Subida das matérias-primas e da energia ameaça preço do pão

Panificadoras estão preocupadas com a sobrevivência do negócio. A única saída que veem é a repercussão dos custos de produção no consumidor final.

A escalada dos preços das matérias-primas e da energia podem colocar em causa a sobrevivência de muitas empresas de panificação do país. "A indústria vai ter que reagir face aos custos que estamos a assistir no mercado", alerta António Fontes, presidente da Associação dos Industriais de Panificação, Pastelaria e Similares do Norte (AIPAN).

Nas últimas semanas, têm sido inúmeros os pedidos de esclarecimento e de orientação que os empresários do setor fazem chegar à associação, confrontados como estão com a subida exponencial da fatura da eletricidade e do gás. "A nossa componente social é muito forte, mas para salvar as empresas vamos ter que responder a esta escalada", diz. O preço do pão mantém-se no geral inalterado, "mas estamos a preparar esse aumento. Na minha empresa, estou a ponderar mais dois cêntimos por pão, porque é preciso garantir os postos de trabalho".

"Se não refletirmos no preço de venda os aumentos dos custos de produção cria-se uma situação muito delicada nas empresas", sublinha por sua vez Hélder Pires, presidente do conselho fiscal da Associação do Comércio e da Indústria de Panificação, Pastelaria e Similares (ACIP). O empresário lembra que "o preço do pão é livre, cada empresa pratica o que entender". No entanto, as realidades empresariais são muito distintas. O setor da panificação é constituído essencialmente por micro e pequenas empresas e o aumento dos preços pode conduzir em muitas situações à perda de clientes. Segundo Hélder Dias, o agravamento dos fatores de produção está a "afetar e a preocupar todos os colegas", mas "em função da sua realidade, terão de decidir as medidas a tomar".

O impacto na tesouraria das panificadoras é incontornável. As faturas dos fornecedores chegam todos os meses sem falta. Em setembro, António Fontes foi confrontado com uma conta de eletricidade de 8000 euros, quando há cerca de um ano rondava os 3800 euros. Também Hélder Pires sublinha que "a eletricidade está neste momento quase ao dobro do preço do período homólogo". E lembra que o gás também tem registado aumentos "muitos fortes" e nem a madeira passou ao lado destes incrementos. Tudo energias essenciais para a cozedura do pão. Mas não são só estes aumentos a preocupar os empresários. Segundo António Fontes, desde junho que as farinhas apresentam um aumento de 26%, com as previsões a apontarem para novos acréscimos, e o fornecedor de caixas de cartão já lhe fez saber que a próxima encomenda ficará 40% mais cara. "A margem do negócio está muito comprimida, a subsistência das empresas está em risco, basta vir um vento mais forte e abanamos todos", antevê.

Hélder Pires recorda que os fornecedores já avisaram que em consequência dos aumentos da energia vão aumentar os preços dos produtos e há ainda a ter em conta que muitas empresas, nomeadamente no interior, trabalham porta-a-porta, logo, estão a sentir a subida dos combustíveis. Tudo isto "tem impacto nas margens do negócio e o pão é um produto de primeira necessidade onde não se trabalha com margens grandes. Sem margens e sem dinheiro em caixa, o cenário não é muito animador", salienta.

José Palha, presidente da Associação Nacional de Produtores de Proteaginosas, Oleaginosas e Cereais (ANPOC), alerta que todos os indicadores apontam para o espoletar de "uma tempestade perfeita". "Os preços do trigo mole [para produção de pão] e de trigo duro [para fabrico de massas e rações] estão historicamente altos, não há memória destes preços", diz. Nas suas contas, há um ano, a tonelada de trigo mole valia 220 euros e agora está nos 320, um aumento de 45%. No trigo duro, o incremento é de 47%, de 340 para 500 euros. E claramente estas subidas irão atingir os cliente, "as empresas não conseguem aguentar a pressão financeira".

Segundo adianta, já esta semana uma grande superfície aumentou em 20 cêntimos o preço de uma variedade de pão e é de esperar que outras indústrias sigam esse passo. Como alerta, "90% da matéria-prima na produção de esparguete é trigo duro, com o aumento do preço do cereal, mais o custo da energia e do transporte é inevitável o aumento do preço. E o da carne também, porque os cereais são uma componente da ração". E há ainda a somar a dependência do país no abastecimento de trigo. Com a produção portuguesa deste cereal a cobrir apenas 10% das necessidades e as reservas existentes a assegurarem a procura por escassas duas semanas, "basta um país oferecer mais, uma confusão na distribuição, um problema técnico nos portos para podermos ficar sem abastecimento".

Sónia Santos Pereira é jornalista do Dinheiro Vivo

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