O empreendedorismo é a escola das competências do futuro

Web Summit 2022, com análise de Daniel Traça, diretor e professor de Economia na Nova SBE.

Odesenvolvimento do empreendedorismo tem sido fundamental para o crescimento económico em muitos países. A ascensão meteórica das grande empresas digitais que dominam hoje a economia global, - a partir das ideias e energia de jovens criativos e dinâmicos, financiados por ecossistemas de investidores disponíveis para assumir risco sem limites, - inspira hoje não só os jovens do mundo, mas também os responsáveis pela politica económica.

Esta tendência internacional tem um reflexo forte no nosso país, com o sucesso demonstrado pelo elevado número de unicórnios portugueses. O potencial do país pode chegar ainda mais longe, se focado na atração do binómio talento-capital, alavancando o lifestyle que continua a atrair cada vez mais estrangeiros para Portugal. A criação de um visto especial pelo governo foi uma boa medida.

Uma perspetiva que tem recebido pouca atenção é a relevância das competências desenvolvidas pelo empreendedorismo para os profissionais do século XXI, mesmo que aqueles que não levam a termo o desenvolvimento da sua start-up ou, se o fazem, acabam votados ao insucesso - o que corresponde a 99% dos casos.

As últimas décadas trouxeram um enquadramento económico diferente para as empresas. É lugar comum reconhecer que a economia se tornou mais volátil e incerta, quer a nível macroeconómico, com cisnes negros políticos, geopolíticos, socioeconómicos ou naturais a exigirem uma reatividade e agilidade permanente e célere, quer a nível microeconómico, com a inovação disruptiva persistente de concorrentes ou outros competidores a exigir uma disposição permanente para inovar à frente dos competidores. Agilidade e Inovação tornaram-se assim os fatores que, cada vez mais, definirão a competitividade e a resiliência das empresas. Mesmo para o setor público, este tipo de atitude permitiria servir melhor e mais eficientemente os nossos cidadãos.

Para se transformarem no sentido da agilidade e inovação, as empresas terão de alterar a sua estrutura organizacional e a sua cultura, mas terão também de recrutar talento preparado para esse enquadramento. Isso implica gestores com (i) autonomia para tomar decisões de forma rápida, (ii) capacidade para ler os mercados e antecipar tendências, (iii) visão para redefinir táticas para atingir os objetivos, (iv) disponibilidade para integrar e liderar equipas diversas, (v) coragem para exigir das empresas e dos superiores hierárquicos e (vi) a resiliência para ultrapassar os inevitáveis obstáculos e fracassos que surjam.

Ora, o empreendedorismo, - isto é, a experiência de tornar realidade uma ideia arrojada com um equipa diversa, assegurando a confiança dos stakeholders relevantes - é a mais eficaz academia para as seis atitudes mencionadas acima. Certamente não são competências assimiláveis em qualquer sala de aula, com qualquer professor, mesmo de empreendedorismo. Neste sentido, o entrosamento dos ecossistemas de empreendedorismo com a universidade, ou até com o ensino secundário, representa uma dimensão incontornável da preparação do talento para a economia do século XXI. Esta integração deveria assumir claramente esta dimensão, - com parcerias e projetos inovadores para uma verdadeira atitude empreendedora na juventude portuguesa integrada nos planos curriculares e extracurriculares. O potencial suplementar de inspirar e descobrir o próximo Steve Jobs numa universidade ou escola secundária de Portugal seria uma contribuição suplementar, mas o impacto transversal na produtividade das nossas empresas seria a grande transformação.

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