Virgílio Macedo: "Estados sem empresas não  geram felicidade, nem riqueza"

Virgílio Macedo é o bastonário da Ordem dos Revisores Oficiais de Contas

Qual a primeira medida na sua área que o governo deveria tomar? E qual a primeira medida para o país, em geral?
Garantiria que os 17 milhões de euros da "Bazuca" fossem investidos em projetos com efeito replicativo na economia, aumentando o peso disponível para empresas. Não nos podemos esquecer que as empresas são as principais responsáveis pelo crescimento económico, são elas que geram mais emprego e mais riqueza para o país. Paralelamente, garantiria que o processo de adjudicação e realização dos diferentes projetos ocorrem de forma 100% transparente. Seria inaceitável que a execução desses fundos não fosse realizada de forma criteriosa, transparente e com um sistema de controlo que evitasse a sua utilização de forma indevida. O nosso país não pode desperdiçar esta oportunidade adicional, de capacitar a sua economia reprodutiva

Na sua opinião o que seria melhor para Portugal: um governo de maioria absoluta ou de coligação entre vários partidos?
Eu entendo que a estabilidade é importante para o crescimento económico, e consequentemente para as empresas. Mas não pode ser a qualquer preço. Terá de estar assente na defesa da liberdade, na felicidade das pessoas, mas também no crescimento económico. Todos os partidos políticos têm que assumir a sua responsabilidade, no sentido de garantir uma solução governativa estável, que é a melhor forma de defender os interesses dos portugueses. Só com estabilidade política é que a iniciativa privada investe, cria emprego, enfim cria riqueza. E só com a criação de riqueza é que poderemos ambicionar ter melhores condições de vida no futuro.

O PRR pode mudar o país? Qual a sua expectativa em relação à execução do PRR durante esta legislatura?
Estou muito preocupado com o PRR. A OROC e a Estrutura de Missão "Recuperar Portugal" assinaram um protocolo de colaboração que prevê o controlo e auditoria dos investimentos aprovados ao abrigo do PRR. Na altura foi referido que o primeiro pedido de adiantamento iria ocorrer ainda em janeiro. Atualmente, estamos quase no fim de janeiro e ainda não temos novidades. Por outro lado, não podemos esquecer-nos que as empresas são a força motora do crescimento económico, e digo isto enquanto facto, não se trata de ideologia. Se o PRR descuidar as empresas, como se tem ouvido falar, o crescimento potencial será muito inferior ao que se poderia atingir, caso as opções fossem outras. Mal estaria o país se as suas prioridades de utilização dos fundos do PRR fossem exclusivamente a realização de investimentos públicos, para colmatar a falta de investimento público dos últimos anos. Por isso, tem de haver uma alteração de paradigma relativamente ao destino dos 17 mil milhões da "bazuca" europeia.

Dia 30 há eleições legislativas. Como convencer um abstencionista ​​​​​​​a ir votar?
Estou convencido que a maior parte das pessoas que se abstêm o fazem porque não se reveem em nenhuma ideologia/candidato, ou porque não consideram que o seu voto seja relevante o suficiente para se deslocar à secção de voto. A abstenção, infelizmente, é um fenómeno transversal a todas as democracias estáveis. No entanto, abre um espaço perigoso para o crescimento de movimentos extremistas, menos focados nos valores da liberdade e democracia. A classe política também tem a sua responsabilidade, e tem de se mentalizar de uma vez por todas que a proximidade com os eleitores e paralelamente o exercício dos cargos políticos com responsabilidade e transparência são fundamentais, para combater esse flagelo das democracias. A classe política tem de dar o exemplo.

Fiscalidade: o novo governo deve baixar primeiro os impostos às famílias ou às empresas? Qual das soluções trará mais rápido crescimento ao país?
Esta é uma falsa questão. Trata-se de um chavão utilizado por quem que não percebe de economia. É uma ideia gerada por aqueles que estão mais preocupados em encontrar soundbites, do que em resolver os problemas das pessoas. Sem empresas saudáveis não há bons empregos. Sem empresas saudáveis não há produção de riqueza. Sem empresas saudáveis não há impostos para pagar regalias sociais. A História já deixou claro que Estados sem empresas e sem iniciativa privada não geram felicidade, nem riqueza. Mais, a redistribuição de riqueza é fundamental para qualquer país. Todos queremos um país com uma maior redistribuição de riqueza. Mas, se não houver produção de riqueza essa redistribuição é simplesmente impossível, ou no mínimo ineficaz. Para promover o crescimento económico do país, sem dúvida que deveremos baixar os impostos sobre as empresas. O efeito positivo na economia dessa redução de impostos rapidamente chegará também às famílias, quer de forma direta, permitindo às empresas pagar mais e melhores salários, quer de forma indireta, através do efeito indutor sobre o crescimento económico.

Escolha dois ou três políticos da História de Portugal (que não sejam candidatos a estas eleições) e que continuam a ser uma ​​​​​​​inspiração para si?
Escolho quatro, Mário Soares por representar a luta pela liberdade, o general Ramalho Eanes, pela estabilidade democrática que garantiu para o país, o professor Aníbal Cavaco Silva, por representar um período de grande crescimento económico e por fim, Pedro Passo Coelho, que representou o esforço e o espírito de missão que foi governar o país num dos momentos mais difíceis da sua história, colocando Portugal numa rota de crescimento depois de ter conseguido acabar com a Troika.

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