Na indústria dos curtumes quase nada se deita fora

Reciclagem e reaproveitamento têm cada vez mais lugar numa tradição bem portuguesa. Sem sacrificar a qualidade.

Peles, couros, peles com pelo e obras destas matérias; artigos de correeiro ou de seleiro; artigos de viagem, bolsas e artefactos semelhantes; obras de tripa. São assim agrupados os produtos de pele, que praticamente duplicaram exportações na última década. Foram mais de 252 milhões vendidos para fora no ano passado - à boleia de artigos tão diversos como os sapatos portugueses ou os interiores de carros, roupa e carteiras, entre outros que têm na origem uma das mais cotadas matérias-primas do mundo.

Não é à toa que as peles portuguesas conseguiram este lugar no topo. "As imagens de poluição associadas à indústria de curtumes no mundo têm tendência a desaparecer e já não representam de forma alguma o mainstream da indústria", assegura ao DN Nuno Carvalho, presidente da Associação Portuguesa dos Industriais de Curtumes (APIC). "Sendo uma indústria recicladora que valoriza um resíduo da indústria das carnes, os curtumes já aplicam os princípios da economia circular há bastante tempo e contribuem para eliminar o problema ambiental que surgiria do facto de termos de depor milhões de peles de animais abatidos para consumo de carne."

Aqui nascida pela mão dos artesãos de Guimarães, Porto e Alcanena - ainda hoje os maiores centros da indústria -, em cinco séculos os curtumes cresceram e reinventaram-se, materializando-se hoje em 131 empresas, metade delas industriais, e empregando 3500 pessoas.

E se o crescimento dos movimentos animalistas poderia contribuir para esfriar o negócio, a tradição soube modernizar-se e apanhar o comboio das melhores práticas, inclusive ambientais, ganhando novo fôlego com o incontestável selo de qualidade das peles portuguesas. "A nossa indústria foi pioneira. No final da década de 70, foi a primeira a aplicar o princípio do pagador, constituindo em conjunto com o Estado e o município o Sistema de Alcanena - que inclui uma ETAR e rede de coletores de esgotos industriais, uma unidade de reciclagem de crómio e aterros de lamas e de resíduos sólidos", explica Nuno Carvalho. A aplicação de processos inovadores de redução de consumo de água no fabrico, a quase total eliminação de solventes e químicos ajudaram a trazer a indústria para o século XXI e a circularidade de processos tem vindo a ser reforçada, existindo atualmente um quase total aproveitamento de resíduos, muitos deles tendo já alterado a sua classificação de resíduo para subproduto.

Infelizmente, destaca o responsável, "a falta de informação dos consumidores e do público em geral acerca do que é o couro e do papel de reciclagem da indústria acaba por deixar um terreno muito fértil ao populismo dos movimentos de defesa do direito dos animais, prejudicando o couro de forma altamente injusta". E a tutela não ajuda. "Seria necessária uma maior proximidade e conhecimento do terreno", nomeadamente do Ministério e da Agência Portuguesa do Ambiente", diz Nuno Carvalho.

Apesar de não ter dimensão significativa por si, a indústria de curtumes cria um produto de consumo intermédio com forte efeito multiplicador. "O couro acabado é utilizado como matéria-prima, como input num conjunto muito variado de setores - do calçado ao automóvel, passando pela marroquinaria, roupa e acessórios". Ou seja, a riqueza e emprego gerados vão muito além da própria indústria. Os curtumes geram anualmente mais de 400 milhões de euros de volume de negócios, metade para exportação direta. A restante produção vai quase toda para o calçado português, que exporta mais de 90% da sua produção, "o que torna esta fileira do couro/calçado quase 100% exportadora", sublinha o responsável.

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