Portos batem recorde de cruzeiros mas precisam de mais embarques

Porto vai crescer 52% e superar os cem mil passageiros pela primeira vez. Lisboa reforça-se como cidade de partida e chegada de navios

Os portos de Lisboa e do Porto vão bater recordes de passageiros de cruzeiros neste ano. No Norte prevê-se um crescimento de 52% para cerca de 110 mil pessoas. Em Lisboa esperam-se mais 17 735 cruzeiristas que iniciam ou terminam as suas viagens na cidade face ao ano passado, o que representará um aumento de 37% .

Em 2016 o número de portugueses que realizaram cruzeiros cresceu 15%, para 42 307. Este valor precisa de aumentar, segundo os responsáveis da indústria, para que Portugal conquiste mais partidas e chegadas, que rendem dormidas na hotelaria e passageiros nos aeroportos.

Crescendo essencialmente à base de escalas, a indústria dos cruzeiros aumentou o impacto na economia portuguesa em 23,8% entre 2014 e 2015, de 193 para 239 milhões de euros. A indústria dos cruzeiros global cresce mais de 6% a cada ano e os destinos competem pelas receitas que tripulantes e passageiros despendem nas cidades visitadas. A meio caminho entre o Norte da Europa e o Mediterrâneo, Portugal está numa posição privilegiada para os cruzeiros, mas ainda longe das quotas alcançadas, por exemplo, por Espanha.

Portugal está a beneficiar do facto de "as companhias de cruzeiros, por questões geopolíticas e para fugir aos portos do Norte de África, terem alterado as rotas para o Sul de França e Atlântico", sublinha Luís de Carvalho, CEO da BA Europe, a consultora do setor marítimo que trabalha em projetos em todo o mundo. O consultor explicou, no primeiro congresso internacional de cruzeiros realizado em Portugal, nesta semana, no Terminal de Cruzeiros de Leixões, que no chamado "corredor do Atlântico" foram transportados, em 2015, 3,6 milhões de passageiros de cruzeiros que efetuaram 2245 escalas. "Portugal recebeu 1,2 milhões de passageiros e 868 escalas. Só 42 307 portugueses efetuaram cruzeiros (0,4% da quota europeia). Há muita margem para crescer", adiantou.

Portugal já recebe algumas paragens de navios que não são meras escalas. Em 2016, o porto de Lisboa registou perto de 50 mil passageiros embarcados ou desembarcados, em cruzeiros em turnaround, termo técnico usado para descrever os itinerários que têm início ou terminam na cidade. Neste ano o número desses passageiros deverá subir para 65 mil pessoas na capital. Cada cruzeirista que passou por Lisboa, em 2015, gastou em média 130,28 euros, segundo o Observatório de Turismo de Lisboa. A maioria da despesa (50,5%) foi em compras, 21,4% em alimentação, 12,5% em deslocações na cidade e só 8,5% foi em alojamento. São apenas os passageiros em turnaround que fazem este tipo de despesa, visto que os restantes passam, em média, oito a dez horas na cidade antes de partirem para um novo destino.

"Gostaríamos de ter mais cruzeiros a partir de Portugal, mas para isso temos de embarcar mais de 400 ou 500 passageiros por navio", explicou Eduardo Cabrita, diretor-geral da MSC Cruises em Portugal, a companhia de cruzeiros líder de mercado no país e na Europa. Em 2016, a empresa transportou 20 452 portugueses (+14,8% do que em 2015), na sua maioria com destino ao Mediterrâneo ou Norte da Europa, mas ainda não chegam para encher os navios cada vez maiores da MSC.

O representante da Royal Caribbean Cruise Line, Francisco Teixeira, da Melair, tem visto o mercado português dos cruzeiros crescer nos últimos 35 anos. Ainda assim, considera que "temos uma desvantagem, que é um acréscimo de 30% sobre o preço dos cruzeiros devido às viagens de avião que implicam". Além de que "a economia das famílias ainda não é tão forte como noutros países, onde os consumidores têm maior margem para pagar por um cruzeiro", acrescenta.

Agustín Quesada, CEO da Mundomar e representante da Princess Cruises e Cunard Line para Portugal e Espanha, acredita que há potencial, quer na emissão quer na receção, de mais passageiros de cruzeiros. "O passageiro português é muito melhor do que o espanhol: tem uma mentalidade mais aberta, fala línguas e raramente se queixa."

Alessandro Carollo, responsável pelas operações portuárias da Royal Caribbean, Azamara e Celebrity Cruises, aconselha: "Para terem mais cruzeiros, tentem cativar as tripulações e os agentes de viagens. Isso vale mais do que promoção junto das companhias, porque são eles que recomendam os destinos aos passageiros e nós vamos onde os clientes querem ir."

Catarina Rawes, diretora-geral da James Rawes Navegation, propôs a criação de "um prémio às companhias de cruzeiros que escalarem vários portos portugueses na mesma viagem, por exemplo pagando taxas de entrada só no primeiro porto e de saída no último".

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