Deus era brasileiro. Era

Não sei se é uma característica de outros povos, mas, aqui no Brasil, temos a mania de achar que Deus é brasileiro. Nada jamais nos autorizou a acreditar nisso, mas é uma certeza, compartilhada - pelo menos, até há pouco - por grande parte da população. Talvez tenha que ver com o Brasil não ser sujeito a tsunamis, terremotos, vulcões, ciclones, tufões, avalanches, incêndios e outros desaires que atingem tantos países. Pode ter que ver também com o facto de que, mesmo com algum desastre iminente, algo faz que tudo de repente se transforme em samba - descobre-se petróleo para até o ano 3000, o Brasil ganha uma Copa do Mundo ou, se estivermos às vésperas do Carnaval, a preocupação fica para depois da Páscoa, não vamos esquentar a cabeça agora.

Mas, como eu disse, só foi assim até há pouco tempo. Nos últimos anos, temos tido motivos de sobra para desconfiar de que, se Deus era brasileiro, já deixou de ser - e está requerendo cidadania em outro lugar.

Em futebol, por exemplo, Ele deve ter-nos deixado há muito. Antes mesmo dos 7x1 que a Alemanha nos sapecou sob as nossas próprias barbas, na Copa do Mundo de 2016, Deus já parecia ter aderido a outras camisolas. Há décadas que, apesar de continuar a abastecer o mercado europeu com grandes jogadores, o Brasil não vence uma competição importante. Chamado a explicar-se, Deus sempre poderá dizer que não tem nada com isso - que continua a brindar-nos com os craques e, se não ganhamos nada, é por causa da nossa incompetência para nos organizarmos.

Pessoalmente, acho que Deus está com a razão, mas não precisava exagerar. Bastou ao Flamengo, por exemplo, armar uma equipa maravilhosa, que já começava a encantar o mundo, para que sobreviesse uma pandemia a paralisar as competições, interditar os estádios e comprometer o futuro do futebol. Sim, eu sei que a pandemia é mundial, mas, como adepto do Flamengo, não me faltam motivos para dizer: "Puxa, isso tinha de acontecer na nossa vez???"

A prova de que Deus nos deixou e foi cantar em outra freguesia é a de que, sem Sua proteção, temos sido vítimas de cataclismos inéditos. Nas últimas semanas, tivemos no Paraná e em Santa Catarina, no sul do Brasil, ventanias nunca registadas de centenas de quilómetros por hora - viram-se até vacas rodopiando no espaço. Perto dali, o Rio Grande do Sul está sob a ameaça de uma nuvem de vorazes gafanhotos vinda da Argentina e do Uruguai - e, se quiser saber das dimensões dessa nuvem, imagine um território aéreo maior que o de Lisboa. O que o Brasil vai fazer com tanto gafanhoto?

Sem falar em outras tragédias que, sem o Mestre para nos fiscalizar e manter na linha, nós mesmos nos encarregamos de produzir. Apenas entre as de que me lembro de momento, tivemos no ano passado um jamais explicado derrame de óleo no litoral brasileiro, que atingiu as praias de norte a sul do país, contaminando tudo pela demora em contê-lo - e, se você sabe o tamanho desse litoral, fará uma ideia do estrago. Há três anos tivemos o incêndio do Museu Nacional, aqui no Rio, um repositório de insubstituíveis tesouros da humanidade. E, mais ou menos na mesma época, o rompimento das barragens de Mariana e Brumadinho, em Minas Gerais, despejando dejetos de minério sobre uma inacreditável extensão de terreno, envenenando rios, inutilizando terras para cultivo e dizimando cidades.

A prova definitiva de que Deus nos abandonou é a de que, depois da devastadora crise económica provocada pelos governos de Lula e Dilma Rousseff - sem falar da bancarrota moral provocada pela corrupção nesses governos -, a conjuntura política levou à eleição de Jair Bolsonaro à presidência. E, por isso, estamos descobrindo que o Altíssimo não apenas pediu demissão do seu emprego no Brasil, como agora passa o dia sentado em Sua nuvem, olhando aqui para baixo e, de vingança, nos dando bananas.

Sem Ele e com Bolsonaro, vivemos o pior dos dois mundos. Temos a devastação da Amazónia e o genocídio dos povos indígenas pelos garimpeiros e pecuaristas que Bolsonaro protege; a desmoralização da imagem do Brasil no exterior pelos atentados diários contra a vida e o meio ambiente, praticados por seus ministros e com o seu aval; o colapso na educação de milhões de estudantes, pela inação dos supostos responsáveis pela pasta, mais ocupados em descobrir comunistas atrás das lousas; a tentativa de submeter o poder judiciário a uma advocacia particular do presidente, para impedir a investigação das acusações de corrupção envolvendo-o e aos seus filhos; o estrangulamento e a dissolução de todos os órgãos culturais, alguns fundados há quase cem anos; a ocupação dos cargos da administração pelas piores pessoas do país, escolhidas entre os amigos e auxiliares de sua família; e o descalabro da saúde nacional durante a pandemia, entregue por Bolsonaro não aos médicos, mas a militares que não se envergonham de pôr a farda ao serviço da farsa.

Alguma coisa fizems ao Homem para que ele tenha se decidido a pegar o chapéu e ir embora. E nada nos faz prever dias melhores. Nesta semana, o Tribunal Penal Internacional de Haia recebeu as denúncias contra Bolsonaro por crimes contra a humanidade. Foram levadas por entidades brasileiras em nome de mais de um milhão de profissionais da saúde, responsabilizando-o pela morte de milhares de pessoas no país. A maioria dos brasileiros gostaria de ver Bolsonaro no banco dos réus, nem que fosse por uma rápida sentada. Mas Haia, como se sabe, é uma cidade pacata e seus tribunais têm ritmo próprio.
Os trâmites desse processo serão lentos e talvez só cheguem a uma conclusão quando um dos dois já tiver acabado, ou o mandato de Bolsonaro ou o Brasil - o que vier primeiro.

Jornalista e escritor brasileiro

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