Solução para moratórias à vista. CIP diz que devia ter sido pensada mais cedo 

O governo está prestes a definir as condições para que empresas e setores mais penalizados pela pandemia possam encontrar soluções, junto da banca, para o fim das moratórias de crédito, revela o ministro da Economia, Pedro Siza Vieira. António Saraiva, presidente da CIP, entende que esta medida já deveria ter avançado há mais tempo.

Em março já sinalizávamos o problema das moratórias, pois elas atingiram os 46 mil milhões de euros, e este era um problema que, pela sua magnitude, exigia que se olhasse para ele e se começassem a construir soluções, até porque setembro se aproxima rapidamente", afirmou António Saraiva, presidente da CIP - Confederação Empresarial de Portugal, durante o debate Portugal Que Faz, promovido pelo Novo Banco, que decorreu ontem em Lisboa. Esta sessão foi a última de um roadshow desta instituição financeira, que percorreu 13 cidades nacionais desde novembro do ano passado, dando voz aos representantes de 42 associações empresarias, auscultando as reais necessidades das empresas, setor a setor, distrito a distrito.

Neste evento, moderado por Rosália Amorim, diretora do Diário de Notícias e Domingos de Andrade, diretor da TSF e diretor-geral Editorial do Global Media Group, estiveram presentes, além de António Saraiva, Pedro Siza Vieira, ministro do Estado, da Economia e da Transição Digital e António Ramalho, CEO do Novo Banco. Este debate, que encerra o ciclo de 13 conferências, pretendeu dar indicações sobre a situação atual da economia portuguesa e pistas para a recuperação empresarial.

Além do tema do crescimento económico e do impacto do PRR - Plano de Recuperação e Resiliência, a questão das moratórias foi um dos assuntos que esteve em cima da mesa. António Saraiva referiu que a saída das moratórias deveria ter sido planeada mais cedo e que o montante astronómico de crédito em moratória era preocupante há algum tempo.

Pedro Siza Vieira referiu, a propósito deste assunto, que tem estado em conversações com os bancos sobre a questão das moratórias e que é fundamental ter agora soluções mais focadas para os setores mais afetados pele pandemia, como o turismo, a restauração, a área do retalho e do transporte. "As moratórias foram uma ajuda muito grande e representaram um reforço da poupança para empresas cuja atividade correu bem, mas para os setores cuja atividade parou, vamos precisar dar mais tempo para se adaptarem, tendo em conta as estimativas da procura" referiu. Este responsável anunciou que será, entretanto, apresentada - não se comprometendo com uma data, mas dizendo que o desejável seria durante a primeira quinzena de julho - a possibilidade das empresas discutirem soluções com os bancos e em que condições podem proceder ao refinanciamento ou reestruturação da dívida em moratória. Para as empresas mais afetadas e que não estejam em incumprimento, poderá ser dada uma garantia sobre uma parte do crédito em moratória para facilitar o esforço dos bancos. "Obviamente que tudo isto será complementado com outras medidas de apoio. O PRR reservou já 1300 milhões para a capitalização das empresas, e uma parte será para recapitalizar empresas afetadas pela pandemia", explica. O ministro refere ainda que continua a acreditar verdadeiramente numa retoma robusta e num crescimento superior a 4%, com uma resposta rápida do consumo privado e a continuação do bom desempenho das exportações de bens, referindo que as empresas industriais foram resilientes. "Tivemos crescimento das exportações em vários trimestres consecutivos, mesmo em comparação com o período homólogo de 2019, e um bom desempenho do setor industrial. As medidas que tomámos para proteger o potencial produtivo das empresas e o emprego permitiu às empresas reagir rapidamente quando a procura retomou", explica.

"As empresas responderam bem à crise, adaptaram-se, inovaram, encontraram novos produtos, novos mercados, porque esta crise veio mostrar a dependência das cadeias globais de abastecimento e o perigo desta dependência, sobretudo no que diz respeito a bens e serviços estratégicos. Mas o que nos deve preocupar é como é que saímos deste crescimento anémico nestes últimos 20 anos, e como devemos aproveitar este pacote comunitário, que não se esgota no PRR, porque temos até 2030 cerca de 62 mil milhões de euros disponíveis, para ter uma oportunidade para que o país possa crescer mais do que 4%", rebate António Saraiva. O representante dos empresários afirma que temos de repensar tudo para criar um crescimento sustentado, e que isto exige reformas, exige repensar o país no seu modelo de desenvolvimento. "É isto que as associações querem fazer em parceria com o governo. Ainda esta semana entregaremos ao governo um documento com a nossa estratégia de crescimento e competitividade, para responder à questão de como é que vamos resolver os problemas estruturais e crescer sustentadamente", diz.

Banca tem de atuar em parceria

Sobre o impacto do PRR e o papel da banca na sua concretização, António Ramalho refere a propósito que este traz o desafio da implementação rápida, e que esta faz parte do próprio plano de recuperação. "A banca é hoje substancialmente diferente da banca que tínhamos na crise de 2008, que apresentava então 7% de capitais próprios e tem atualmente 15%". Afirma que o setor financeiro está hoje mais cauteloso, mas que está preparado para ajudar no desenvolvimento económico do país, o que terá de acontecer em parceria, acredita. "Este desenvolvimento tem de se sustentar em três parcerias: entre o Estado e os fundos comunitários; na qualidade das nossas empresas, que já tinham experiência em crise, o que lhes dá uma vantagem competitiva e que permitiu que a atividade industrial resistisse; e na capacidade de transformar o risco em investimento e é aqui que a banca será uma alavanca decisiva", explica. Para este responsável do setor financeiro, a banca tem de ser parceira destes movimentos, e se na crise de 2008 foi uma parte do problema, agora tem de ser parte da solução.

Quando questionado sobre a perceção que os empresários têm, sobretudo os mais pequenos, de que o dinheiro chega mais depressa a empresas como a TAP do que à economia real, Pedro Siza Vieira explica que "à TAP o Estado emprestou 1200 milhões de euros e meteu 400 milhões de euros de capital. Entre janeiro e abril deste ano o Estado meteu a fundo perdido nas PME dos setores mais afetados cerca de 1800 milhões de euros. Foi um esforço sem precedentes", afirma. António Saraiva não se mostra de acordo, e rebate que a perceção não é igual para os dois lados, já que os empresários não têm essa mesma visão, e que dos 16,6 mil milhões do PRR só cinco mil milhões são dirigidos diretamente para as empresas.

Segundo os inquéritos que o Novo Banco realiza aos seus clientes empresariais, os resultados são um pouco melhores do que a perceção global. "A perceção negativa do impacto da pandemia do primeiro survey que realizámos era de 60%, e agora é de 56%. Os setores que achavam que a covid-19 não tinham impacto na sua estruturação eram 29% e agora são 34%, e quando olhamos para os resultados da qualidade financeira, 49% das empresas acham que podem ter aumento dos resultados quando esse era de 17% no primeiro inquérito", explica António Ramalho.

Os desafios de Portugal para o crescimento económico sustentável são ainda vários, sendo que a descapitalização das empresas é um problema crónico, que deve ser resolvido. "O problema das empresas é a sua dimensão, os fracos capitais próprios, e temos de encontrar soluções de capitalizar e dar escala, se queremos ter 50% do PIB nas exportações temos que fazer para isso. Temos de promover fusões e concentrações, temos de capitalizar e recapitalizar", afirma António Saraiva. Outro problema crónico é que Portugal tem uma enorme falta de mão-de-obra qualificada. "Só no setor da metalurgia e metalomecânica, que é o que conheço melhor, tínhamos, antes da pandemia, a necessidade de 28 mil pessoas qualificadas. Por isso é essencial qualificar e requalificar em todos os setores, pois os desafios da digitalização exigem ter as competências necessárias", remata.

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