Pandemia já roubou 813 milhões aos lucros dos maiores bancos

Quatro das principais instituições financeiras em Portugal sofreram uma quebra conjunta de 42% nos lucros em 2020. Puseram de lado 1300 milhões para eventuais perdas.

Num ano marcado pelas medidas impostas pelo governo no âmbito da epidemia, quatro dos maiores bancos em Portugal lucraram mais de 1100 milhões de euros. Trata-se de uma quebra de 813 milhões de euros face aos resultados alcançados em 2019. Nesse ano, os quatro bancos - Caixa Geral de Depósitos, Millennium bcp, Banco BPI e Santander - lucraram quase 2000 milhões de euros.
Por detrás da quebra nos lucros em 2020 estão provisões totais de 1300 milhões de euros que os bancos constituíram para fazer face a eventuais perdas futuras, nomeadamente as relacionadas com créditos de clientes. "Continuamos sem ter visibilidade sobre a profundidade e duração desta crise", disse ontem Miguel Maya, presidente executivo do Millennium bcp, na conferência de divulgação dos resultados anuais do banco.

Os quatro bancos registam mais de 20 mil milhões de euros em moratórias ativas. Grande parte termina em setembro, mês do fim do prazo da moratória pública. Analistas temem que nessa altura possa disparar o nível de crédito malparado na banca. "Estou preocupado. O mais importante vai ser o que vai acontecer a partir de março", disse Filipe Garcia, economista da IMF - Informação de Mercados Financeiros. Os clientes têm até ao fim de março para aderir a moratórias no crédito. Mas algumas moratórias de clientes começam a vencer. "O país ainda não reabriu", salientou o economista. "Vai ser a partir de março que a realidade vai começar a vir ao de cima. A realidade atual (com famílias e empresas protegidas por moratórias) tem um prazo de validade", frisou. "Não sabemos qual vai ser a reação da economia ao tema das moratórias", adiantou.
Os banqueiros têm defendido medidas para ajudar as empresas e famílias que não consigam retomar o pagamento das respetivas prestações do crédito quando terminar o prazo das suas moratórias.

Para controlar a pandemia de covid-19, o país tem implementado medidas como o fecho de estabelecimentos comerciais e de negócios, o que tem gerado mais desemprego e agudizado a situação financeira de empresas e famílias.
Uma das dúvidas é se as almofadas que os bancos estão a pôr de lado serão suficientes para cobrir eventuais perdas com incumprimento de clientes. "Os bancos têm feito um esforço para se precaver", disse Filipe Garcia.

Portugal é dos países europeus com mais moratórias, que atingem um montante de 46 mil milhões de euros, segundo estimativas do Banco de Portugal. O supervisor prevê que até ao fim de setembro ficarão por pagar 13 mil milhões de euros em prestações de crédito, com as empresas a representar 11 mil milhões do valor global.

Apesar deste cenário de grande incerteza, só o Millennium bcp já confirmou que não prevê distribuir dividendos em relação ao exercício de 2020. O BCP, na divulgação dos seus resultados anuais, garantiu que, à semelhança do que fez em relação ao exercício de 2019, vai voltar a reter dividendos. Mas Miguel Maya, presidente executivo do banco, admitiu que o banco vai reavaliar o tema depois de setembro, após o terceiro trimestre, abrindo a porta à possível remuneração dos acionistas. A Caixa Geral de Depósitos vai propor o pagamento de 85 milhões de euros ao acionista Estado. Quanto ao Banco BPI, detido pelo espanhol CaixaBank, anunciou o pagamento de dividendos ao acionista, no montante de 13 milhões, mas só o vai concretizar em setembro. O Santander ainda não apresentou os seus resultados em Portugal.

Ainda falta conhecer os resultados de um dos grandes bancos do setor, o Novo Banco, que deverá voltar a registar um prejuízo e vai requerer nova injeção de capital por parte do Fundo de Resolução.

Menos balcões

Reduzir os custos tem sido uma das tendências no setor. O ano de 2020 não foi exceção. No total, os quatro bancos que já apresentaram as suas contas anuais cortaram 926 postos de trabalho em termos líquidos. Foram ainda encerradas 90 agências bancárias no país.
O Banco BPI foi o que fechou mais balcões, encerrando 55 agências em 2020. Seguiram-se o BCP, com o fecho de 27 balcões, e a Caixa, com menos oito. O banco público foi o que perdeu mais trabalhadores em 2020, com a saída de 517 trabalhadores, em termos líquidos. O BPI perdeu 218 colaboradores e o BCP sofreu a saída de 191.
Nesta semana, a Comissão de Trabalhadores do Novo Banco alertou que pode estar em marcha no banco um plano que pode levar à saída de cerca de 1500 colaboradores.

Elisabete Tavares é jornalista do Dinheiro Vivo

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