois da desilusão de sábado passado, os neozelandeses são os naturais favoritos, até porque a sua reação aos desaires costuma ser muito vigorosa e não quererão quebrar uma série de 30 vitórias consecutivas, desde que em 1953 (ou seja, há 66 anos!) foram pela última vez derrotados pelos galeses.

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