OPA à EDP vale mais que 10 anos de investimento chinês em Portugal

China Three Gorges pode gastar até 10,26 mil milhões para ficar com a EDP e com a EDP Renováveis. Mas o preço oferecido implica um prémio baixo face à cotação de sexta-feira e há quem espere por uma oferta rival

As ofertas da China Three Gorges pela EDP e pela EDP Renováveis podem significar um investimento total de 10,26 mil milhões de euros, caso a empresa chinesa compre a totalidade do capital das duas empresas. É mais do que todo o investimento chinês em Portugal na última década.

As compras das empresas públicas e privadas da segunda maior economia do mundo totalizaram 8,7 mil milhões de dólares (7,3 mil milhões de euros) nos últimos dez anos, segundo uma análise da Bloomberg. Portugal tem sido um dos grandes destinos do dinheiro chinês. O investimento de Pequim no mercado nacional ultrapassa o que foi feito em países como Espanha, Bélgica e Irlanda, por exemplo, segundo a agência financeira que contabiliza 15 aquisições chinesas em Portugal.

Apesar de a OPA da China Three Gorges (CTG) à EDP e à EDP Renováveis implicar um investimento máximo de mais de dez mil milhões pode ser bem-sucedida com menos dinheiro. No anúncio preliminar, a CTG fez saber que a operação será eficaz desde que consiga ficar com 50% mais um direito de voto da EDP. Para cumprir com esse mínimo, a empresa chinesa teria de desembolsar apenas 3,18 mil milhões.

A CTG gere a maior barragem do mundo, a das Três Gargantas. Em 2011 venceu o último processo de reprivatização da EDP, pagando 2,7 mil milhões em troca de 21,35% da elétrica. Mais tarde, uma outra entidade chinesa, a CNIC, também foi investindo na EDP, chegando aos 4,98%. Ou seja, Pequim controla um total de 28,25% na segunda empresa mais valiosa da bolsa portuguesa.

O esforço financeiro da CTG para comprar a EDP é grande. Mas falta saber a reação dos investidores, já que a oferta apenas foi conhecida após o fecho de sexta-feira. A empresa chinesa propõe pagar 3,26 euros por cada ação da EDP, um valor 4,8% superior aos 3,11 euros com que os títulos encerraram a última sessão. A CTG argumenta que a contrapartida implica "um prémio de cerca de 10,8% em relação ao preço médio ponderado das ações nos seis meses anteriores". Lu Chun, chairman da companhia chinesa, considerou que "a oferta representa uma proposta económica atraente para os acionistas da EDP".

OPA concorrente?

Octávio Viana, presidente da Associação de Investidores (ATM), discorda. "O feedback dos investidores, mesmo de institucionais, é de que o preço oferecido pela China Three Gorges não reflete as expectativas do que entendiam ser o justo valor." Mas ressalva que a ATM não tem uma posição formal.

A CTG avançou pela EDP depois de sucessivas notícias a indicar o interesse de gigantes europeias na elétrica portuguesa. Foi o caso da espanhola Gas Natural que esteve a estudar uma fusão com a segunda maior cotada portuguesa. A imprensa francesa também indicou o interesse da Engie e a italiana Enel. E também a alemã Eon, que foi derrotada na privatização da EDP, manteve a elétrica debaixo de olho.

"Era ótimo que houvesse uma OPA concorrente e na nossa perspetiva existem outras sociedades para quem faz sentido" comprar a EDP, disse Octávio Viana.

Albino Oliveira, analista da Patris Investimentos, sublinhou, em declarações ao DN/Dinheiro Vivo, que "a EDP posicionou-se em mercados-chave, como o das renováveis e à frente de outros players", o que a tornou "um alvo muito apetecível".

O mercado de energia tem estado a ferro e fogo com o número e os valores de negócios de fusões e aquisições a disparar. Em 2017, superaram os 200 mil milhões de dólares (qualquer coisa como 167 mil milhões de euros) e, no primeiro trimestre deste ano, o ritmo tem acelerado ainda mais, com a oferta de mais de 40 mil milhões de euros da Eon pela renovável Innogy. As renováveis são o bolo apetecido.

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