Filmes radioativos (para não esquecer Hiroxima e Nagasáqui)

Sete obras fundamentais para percorrer as faces do horror atómico.

Desde que os Estados Unidos testaram a primeira bomba atómica (julho de 1945) em Alamogordo, o mundo e a ficção nunca mais se viram livres da ansiedade provocada pelo terror nuclear. Um mês depois do teste, a nova tecnologia era usada para destruir Hiroxima e Nagasáqui, cenários que se tornaram laboratório de uma certa visão do cinema sobre os destinos da humanidade e fizeram acender os alarmes sobre o clima ameaçador da Guerra Fria entre os EUA e a União Soviética. O que é o monstro Godzilla senão o arquétipo do medo das armas nucleares?

Muito se tem refletido, no pequeno e no grande ecrã, sobre os fantasmas da radioatividade. Imagine-se uma Nova Iorque completamente deserta, como a de O Mundo, a Carne e o Demónio (1959), de Ranald MacDougall, com Harry Belafonte perdido no vazio causado por um holocausto nuclear, ou atente-se nas importantes produções BBC como The War Game (1966), de Peter Watkins, Threads (1984), de Mick Jackson, e o documentário Hiroxima (2005). O mais ilustre exemplo recente será a minissérie Chernobyl, em parte inspirada na literatura da vencedora do Nobel Svetlana Aleksiévitch. Mas há pelo menos outras sete obras fundamentais para percorrer as faces do horror atómico.

Hiroxima, Meu Amor (1959)
Alain Resnais

No princípio são dois corpos abraçados, cobertos por uma poeira brilhante. Ele: "Tu não viste nada em Hiroxima. Nada." Ela: "Vi tudo. Tudo." Esse célebre diálogo dos amantes que abre Hiroxima, Meu Amor declara a impossibilidade de se reconstituir o que aconteceu. Ele é um arquiteto japonês cuja família estava na cidade quando foi lançada a bomba atómica, ela (Emmanuelle Riva) uma atriz francesa que lá se encontra na rodagem de um filme antibelicista; nesse ano de 1959, tudo o que "viu" sobre a tragédia nuclear foi através de museus e filmes. Esta primeira longa-metragem de Alain Resnais, com um guião original de Marguerite Duras (nomeado para o Óscar e publicado posteriormente, enquanto verdadeira obra literária) é a mais bela meditação cinematográfica sobre a memória e o esquecimento, a realidade e a ilusão em torno de Hiroxima. O cineasta francês, que já tinha realizado o mítico Noite e Nevoeiro (1956), sobre os campos de concentração nazis, trabalha a essência do tempo e da memória com uma justeza poética que faz desta uma evocação singularíssima do 6 de agosto de 1945.

Chuva Negra (1989)
Shohei Imamura

Adaptado do mais conhecido romance de Masuji Ibuse, Chuva Negra é dos raros filmes que retratam o momento em que a bomba atómica atingiu Hiroxima, e as suas consequências a curto e longo prazo. Esta é a história de uma jovem com o futuro comprometido, quase cinco anos depois do ataque, devido a rumores de que estará contaminada pela radioatividade, apesar de não se encontrar na cidade naquele dia. Ela vive com os tios, que se esforçam na tentativa de lhe arranjar um casamento, e eles próprios apresentam os sintomas de quem foi exposto ao "veneno". Este drama de Shohei Imamura (o único cineasta japonês que venceu duas vezes a Palma de Ouro em Cannes) oscila entre a procura de uma certa serenidade quotidiana e o horror das lembranças que assaltam as personagens, todas e cada uma delas com manifestações do trauma coletivo. Trata-se de um olhar muito realista e marcante sobre os efeitos concretos da arma nuclear e a ligação profunda entre as pessoas que conheceram a imagem mais próxima do fim do mundo. Essas que não são capazes de esquecer, por mais que tentem.

Rapsódia em Agosto (1991)
Akira Kurosawa

Se Imamura filmou Hiroxima, Akira Kurosawa voltou-se para Nagasáqui. Rapsódia em Agosto, penúltima obra do mestre nipónico, versa sobre a memória do segundo ataque com bomba atómica - a 9 de agosto - através de três gerações de uma família. No verão de 1990, quatro adolescentes japoneses de férias na casa da avó recebem um postal dos pais que foram ao Havai visitar um tio emigrante em estado terminal. Esse tio é o irmão da matriarca, e a hipótese de esta ir ao seu encontro nos Estados Unidos fica em suspenso durante os dias em que os netos vão descobrindo detalhes sobre o passado de Nagasáqui que, para eles, era apenas uma lição de escola. A avó, cujo marido morreu no epicentro do ataque, é uma contadora de histórias nata. Mas as suas histórias não são de embalar... pelo contrário, vêm acompanhadas de notas de terror, filmadas por Kurosawa com invenção e gesto shakespeariano, juntando-se aos "sustos" a visita do sobrinho, metade japonês, metade americano, Richard Gere, símbolo de uma reconciliação. Numa das sequências de honra à memória, os jovens enumeram os monumentos dispostos na Praça da Paz de Nagasáqui, enviados por vários países. O primeiro a aparecer é o de Portugal.

Doutor Estranhoamor (1964)
Stanley Kubrick

O título completo é, por si só, um trecho de humor negro: Dr. Estranhoamor ou Como Eu Aprendi a Deixar de Me Preocupar e a Adorar a Bomba. Esta genial farsa apocalíptica de Stanley Kubrick, estreada dois anos após a crise dos mísseis de Cuba, é uma amostra do que poderia ter sucedido no âmbito dessa ameaça tangível de uma aniquilação em plena Guerra Fria. O cineasta dedicou-se a uma leitura intensa sobre estratégia nuclear apenas para confirmar a ideia de que esta não passa de um magistral absurdo. Se um general americano ordenasse um ataque aos soviéticos, o que aconteceria no centro de comando entre figuras de Estado e oficiais? É basicamente tal cenário que se põe em marcha, um espetáculo hilariante de sala de guerra dominado por Peter Sellers, em diferentes papéis e com uma voz estrangulada, de sotaque alemão, que improvisou imitando a voz do fotógrafo Weegee (conhecido pelas suas fotografias de cenas de crime urbano), um dos ídolos de Kubrick que foi convidado para tirar fotografias da rodagem. No mesmo ano de Doutor Estranhoamor, Sidney Lumet lançou também o seu thriller nuclear, Missão Suicida, sem toque de humor mas com Henry Fonda como presidente dos EUA.

The Atomic Cafe (1982)
Jayne Loader, Kevin e Pierce Rafferty

Clássico de culto, The Atomic Cafe é um documentário delirante que funciona como uma overdose de imagens de arquivo, entre pequenos filmes educativos, anúncios publicitários, atualidades e outros conteúdos produzidos pelo governo americano após a Segunda Guerra Mundial, que ilustram a grande paranoia dos Estados Unidos no esforço de vender à sua população a ideia insana das virtudes da bomba atómica. Sem qualquer intermédio de narração e uma montagem altamente sarcástica, o filme acumula um folclore de propaganda que vai das curtas-metragens alegres como o famoso Duck and Cover, com uma tartaruga que ensina medidas de proteção em caso de explosão nuclear, a notícias como a da captura do casal Julius e Ethel Rosenberg, acusado de espionagem e executado na cadeira elétrica. Já no lar doce lar, as pessoas escutam o aparelho radiofónico e o sonho americano é conservado por um sentimento de ameaça que se confunde com uma sensação de elevada segurança... The Atomic Cafe é a revisão da matéria, em bruto e sem panos quentes, de uma mentalidade que ainda encontra um estranho reflexo.

O Dia Seguinte (1983)
Nicholas Meyer

O Dia Seguinte bateu recordes de filme televisivo mais visto nos Estados Unidos, com cem milhões de espectadores, entre eles o então presidente Ronald Reagan - que quatro anos depois assinaria com Mikhail Gorbachev o tratado de redução de arsenais nucleares. Sendo as audiências o espelho da marca indelével deixada em toda uma geração, o motivo do sucesso está ligado à mais terrível e impactante das premissas: a iminência, o momento e os efeitos de um holocausto nuclear visto a partir de uma pequena localidade do Kansas. Realizada por Nicholas Meyer (nome associado à saga Star Trek), esta produção chegou a representar uma dor de cabeça para os executivos do canal ABC, que temiam ser um retrato demasiado cru para a sensibilidade de quem assistia em casa a algo muito aproximado da realidade possível em ambiente de Guerra Fria. Mas foi para ar nos termos dessa expressão assustadora. Um pesadelo à escala humana que entrou pelo pequeno ecrã e deixou uma mensagem clara no final: "Espera-se que as imagens deste filme inspirem as nações deste mundo, as suas populações e líderes, a encontrar os meios para evitar o dia fatídico."

Quando o Vento Sopra (1986)
Jimmy T. Murakami

O facto de ser cinema de animação não quer dizer que Quando o Vento Sopra seja um quadro menos assustador. Baseado no livro de um autor infantojuvenil, Raymond Briggs, que também assina o argumento, este conto sobre um adorável velho casal inglês que sobrevive a um ataque nuclear, seguindo à risca todas as normativas de um panfleto distribuído pelo governo do Reino Unido, é dos mais perturbadores olhares sobre a morte lenta, mas a curto prazo, provocada pelo envenenamento radioativo. Começa por ser a ternura doméstica das personagens, no seu diálogo flutuante entre a urgência de um contexto político e as coisas triviais da casa, que domina a perspetiva. Porém, a devastação emocional vai chegar de forma suave, como uma chávena de chá contaminado... David Bowie escreveu e interpretou o tema musical homónimo do filme - When the Wind Blows - que se escuta logo no início, quando o ar ainda é respirável.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG