Uma economista de coração na garganta escolhida para liderar uma farmacêutica a meses de ser mãe

Helena Freitas, country lead da Sanofi.

Traz o sorriso nos olhos e o coração na garganta e o abraço tímido que me dá quando me recebe na esplanada do Vila Galé Paço d"Arcos, com o mar a aquecer-lhe as costas, em pouco mais de nada se transforma em acolhimento quente e sincero. Aos 46 anos, Helena Freitas tem estampado no rosto o brilho da maternidade recente - a segunda, numa idade em que a decisão contrariou o conselho de amigos e família. E Manel, de cinco meses, sorridente e corado nas fotografias que me mostra do casamento celebrado há dias, minutos depois do seu batizado, é a prova maior do acerto das convicções que não deixa serem desarmadas por opinião alheia. Helena decide o que quer. Sempre foi assim, desde que nasceu no Porto que continua a ser a sua casa mas ao qual somou outras moradas de coração, como Lisboa ou Maputo. "Sou verdadeiramente nortenha, mesmo tendo perdido o sotaque. Foi lá que cresci e que me licenciei em Economia, mas acabei por me fixar em Lisboa quando vim trabalhar para a EY", conta-me enquanto me guia pelo labirinto que a trouxe à liderança da Sanofi em Portugal.

Pedimos um chá da rainha para duas, que chega com scones fofos e quentinhos, bolos e sanduíches variadas num bonito prato de três andares e nos delicia enquanto me conta que o "bichinho de viajar" a contagiou muito cedo, levando-a a fazer Erasmus na Normandia apesar de nem falar francês e mais tarde a trocar a segurança do seu país por "um tour of beauty em Angola, numa altura em que para países africanos só era destacados homens". Eram os anos 90 e Luanda estava ainda em guerra civil, mas nada disso deteve o ímpeto de Helena e de uma amiga para convencer os líderes da consultora de que tinham de abrir-lhes essa oportunidade.

"Foi espetacular, estive lá um mês e quando voltei disse logo à minha mãe que se preparasse porque assim que houvesse nova oportunidade eu iria para fora." E de facto, mal abriu a via, agora com Moçambique como destino, Helena fez as malas e abalou para Maputo, onde ficou três anos muito felizes, a conhecer as paragens mais distantes da capital moçambicana a cada oportunidade de juntar um grupo e sair à aventura. "Tive experiências que nunca imaginei, como mergulhar na Ponta do Ouro com os tubarões, literalmente lá no meio, passear por Inhambane e Pemba, ficar uma semana no Bazaruto com um hotel às ordens só para nós em plena época dos furacões..." Viaja na recordação desses últimos dos seus 20 anos, faz fast forward ao regresso a Moçambique em 2017, já com o agora marido - que conheceu em Lisboa e com quem se juntou há 14 anos -, a filha de ambos, Teresinha, hoje com 10 anos, e os quatro filhos só do lado de Nuno, que são tanto seus de coração quanto os de sangue. "Aprendi a ser mãe com eles", simplifica.

Um engano que levou a uma carreira

Conta-me que soube que tinha de voltar a Portugal quando se apercebeu que quem ficava muito tempo acabava por se desenraizar e ela, filha única, não poderia fazer isso aos pais, com quem teve sempre uma ligação profundamente afetiva, umbilical. Já não conseguiu, porém, em 2004, voltar à sua terra-natal, acabando por se fixar em Lisboa, uma cidade diferente onde poderia abraçar desafios diferentes. "Nessa altura recordo-me de dizer que estava pronta para fazer qualquer coisa que aparecesse. Só não queria ir para a banca - não me atraía minimamente." O fado havia de lhe pregar uma partida, levando-a, no meio dos envios de currículos para vários destinos, a inadvertidamente disparar um para a Michael Page, para a área da banca. E claro que lhe responderam a recrutá-la.

"Fui à entrevista por uma questão de respeito, mas fui honesta e disse que tinha sido engano e não queria nada com bancos", ri-se. O entrevistador reconhece-lhe valor na honestidade e no currículo, ponderou uma especialidade em auditoria que era rara encontrar em profissionais portugueses e encaminhou-a para uma empresa da indústria farmacêutica que precisava de quem lhe auditasse a operação. Era um projeto de três meses, mas Helena estava farta de projetos que a levassem aos saltos pela vida profissional e rejeitou. E tornou a recusar. Mas acabou por ser convencida a pegar no projeto enquanto continuava a procurar emprego.

"Recordo-o com carinho porque entrei nessa empresa americana, a BMS, a 7 de setembro, que foi exatamente o mesmo dia em que comecei na Sanofi anos depois", conta-me. A experiência foi boa para ela, muito melhor para a BMS, que a segurou no fim do projeto, quando se preparava para migrar para outra companhia, onde iria fazer controlo de gestão. Para a segurar, criaram um cargo à medida do que Helena Freitas gostava de fazer - e não se arrependeram em nenhum momento dos 12 anos que lá ficou, da gestão à área financeira, acabando no marketing de saúde, que a levou a doenças como o HIV, as hepatites, etc., até a fazer desembarcar nas vacinas.

"Tive de aceitar essa área de acesso ao mercado e assuntos governamentais e tive lá cinco anos muito felizes", diz-me, resumindo numa frase o seu estado de espírito: "Tinha encontrado aquilo que queria fazer."

Um convite que levou à liderança

Se o gosto em trabalhar tem alguma coisa que ver com a performance, Helena era uma apaixonada pelo que fazia. E rapidamente os seus resultados foram tendo eco e a sua fama chegou aos ouvidos do presidente da Sanofi, um brasileiro que a convenceu a trocar americanos por franceses e juntar-se à sua equipa. Estava há três anos na empresa quando lhe puseram a área das vacinas no colo... e pouco depois rebentava a covid e com ela o mundo virava os olhos para a saúde, para a indústria farmacêutica e em particular para a área em que se movia.

Nessa altura, os seus planos eram outros. "O meu marido era diretor-geral de outra farmacêutica, em Paris - fazíamos commuting todas as semanas -, e tínhamos decidido ir de lua-de-mel às Maldivas em fevereiro de 2020 e casar-nos em junho ou setembro - é mesmo assim, fazemos tudo ao contrário", ri-se. "Já tínhamos casa, já tínhamos uma filha, queríamos casar-nos no verão e ir de férias para essas bandas nos nossos meses quentes não é o melhor, portanto decidimos inverter as coisas também aqui." As férias aconteceram, uma lua-de-mel que coroava a assunção do cargo de responsável pela área de vacinas, para o qual acabava de ser convidada. O casamento ficou adiado até agora. E a carreira de Helena Freitas explodiu. As vacinas deram-lhe o combustível de que a sua carreira precisava para chegar ao topo e a Sanofi reconheceu-o sem reservas. Nem sequer vacilou na escolha dela para country lead em Portugal quando Helena respondeu à promoção com a decisão de ter um segundo filho.

"Foi uma gravidez chata, mas nada teve que ver com a idade, os médicos garantiram-mo", conta. "Mas tive de estar metade do tempo a trabalhar de casa..." Nada que desanimasse a Sanofi. "Decidiram apesar de saberem que eu queria ser mãe outra vez, fui progredindo no processo de recrutamento já grávida e a trabalhar a partir de casa e promoveram-me em plena licença de maternidade, o que me deixou muito feliz porque é um sinal de que as mulheres podem prosseguir projetos pessoais sem terem de desistir da carreira."

Os momentos mais difíceis, as dúvidas e as fraquezas, acredita que as venceu com a ajuda da sua "estrelinha", a mãe, uma mulher de enorme força, que menciona como exemplo em tudo o que é e em tudo quanto vê de bom, que desapareceu inesperadamente em novembro. "É ela que me dá força, acredito mesmo que sim, para vencer as adversidades. Foi ela que ajudou o Manel a nascer bem, forte e saudável." E provavelmente também foi a mãe que fez fugir as nuvens de chuva no dia do casamento e fez o vento parar de soprar no Guincho, para lhe tornar o momento ainda mais feliz.

Proporcionar também felicidade e oportunidades a quem com ela trabalha é a missão que Helena assume com orgulho. A par da família que criou ao lado de Nuno - agora mais perto, a viver em Barcelona -, com os filhos de ambos, os sobrinhos, o pai dela, os pais dele... Essas amarras boas afastam-na da vontade de viajar que a levou longe. E ainda que admitisse voltar a sair, a proximidade entre os filhos mais pequenos e os irmãos não a deixaria ir acompanhada. Talvez a solução seja antes cumprir um dos sonhos que tinha em criança: ter um restaurante de comidas do mundo, que façam os outros viajar através do paladar. "Acho que vamos acabar a fazer uma coisa desse género. Andamos a explorar Estremoz e quem sabe se não nos reformamos por lá..."

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