Setor automóvel reclama mais incentivos à compra e reforço da rede de carregamento

Secretário de Estado adjunto e da Economia ouviu as queixas da ACAP e dos construtores europeus. ACEA aponta grande desigualdade entre os países em funçao do PIB e lembra o drama dos trabalhadores.

A indústria automóvel europeia tem um enorme desafio em virtude do plano Fit for 55 de Bruxelas com o objetivo de atingir a neutralidade carbónica em 2050. Nas vendas, mas também na reconversão de muita mão-de-obra.

Petr Dolejsi, diretor de Mobilidade e Transporte Sustentável da Associação Europeia de Construtores Automóveis (ACEA), disse ontem que a maior dificuldade será a da implementação de uma rede de carregamento igualitária e equitativa entre Estados que ajude à adoção dos automóveis elétricos como solução credível.

"O maior problema é que temos uma regulação para cumprir de um lado, mas do outro não temos uma infraestrutura de carregamento estabelecida", assume, exemplificando com a profunda discrepância na implementação da rede. "Muitos dos pontos de carregamento estão em três países apenas - Países Baixos, França e Alemanha, que representam 23% do total de pontos de carregamento na UE." É aqui que reside um dos principais desafios, pois o plano Fit for 55 prevê que em 2030 existam 3,5 milhões de carregadores públicos, "um aumento de 27 vezes em apenas nove anos, o que é realmente um desafio. Mas se os consumidores virem que não há uma rede estabelecida, não conseguiremos que comprem carros elétricos", disse.

Além disso, há uma discrepância na natureza dos carregadores. Dos 224 237 pontos de carga na UE, apenas 24 987 são de capacidade de carregamento acima de 22 kW, sendo a grande maioria inferior a 22 kW. Dito por outras palavras, "apenas um em cada nove pontos de carregamento na UE são de natureza rápida".

Vendas concentradas nos países mais ricos

O responsável da ACEA apontou uma clara evolução da aceitação dos veículos eletrificados - em 2020, o total de vendas na Europa foi de 22,5% contra os 8,9% de 2019. Mas há uma "grande preocupação" com a diferença entre cada país, havendo diferentes aceitações e com o peso dos incentivos a revelar-se determinante.

Ou seja, 17 dos países da UE têm uma quota de mercado de BEV de 5% ou abaixo, sendo que oito têm uma quota de mercado de elétricos inferior a 2%. Apenas oito têm uma quota de mercado acima dos 5%, sendo que o caso dos Países Baixos é uma exceção evidente, com 20,5% de quota.

O rendimento existente em cada país está também diretamente ligado à aceitação dos veículos elétricos: 73% de todos os veículos 100% elétricos são vendidos em apenas quatro países com o Produto Interno Bruto mais elevado.

Porém, também não deixa passar em branco o papel bastante importante de outras abordagens, como a do hidrogénio e a dos combustíveis renováveis, "já que temos de olhar também para as frotas de automóveis que ainda temos em circulação. Teremos diferentes caminhos para atingir esse objetivo da neutralidade carbónica".

Com 12,6 milhões de trabalhadores europeus ligados ao setor, Dolejsi defende uma "transição justa", admitindo que será necessário um grande trabalho de conversão e de reaprendizagem da mão-de-obra a nível europeu.

Governo quer desenvolver baterias

Isso mesmo reconheceu o secretário de Estado adjunto e da Economia, que participou por via digital na sessão ."É um desafio de enorme importância que exige respostas globais, mas também ao nível local", considerou. "Há que refletir e ajustar a nossa especialização produtiva", pois vão surgir novas tecnologias e vamos ter maiores dificuldades de adaptação em áreas de produção relacionadas com cadeias de menor valor, disse.

Por essa razão, João Neves defende que as novas soluções que o país tenha para oferecer nos nossos mercados externos "têm de acontecer neste período de tempo". Para ganhar tempo, para marcar terreno. E deu o exemplo das baterias e da cadeia de valor à volta do lítio. "É preciso que se desenvolvam novas gerações de baterias", disse.

O secretário de Estado assegurou que do lado das políticas públicas será feito um esforço sério para facilitar este período de ajustamento à indústria com uma atenção particular às atividades de maior valor acrescentado.

Do lado da resposta industrial, o secretário de Estado adjunto lembrou que toda este processo de ajustamento é muito relevante para a economia nacional, tendo em conta que um terço das nossas exportações giram à volta dos componentes ligados ao setor automóvel.

A indústria vai pois ter de criar a capacidade de gerar novos produtos, ao mesmo tempo que destrói outras áreas e se refunda, concluiu o governante, que elogiou o Portugal Mobi Summit pela possibilidade de colocar todos os diferentes agentes em debate.

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