Videiras arrastadas, poda parada e garrafas para despachar. Como o mau tempo está a afetar o enoturismo no Douro
PEDRO SARMENTO COSTA/LUSA

Videiras arrastadas, poda parada e garrafas para despachar. Como o mau tempo está a afetar o enoturismo no Douro

Produtores e agricultores falam em ano catasrófico com prejuízos de “largos milhares de euros”. A situação agrava-se com estradas cortadas e eventos de Carnaval e Dia dos Namorados cancelados.
Publicado a

As chuvas intensas provocaram derrocadas em patamares, socalcos e muros da Região Demarcada do Douro, atingindo caminhos e estradas, com prejuízos ainda não contabilizados, mas que também afetam o enoturismo e os negócios dos viticultores.

Com quinta em Mesão Frio, distrito de Vila Real, Justina Teixeira apontou para prejuízos de “largos milhares de euros” decorrentes dos vários muros e patamares que caíram em diferentes zonas” da propriedade, acrescentando depois “toda uma limitação” no negócio, quer nas atividades de enoturismo quer nos trabalhos que se deveriam estar, nesta altura do ano, a realizar.

Por causa do mau tempo, a poda das videiras está parada, trabalhos na adega estão a ser afetados, como os engarrafamentos, e há vinhos para despachar, mas “nenhum camião consegue vir carregar à quinta neste momento” porque a via mais direta para a sua quinta está interrompida devido ao risco de um deslizamento de terras.

Justina Teixeira falou num “prejuízo diário imenso” e exemplificou com a atividade de enoturismo, como almoços e jantares, que foram cancelados, visitas e provas que não podem ser feitas, tal como engarrafamentos de vinhos porque o camião não pode fazer o transporte de garrafas, e disse ainda que os funcionários não podem usar a estrada, porque só está acessível a moradores.

As câmaras estão a ajudar os agricultores a preencher os formulários, para reporte dos prejuízos, para a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR-N) e, entre testemunhos partilhados pela autarquia de Mesão Frio, está o de Hugo Pinto, proprietário de uma quinta onde terão caído “nove muros”.

Citado num comunicado, este viticultor exemplificou que repor “só um dos muros, com 35 metros, ronda os 18 mil euros, a nível de mão-de-obra”.

Noutros testemunhos, o casal José Ferreira e Lurdes Lopes, disse que o “muro de suporte à vinha, com cerca de 40 metros de comprimento, caiu na totalidade e que ainda temem novos estragos.

Já Manuel Pereira registou a queda de um muro de suporte à vinha comprometendo a estabilidade de uma das suas parcelas, referindo que os prejuízos rondam os 2.500 euros.

Rui Soares, viticultor e presidente da Associação de Viticultores Profissionais do Douro (Prodouro), exortou os viticultores a fazerem a participação dos prejuízos na plataforma da CCDR-N, podendo depois fazer uma atualização.

“Não é uma candidatura a nada, mas é essencial para que as entidades oficiais tenham a perceção da dimensão dos prejuízos e possam depois abrir linhas de apoio”, salientou.

E, para Rui Soares, esse “apoio é fundamental”.

“O setor está muito fragilizado. Os agricultores têm vivido vindimas difíceis e não há, ao nível da produção, meios suficientes para fazer face a estes prejuízos que as intempéries têm causado”, frisou.

O responsável disse que a generalidade dos agricultores não tem seguros. “Têm, quando muito, seguros de colheita, mas que não cobrem este tipo de prejuízos”, apontou.

No seu caso concreto, na vinha que possui em Lamego, distrito de Viseu, teve um deslizamento de terras que fez “desaparecer cerca de 2.000 metros quadrados de solo”, ao que se junta videiras arrastadas e muros caídos, com “prejuízos significativos” para a exploração agrícola.

“Este ano foi catastrófico. A quantidade de água foi muito grande”, afirmou Rui Coelho, com vinha também em Lamego que aponta para “prejuízos avultados para reconstruir” em muros caídos e videiras arrancadas.

Por enquanto, com as terras ensopadas, é ainda difícil fazer um levantamento exaustivo, mas, “por alto”, o viticultor aponta para “55 mil euros” para repor “mais ou menos a normalidade”.

“Se o desalento do viticultor já era grande, com estes problemas de cadeia de valor da uva, com catástrofes destas é muito encorajador de vender, de abandonar”, afirmou, lembrando que são já semanas seguidas de chuva intensa que têm interrompido os trabalhos na vinha, como as podas.

Casa do Douro pede apoios urgentes

A Casa do Douro alertou este domingo, 15 de fevereiro, para a “situação de emergência vivida” nesta região e pediu apoios urgentes para os viticultores, independentemente do município.

“Os viticultores do Douro não podem ser deixados a enfrentar sozinhos consequências que extravasam largamente a sua capacidade individual de resposta”, afirmou, em comunicado a associação representativa da produção que tem sede no Peso da Régua, distrito de Vila Real.

Na Região Demarcada do Douro (RDD) também a chuva intensa e o vento forte provocaram “prejuízos de grande dimensão" como a perda de terras agrícolas, destruição de vinhas, colapso de muros de xisto (pedra posta), que são um elemento estruturante da paisagem classificada pela UNESCO como Património da Humanidade e a instabilidade das encostas e destruição de infraestruturas tradicionais (danos em linhas de água e caminhos agrícolas).

A Casa do Douro disse que a situação se agrava com “estradas cortadas e acessos impedidos, eventos cancelados (carnaval, dia dos Namorados), e situações em que o “enoturismo está impossibilitado e a comercialização de vinhos paralisada”.

Para a organização, estes prejuízos “comprometem não apenas a campanha vitícola em curso, mas também a viabilidade futura de inúmeras explorações, particularmente as de pequena e média dimensão,” e considerou que “sem apoios urgentes não será possível recuperar o investimento perdido”.

A associação lembrou que “os viticultores encontram-se descapitalizados após anos consecutivos de dificuldades na comercialização de uvas e vinhos”, referiu que o “ano de 2024 foi particularmente trágico, com vinhas por vindimar e entregas sem garantia de pagamento” e que, ”apesar desta situação, os compromissos financeiros com a banca, segurança social, finanças e trabalhadores mantêm-se”.

Disse ainda estar em articulação com o Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto (IVDP), com a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDR-N) e a Comunidade Intermunicipal para avaliar os danos no terreno e criar condições de recuperação.

Mas, defendeu, para que seja possível preparar medidas de apoio ajustadas à realidade do terreno, “é absolutamente essencial” que todos os viticultores afetados procedam, “com urgência”, à declaração dos prejuízos na plataforma disponibilizada pelas CCDR Norte e Centro.

A instituição advertiu que “esta comunicação não constitui, ainda, uma candidatura a financiamento, mas sim uma declaração de ocorrência que será posteriormente validada pelos serviços competentes” e que, “caso existam prejuízos posteriores a declaração, pode ser atualizada com novas ocorrências”.

De acordo com a Casa do Douro “alguns municípios do Baixo Corgo já declararam estado de emergência municipal, o que permite o acesso a medidas imediatas de apoio”, no entanto “apenas pessoas e empresas com sede e atividade nesses municípios podem candidatar-se às ajudas previstas no pacote que está a ser preparado e será lançado nas próximas semanas”.

No entanto, realçou que os “prejuízos afetam todo o território duriense” e que “viticultores de outros municípios da região enfrentam danos igualmente graves, mas ficam excluídos das ajudas por não estarem abrangidos pela declaração de emergência municipal”.

Por isso, reclamou que “todos os viticultores afetados possam aceder ao pacote de ajudas em preparação”, que as “medidas de apoio sejam implementadas com a rapidez” e que “se evite a discriminação entre viticultores da mesma região em função da localização administrativa”.

Reforçou que é fundamental “agilizar o acesso às ajudas para todos os viticultores afetados, independentemente do município” onde têm as suas explorações.

“Não podemos aceitar que viticultores igualmente afetados tenham tratamentos diferentes apenas por questões de fronteiras municipais”, salientou.

Diário de Notícias
www.dn.pt