Projeto Manhattan. A babel de cientistas que concebeu a "destruidora de mundos"

Julius Robert Oppenheimer é o rosto que de pronto associamos a um dos projetos que envolveram mais recursos materiais e humanos na história humana, a construção da primeira bomba atómica, na década de 1940. Oppenheimer, diretor científico do empreendimento, foi, contudo, um entre as centenas de cérebros da física, da química, da matemática, de nacionalidades americana, alemã, húngara, inglesa, italiana, entre outras, a cooperar no Projeto Manhattan, cuja sede se instalou em Los Alamos, estado do Novo México. Uma babel de cientistas que incluiu laureados com o Prémio Nobel e um espião ao serviço dos soviéticos.

"Tornei-me a morte, a destruidora de mundos." A expressão do século IV a.C. verte do épico religioso hindu Bhagavad-Gita, de um dos diálogos entre a Suprema Personalidade de Deus Krishna e Arjuna, seu discípulo e guerreiro. Uma frase lapidar, proferida em pleno campo de batalha, que, 20 séculos depois, sopraria nas palavras de Julius Robert Oppenheimer, físico norte-americano de ascendência alemã. A história trataria de vincular Oppenheimer à paternidade do nascimento da bomba atómica.

As palavras que Julius cunhou do texto sagrado e que proferiria numa entrevista à televisão norte-americana ilustravam o poder de uma nova força destrutiva. A 16 de julho de 1945, às 05.30, as montanhas em torno do campo de mísseis de Whitesands, no árido estado do Novo México, acolhiam um impacto que milhões de anos de geologia não suporiam poder existir. O clarão de luz vibrou em tons de laranja, verde e roxo. Um cogumelo de fogo elevou-se a 12 quilómetros de altitude. Em poucos segundos, a onda de impacto percorreu dezenas de quilómetros. No epicentro da explosão, sobrou uma cratera de sílica fundida, com três metros de profundidade e 300 metros de diâmetro. A experiência Trinity foi um sucesso. O mundo conheceu o poder da bomba atómica.

Na realidade, naquele 16 de julho de há 75 anos, poucas dezenas de seres humanos conheciam verdadeiramente o poder destrutivo da besta que se soltara no sudoeste dos Estados Unidos. Na entrevista já referida, Oppenheimer acrescentou: "Sabíamos que o mundo não mais seria o mesmo. Algumas pessoas riram. Algumas pessoas choravam. A maioria das pessoas ficaram em silêncio." Frases conjugadas no plural que vinculam o físico norte-americano, nascido em 1902, a um grupo de homens que, desde 1942, e sob os auspícios do presidente norte-americano Franklin D. Roosevelt, lideravam o projeto em contrarrelógio que culminaria na prova de fogo em Whitesands.

A 13 de agosto de 1942, nascia o Projeto Distrito de Manhattan. Dois anos mais tarde, o Projeto Manhattan (vingaria a designação simplificada) empregava perto de 130 mil trabalhadores, distribuídos por mais de uma dezena de estados norte-americanos, envolvia dezenas de fábricas, minas e laboratórios e contava com os contributos do Canadá e do Reino Unido. O que em 1939 nasceu como o Comité Consultivo do Urânio, com a chancela do presidente dos Estados Unidos e com um orçamento de poucos milhares de dólares, tornar-se-ia um projeto de centenas de milhares de milhões de dólares. No pico de laboração, o esforço de obtenção de urânio enriquecido levava uma das fábricas, instalada em Oak Ridge, no estado do Tennessee, a consumir mais energia do que toda a cidade de Boston.

Não obstante a escala megalómana do empreendimento, um artigo de 1945 da revista Life dava conta de que não mais de uma dúzia de homens juntavam todas as peças do imenso puzzle que foi construir com sucesso a bomba atómica. Esta tinha de se tornar uma realidade do outro lado do Atlântico. A Alemanha nazi do Terceiro Reich corria para o mesmo objetivo desde 1939.

América, abrigo para uma Alemanha em fuga

Oppenheimer, o carismático diretor científico do projeto, e o general Leslie Groves, o homem que supervisionara a construção do Pentágono e, agora, o líder do braço militar empenhado na concretização do Projeto Manhattan, tornaram-se os rostos tutelares de uma equipa com os mais notáveis físicos, químicos e matemáticos. Uma babel de cientistas norte-americanos, húngaros, alemães, italianos, suíços, entre outras nacionalidades, que incluía vários Prémios Nobel (alguns viriam a receber o prémio nas décadas subsequentes).

Los Alamos, no Novo México, também conhecida como "Sitey" e "A Colina", laboratório nacional que centralizava todos os contributos do Projeto Manhattan, contava com o labor de 300 cientistas, entre eles cérebros chegados de uma Alemanha que, na década anterior, empurrara dezenas de milhares de cidadãos de origem judaica, assim como opositores ao regime, para fora das fronteiras germânicas. Fugiam à perseguição nazi, opunham-se às políticas do nacional-socialismo.

No rol de refugiados alemães, mas também de outras nacionalidades, figuravam cientistas como Albert Einstein (Nobel da Física em 1922) e Hans Bethe (Nobel da Física em 1967), o italiano Enrico Fermi (Nobel da Física em 1938), os húngaros Leo Szilard, Eugene Wigner (Nobel da Física em 1963), John von Neumann e Edward Teller. Todos eles haveriam de contribuir para soltar a "destruidora de mundos". A 6 de agosto de 1945 e, mais tarde, a 9 do mesmo mês, as cidades japonesas de Hiroxima e Nagasáqui conheceriam a força que três semanas antes se libertara sobre as areias do deserto norte-americano. Contudo, ali, com consequência humanas devastadoras. Estima-se que mais de 240 mil seres humanos terão sucumbido ao impacto direto das duas detonações.

A carta assinada por Einstein que chegou como aviso

Se a América servia de abrigo a nomes maiores de disciplinas que viriam a cooperar para o desenvolvimento da primeira arma atómica, não é menos verdade que grandes cientistas permaneceram na Alemanha. Em 1938, Otto Hahn, Fritz Strassmann e Lise Meitner - judia, mais tarde exilada na Suécia - descobriam a fissão do átomo de urânio. Num mundo à beira da guerra, soaram os alertas para o poder destrutivo que o elemento químico U, descoberto na Alemanha no século XVIII, poderia trazer.

Uma carta de 1939, assinada por Albert Einstein e entregue a Roosevelt pelos físicos húngaros Leo Szilard e Eugene Wigner (viriam a integrar o Projeto Manhattan, respetivamente a reação de cadeia nuclear autossustentável e a criação de reatores nucleares), alertava para os riscos de os nazis desenvolverem uma arma assente no poder da energia atómica. Carta com uma mensagem que se tornaria prioritária volvidos dois anos. Em 1941, o ataque japonês à base naval de Pearl Harbor, no Havai, encaminhou os Estados Unidos para a Segunda Guerra Mundial. A utilização da energia atómica com fins bélicos entrava na agenda e mudaria o equilíbrio de forças do mundo nas décadas seguintes.

Uma corrida ao armamento de força apocalíptica que havia tido na escrita do britânico Herbert George Wells (H.G. Wells) uma narrativa visionária em 1914, ano em que eclodiu a Grande Guerra. The World Set Free traz-nos uma Europa dotada de fábricas movidas a energia atómica. A história premonitória do criador de A Guerra dos Mundos situava um conflito devastador em 1956. As estimativas de H.G. Wells pecaram por excesso. Em agosto de 1945 o mundo soçobrava a seis anos de guerra iniciada a 1 de setembro de 1939. Com a Alemanha nazi derrotada, o Japão mantinha-se na frente de guerra no Pacífico.

A 12 mil quilómetros de distância, o território norte-americano fervilhava com as operações para capturar a bomba atómica das teorias físicas e matemáticas. Oppenheimer, que na década de 1950 viria a ser acusado de afinidades com o comunismo e vítima da caça às bruxas do macarthismo, brilhou a partir de 1942 como figura tutelar do Projeto Manhattan. Na realidade, dois Oppenheimer contribuíram para o projeto. Frank Friedman Oppenheimer, irmão mais novo do diretor científico, nascido em 1912, desenvolveu pesquisa sobre o enriquecimento de urânio e aspetos da fissão nuclear. O envolvimento com o Partido Comunista Americano, anterior à guerra, valeria a Frank o afastamento da carreira docente até 1957, ano em retomou o ensino numa escola do Colorado. Mais tarde, ministraria Física na universidade daquele estado. Morreu em 1985.

No panteão da equipa Manhattan figuraram outros norte-americanos. Robert Serber, nascido em 1907, físico amigo de Oppenheimer na Universidade de Berkeley, na Califórnia, ficaria conhecido como "a parteira intelectual no nascimento da bomba atómica". Serber explicou ao grupo inicial de cientistas que ingressou em Los Alamos os princípios e objetivos do projeto. O homem que esteve nas primeiras equipas americanas que entraram nas cidades devastadas de Hiroxima e Nagasáqui havia apadrinhado os nomes de código para as bombas lançadas, Little Boy e Fat Man. Faleceu em 1997.

Conterrâneo de Serber, caberia ao físico Philip Morrison a tarefa de criar os reatores nucleares em utilização na sede do Projeto Manhattan. Morrison trazia a ligação anterior a Oppenheimer no verdadeiro ninho de cientistas para o projeto que constituiu a Universidade de Berkeley. Um relato apócrifo indica que o físico terá transportado o núcleo do dispositivo do teste Trinity no banco traseiro de um sedan Dodge. Finda a guerra, Morrison tornou-se um defensor da não proliferação nuclear. A par de outros cientistas envolvidos na construção da primeira bomba atómica, Philip Morrison simpatizara com o Partido Comunista Americano no período anterior ao conflito mundial.

Em 2004, aos 99 anos, morria o homem que contribuiu para que Los Alamos fosse um laboratório civil e não militar. O físico Robert Fox Bacher figura como uma das mais importantes personalidades do Projeto Manhattan. Em Los Alamos, onde ingressou em 1942, Bacher chefiou, entre outras, a Divisão de Física e trabalhou em estreita colaboração com Oppenheimer. Após a guerra, Bacher teve um papel ativo na Comissão de Energia Atómica dos Estados Unidos.

Ao serviço da União Soviética, o espião Klaus Fuchs

Se à pátria do Tio Sam se devem alguns dos nomes mais notáveis nesta corrida ao mundo nuclear (e onde por justiça se devem incluir o físico Ernest Lawrence, inventor do dispositivo para acelerar as partículas nucleares, e o químico Glenn Seaborg, nobel em 1951, que definiu procedimentos para a produção em larga escala de plutónio) não menos verdade é que a velhinha Europa reivindica o seu quinhão de génio envolvido no projeto.

Entre os nomes com assinatura europeia, o de Enrico Fermi, italiano naturalizado americano, nascido em 1901, notabilizou-se com o desenvolvimento do primeiro reator nuclear na Universidade de Chicago. Também do continente europeu voou para o Novo México o contributo do britânico James Chadwick, nascido em 1891. A descoberta da partícula do núcleo atómico, o neutrão, valer-lhe-ia a atribuição do Prémio Nobel da Física em 1935. No currículo, Chadwick trazia um feito observado por poucos seres humanos na época. Em Cambridge, o físico observou experimentalmente, em laboratório, a primeira reação nuclear. Corria o ano de 1919.

Num projeto pejado de "pais", não faltou o contributo do húngaro naturalizado americano Edward Teller. Coube-lhe o desenvolvimento da bomba de hidrogénio. Nunca aceitou o título que lhe atribuíram, "o pai da bomba de hidrogénio". Mais tarde, já na década de 1950, voltaria a Los Alamos. Contudo, não foi selecionado pelo presidente Harry Truman para a direção do programa de teste da bomba de hidrogénio, ou bomba H. Defendeu soluções tecnológicas controversas. Entre elas, a utilização de força termonuclear na construção de um porto artificial no Alasca, o Projeto Charliot.

Da mesma Alemanha que entregou ao Projeto Manhattan o físico Hans Bethe (Prémio Nobel em 1967), naturalizado americano, responsável pelos cálculos da massa crítica necessária para desencadear a fissão nuclear, também voou o físico teórico alemão Klaus Fuchs. A ascensão do Terceiro Reich empurra o cientista para o Quebec e, daí, para o Reino Unido onde adquiriu a nacionalidade britânica. Fuchs acabou por ingressar no Projeto Manhattan onde contou com permissão de segurança de alto nível. Em paralelo, trabalhou como espião ao serviço da União Soviética à qual entregou informação sensível e secreta sobre a produção de urânio. Fuchs, condenado a 14 anos de prisão, viria a integrar a lista restrita dos "espiões atómicos".

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