O que a União Europeia perde com a saída do Reino Unido

Menos 66 milhões de habitantes, menos 5,4% do território ou menos 16 empresas das 500 mais ricas do mundo, mas também 133 prémios Nobel ou 849 medalhas olímpicas.

A União Europeia cortou os laços com o Reino Unido às 23.00 de sexta-feira e nasceu uma nova união a 27. A saída dos britânicos reflete-se a nível de população ou território, mas também a nível de hard power (por exemplo, defesa), assim como de soft power (como o poder das universidades). Veja aqui algumas das coisas que a União Europeia perde com a saída dos britânicos, 47 anos depois da sua adesão.

População: -13%

A saída do Reino Unido da União Europeia significa a perda de 66 milhões de habitantes, isto é 13% da população (só França e Alemanha têm mais habitantes). Seremos agora 446 milhões. Segundo a ONU, cerca de 1,2 milhões de cidadãos britânicos vivem nos restantes países da UE, principalmente em Espanha, Irlanda, França, Alemanha e Itália, mas também em Portugal. Pelo contrário, 2,9 milhões de habitantes dos 27 vivem no Reino Unido, o que representa 4,6% da população. Segundo o acordo de saída, tanto uns como outros mantêm os direitos de residir e trabalhar no país de acolhimento. Mas no caso dos europeus que vivem no Reino Unido têm que se registar. A liberdade de circulação aplica-se até ao final do ano, mas o que acontece em 2021 tem ainda de ser negociado entre ambas as partes.

Território: -5,4%

Com o Brexit, a UE perde 5,4% do seu território. Atualmente, os 28 países têm uma área combinada de 4,5 milhões de km2. O Reino Unido representa 243 mil km2. A UE volta a ter apenas 27 países, como aconteceu entre 2007 e 2013, depois da adesão da Bulgária e da Roménia e antes da entrada da Croácia. O inglês continua a ser uma das 24 línguas oficiais, por causa da Irlanda.

PIB: -2,7 biliões de dólares

No ano passado, o PIB europeu foi de 18,3 biliões de dólares (os trillions anglo-saxónicos), com 2,7 desses biliões referentes ao PIB britânico (só o alemão é superior dentro da UE, chegando aos 3,8 biliões de euros). A saída do Reino Unido significa por isso a perda desses 2,7 biliões, segundo dados do FMI. Estima-se que o PIB tenha crescido 1,5% na UE em 2019, um valor acima do 1,2% do Reino Unido, que tem crescido a um ritmo inferior à média dos 27, devendo continuar assim após o Brexit.

Empresas: -16

A UE tinha, até à saída do Reino Unido, 115 empresas na lista das 500 mais ricas do mundo listadas na Global 500 da revista Fortune. Com o Brexit, perde 16 empresas, não contando com a Unilever, uma multinacional holandesa e britânica. No top 10 da lista, a UE perde uma empresa (a BP, que é sétima), mantendo a terceira posição da neerlandesa Royal Dutch Shell e o nono lugar da alemã Volkswagen.

Despesas militares: -50 mil milhões de dólares

Numa altura em que se fala na criação de um exército europeu, a UE perde uma das maiores potências militares do mundo. Em 2018, a soma das despesas militares dos 28 chegava aos 280,9 mil milhões de dólares. Destes, 50 mil milhões foram gastos pelo Reino Unido, que só fica atrás na UE da França em gastos militares (63,8 mil milhões).

Universidades: -17,8%

A UE tinha, em 2019, 343 universidades no ranking de Xangai, que lista as mil melhores instituições de ensino superior do mundo. Destas, 61 eram britânicas, o equivalente a quase um quinto (17,8%). No top 10, além das norte-americanas, só existem duas universidades no Reino Unido (Cambridge, em 3.º) e Oxford, em 8.º). É preciso chegar à 26.ª posição para encontrar a primeira universidade europeia não britânica, a Universidade de Copenhaga.

Prémios Nobel: -21,5%

O Reino Unido é, depois dos EUA, o país com mais galardoados com prémios Nobel. Já recebeu 133 prémios, dois deles foram para o mesmo químico, Frederick Sanger (pelo trabalho com a insulina em 1958 e pelo trabalho na sequenciação do ADN em 1980). No total, a UE recebeu 751 prémios (tendo em conta que duplas nacionalidades são contadas duas vezes, como o caso de Marie Curie, polaco-francesa, que além disso também ganhou dois prémios, um da Física em 1903 e outro de Química em 1911). A saída do Reino Unido significa uma perda de 21,5% dos Nobel. Só três países da UE ainda não têm um: Malta, Estónia e Eslováquia.

Conselho de Segurança da ONU: -50%

A UE tinha, até agora, dois dos cinco membros permanentes no Conselho de Segurança da ONU, com direito de veto: França e Reino Unido. O Brexit vai deixar a UE em desvantagem neste importante órgão, com o Reino Unido a já não estar sujeito às posições europeias - o Tratado da UE diz que os seus membros no Conselho de Segurança "devem consultar-se" e "defender" o interesse do bloco. Mas isso não significa que europeus tenham votado sempre em uníssono na ONU. Ainda recentemente, a 10 de janeiro, os britânicos alinharam-se com os EUA e abstiveram-se numa votação sobre alargar a ajuda fronteiriça à Síria, que tinha sido proposta pela Alemanha e pela Bélgica (membros não permanentes até ao final de 2020) e apoiada pela França e pela Estónia (outro membro não permanente, cujo mandato só acaba no final de 2021).

Patentes: -12%

De acordo com os dados da Organização Mundial da Propriedade Intelectual, os países da UE registaram mais de 102 mil pedidos de patente em 2018, dos quais pouco mais de 12 mil foram de empresas ou cidadãos britânicos. Nesta lista, a Alemanha segue destacada no espaço europeu, com mais de 46 mil pedidos de patente nesse mesmo ano, enquanto Portugal registou 661. O Brexit significa uma importante perda de propriedade intelectual para a UE de cerca de 12%.

Jogos Olímpicos: -11,5%

Só há um país na UE que nunca ganhou qualquer medalha nos Jogos Olímpicos de Verão: Malta. No total, os restantes 27 venceram 7393 medalhas de ouro, prata ou bronze. Destas, 849 (das quais 263 de ouro) pertencem à Team GB, como é conhecida a equipa olímpica britânica. O Brexit significa que o palmarés olímpico europeu fica 11,5% mais pobre. Mais medalhas do que o Reino Unido só a Alemanha (somando os dados da Alemanha de Leste antes da queda do muro e os da Equipa Unida da Alemanha, que competiu nos jogos de 1956, 1960 e 1964): tem 1346 medalhas.

Outras Notícias

Outros conteúdos GMG