Setor dos casamentos preocupado com falta de regras específicas

Há mais de um século que não havia tão poucos casamentos como em 2020. Com perdas de milhões de euros, empresas pedem manual de boas práticas para regresso à atividade.

Na próxima fase do desconfinamento, agendada para 19 de abril, vai ser permitida a realização de casamentos. A data está, assim, marcada, mas o setor continua a ter muitas dúvidas e desenvolveu um manual de boas práticas que apresentou à Direção-Geral da Saúde (DGS). O setor mostra-se ainda disponível para participar num grupo de trabalho para elaborar regras para estes eventos. O objetivo é evitar o temido passo atrás: novas restrições que travem os casamentos. Até ao momento, ainda não tiveram uma resposta da DGS e temem os efeitos económicos da ausência de regras específicas.

A 11 de março, conta ao Dinheiro Vivo António Brito, da Exponoivos, houve uma reunião com a DGS em que foi apresentado "um manual de boas práticas relativamente à indústria do casamento". "A nossa sugestão foi criarmos uma comissão de trabalho, nós [setor dos casamentos] com a DGS, para definir as regras necessárias para a retoma da atividade. No dia 11 de março enviámos o manual, já enviamos três e-mails para a DGS a dizer que continuamos disponíveis para nos reunirmos e, até agora, não tivemos resposta nenhuma", acrescenta. A esperança é que nos próximos dias haja possibilidade de avançar com encontros que permitam a definição das regras.
Precisamente a 11 de março, o primeiro-ministro indicou ao país como se ia dar a retoma gradual das atividades económicas. Se a evolução da pandemia permitir, a 19 de abril casamentos e batizados podem ser realizados com um máximo de 25% da lotação dos espaços. A taxa de ocupação pode subir para 50% em maio, indicou ainda na altura o chefe de governo.

Mas a grande questão para o setor é precisamente essa: apenas a lotação dos espaços está definida. E, dizem, um casamento tem muitas especificidades e por isso veem com bons olhos a testagem de todos os participantes. "Daqui a duas semanas os casamentos podem começar a ser realizados e não há normas para que assim seja. A nossa grande preocupação é como é que os casamentos vão começar a ser realizados e em que condições. Queremos precisamente evitar que aconteça o que aconteceu no ano passado: as regras eram poucas e cada um fazia o melhor que sabia. Mas seria importante que houvesse orientações superiores para que os setores pudessem fazer a sua reabertura" de uma forma segura, explicou António Brito.

Há mais de 130 anos, de acordo com o que noticiou o Público recentemente, que Portugal não tinha tão poucos casamentos como em 2020. Com mais de quatro dezenas de subsetores, o mundo dos casamentos foi fustigado no ano passado. Os prejuízos terão sido de milhões de euros. Um estudo recente da BestEvents, empresa responsável pela organização de feiras nacionais e internacionais dedicadas ao casamento, e pela revista I Love Brides, revelava que 34,2% das empresas inquiridas tiveram perdas na ordem dos 90% e 19,8% perto de 80%, enquanto 18% não tiveram qualquer faturação (entre 90% e 100%).

Notando que preparar um casamento não pode ser comparado com uma refeição num restaurante, porque a preparação de um evento destes exige tempo, António Brito não esconde que vários casais têm apresentado muitas dúvidas sobre o que podem, ou não, fazer e que o setor não pode dar respostas firmes. Questionado sobre se esta ausência de regras mais específicas pode agravar a já frágil situação económica e financeira das empresas, o líder da Exponoivos teme que sim. "O que pretendemos é que, quando se retomar a atividade, ela continue aberta. Não queremos voltar atrás [a confinar] e, daí, estarmos disponíveis para cumprir uma regra que é a testagem obrigatória dos convidados e saber as regras para garantir a segurança. Para que o setor possa reabrir, fazer os seus planos a médio e longo prazo e saber que pode trabalhar nos próximos meses e anos", salienta o responsável. "O setor foi fustigado do ponto de vista económico e social. Muitos tinham a sua vida organizada para se casarem em 2020, adiaram para 2021 e agora o que já está a acontecer é passarem para 2022 ou 2023", o que gera uma bola de neve.

Apesar de haver noivos que em 2020 continuaram a pagar algumas prestações, as empresas continuam a enfrentar problemas de liquidez porque o serviço não é prestado na íntegra nem chegam novos. A constante mudança de datas gera constrangimentos de agenda e os noivos que pretenderiam casar em 2023 por exemplo, terão menos datas disponíveis e as empresas menos opções para rentabilizar o negócio.

Ana Laranjeiro é jornalista do Dinheiro Vivo

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