Portugueses gastaram menos 59 milhões por dia no ano passado

Foi o primeiro ano desde 2013 em que se registou uma quebra das operações de pagamentos em Portugal. Neste ano há uma recuperação, mas valores estão abaixo dos de 2019.

Menos pagamentos, menos compras, menos levantamentos. A crise de 2020 gerou uma redução nas operações de pagamentos de retalho em Portugal. Foram, ao todo, menos 21,6 mil milhões de euros em operações efetuadas no Sistema de Compensação Interbancária (SICOI) no ano passado. Correspondem a uma quebra de 59 milhões de euros por dia. Em número de operações, foram registadas menos 300 milhões em todo o ano, o que representa, em média, uma redução de 822 mil por dia.

Os dados constam do Relatório de Sistemas de Pagamentos de 2020, que foi divulgado pelo Banco de Portugal ontem. "O número e valor de pagamentos de retalho diminuiu pela primeira vez desde 2013, espelhando a contração económica e do consumo", refere o supervisor no relatório. "Após seis anos de crescimento, e fruto da contração da atividade económica e do consumo, os pagamentos com cheques, efeitos comerciais, débitos diretos, transferências a crédito, transferências imediatas e cartões, registaram, em conjunto, quebras de 9,2% em número e de 4,1% em valor", adianta. As operações de pagamentos de retalho em Portugal ascenderam a 501,5 mil milhões de euros no ano passado, enquanto o número de operações se fixou em 2,7 mil milhões. Os dados comparam com um valor de 523,1 mil milhões de euros e três mil milhões de operações registados no SICOI em 2019.

Segundo dados do Banco de Portugal, já se nota uma recuperação ao nível dos pagamentos em 2021. Entre janeiro e março deste ano, os pagamentos de retalho cresceram 9% face ao período homólogo de 2020. Mas, face ao mesmo período de 2019, ainda registam uma quebra de 9%.

O ano de 2021 foi marcado pela epidemia e pelas medidas fortemente restritivas adotadas pelo governo no âmbito da crise sanitária, incluindo o confinamento da população.

No mesmo relatório, o supervisor financeiro destaca a mudança de comportamento dos consumidores. Segundo o Banco de Portugal, "aumentou a utilização das transferências a crédito e das transferências imediatas, em grande medida por permitirem a realização de pagamentos não presenciais". De acordo com o supervisor, os levantamentos de dinheiro caíram 21%. Excluindo o numerário, os cartões foram utilizados em 99,3% dos pagamentos de retalho efetuados, correspondendo a 87,9% do respetivo valor total, avança o documento. Em termos de hábito de utilização dos cartões, as compras online cresceram 32% e as compras com cartão contactless aumentaram 163%.

Nas transferências a crédito, o crescimento foi de 8% em número de operações e de 3,5% em valor e nas transferências imediatas o aumento foi 81,3% em número e 50,4% em valor..

Mas as transferências imediatas, apesar do seu "crescimento significativo", mantiveram um peso reduzido nas operações processadas, representando 0,2% em número e 1,2% em valor do total de operações. O valor médio observado nas transferências imediatas foi de 1079 euros.

No caso dos débitos diretos, desceram 5% em número e 7,6% em valor, "devido à suspensão de muitos serviços durante o período da pandemia".
Quanto ao recurso ao cheque, "reduziu-se drasticamente, reforçando a tendência de decréscimo dos últimos anos: 27,9% em número e 27,8% em valor".
Segundo o relatório, em média, cada habitante em Portugal efetuou "225 pagamentos com cartões, 19 com débitos diretos, 17,4 com transferências a crédito, 1,8 com cheques e 0,5 com transferências imediatas". "Em valor, cada habitante gasto u, em média, 12.349 euros com cartões, 2630 euros com débitos diretos, 27.225 euros com transferências a crédito, 5876 euros com cheques e 589 euros com transferências imediatas", aponta o documento.

Depósitos batem recorde

O Banco de Portugal divulgou também ontem, numa nota estatística, que os depósitos de particulares subiram para um novo recorde em março, atingindo os 164,6 mil milhões de euros. Mantém-se assim a tendência do reforço da poupança das famílias em plena crise económica e enquanto estão em vigor a maioria das moratórias no crédito à habitação, que só vencem no final de setembro. O valor representa um aumento de 800 milhões de euros face aos 163,8 mil milhões registados no mês de fevereiro. Desde o início deste ano, os depósitos dos particulares cresceram 2,8 mil milhões de euros.

Quanto aos empréstimos a particulares, subiram em março para um novo máximo de seis anos, fixando-se nos 121, 3 mil milhões de euros. O valor representa um aumento de 400 milhões face a fevereiro e compara com 118,8 mil milhões de euros em março de 2020. Os empréstimos à habitação subiram 405 milhões de euros, em termos mensais, para os 95,9 mil milhões, o valor mais alto desde agosto de 2016.

Elisabete Tavares é jornalista do Dinheiro Vivo

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