Menos 16 milhões de pares de sapatos foram comprados em 2020

Pandemia levou a uma quebra de quase 25% no consumo de calçado em Portugal, contra os 15,8% a nível mundial: foram comprados 49 milhões de pares no ano passado.

Os portugueses compraram, o ano passado, 49 milhões de pares de sapatos, menos 16 milhões do que no ano anterior. É uma quebra de 24,6%, bem mais acentuada que o total a nível mundial. "É muita coisa, é um balde de água fria. Por muita resiliência que a indústria tenha, quando estamos a falar de números desta dimensão, torna-se muito difícil", diz o presidente da APICCAPS, Luís Onofre, ao DN/Dinheiro Vivo, à margem da visita às empresas portuguesas na Micam.

Que a moda foi um dos setores mais afetados pela pandemia ninguém duvida. Confinados ou em teletrabalho, os consumidores não têm grande apetência por comprar vestuário ou calçado. As previsões apontavam para que o consumo mundial caísse 20%, correspondentes a menos cinco mil milhões de pares de sapatos vendidos em todo o mundo. A realidade acabou por se revelar menos má do que o previsto, já que a Ásia e os países menos desenvolvidos "superaram as expectativas".

Os dados do World Footwear Yearbook (WFY) mostram que a quebra da produção mundial foi de 15,8%, correspondente a menos quatro mil milhões de pares. Um número que, ainda, assim, "destrói todo o crescimento acumulado na última década", pode ler-se no documento estatístico desenvolvido pelo gabinete de estudos da APICCAPS - Associação Portuguesa dos Industriais de Calçado, Componentes, Artigos de Pele e Seus Sucedâneos. Paulo Gonçalves, diretor de comunicação da associação, usa um outro exemplo para situar a dimensão da perda: "São 70 anos da produção da indústria portuguesa", sublinha.

Mas a nível nacional, a dimensão foi mais intensa. Apesar de a produção nacional de calçado ter caído apenas 13% para 66 milhões de pares, menos 10 milhões do que em 2019, a nível do consumo a regressão foi de quase 25%, passando de 65 milhões de pares comprados em 2019 para 49 milhões em 2020. O que levou Portugal a cair de 53.º para 58.º no ranking mundial dos maiores consumidores de calçado.

"O impacto da pandemia foi significativo em todo o mundo, embora não tenha afetado todos os países de igual modo, nem todos os segmentos de produto tiveram um desempenho idêntico", frisa Luís Onofre. Para o empresário, o facto de Portugal ter assumido um "confinamento mais duradouro" implicou que a quebra do consumo tenha sido "bem mais expressiva do que a nível comercial".

O "único sinal positivo", destaca o empresário, tem que ver com a redução nas importações, que foi ainda maior do que a quebra no consumo. "Indica-nos que o consumidor português procura e valoriza cada vez mais o calçado nacional", defende Onofre.

De facto, as importações sofreram um decréscimo significativo em 2020. Em vez dos 65 milhões de pares de sapatos comprados ao exterior em 2019, Portugal importou, em 2020, apenas 44 milhões de pares. São 21 milhões de pares a menos, que equivalem a uma quebra total de 32,3%. O país passou, assim, nas importações, a ocupar o 53.º lugar no ranking mundial WFY, caindo do 46.º posto em que estava antes da pandemia.

Quase metade das importações portuguesas de calçado vêm de Espanha e de França. Portugal comprou 17,4 milhões de pares, no valor de 227 milhões de dólares, ao país vizinho, o que corresponde a uma quota de 40% em volume e de 39% em valor, em consequência do efeito Inditex. Segue-se a França que vale 8% em volume e 10% em valor: foram 3,7 milhões de pares por 56 milhões de euros. A China ocupa a terceira posição no ranking dos maiores mercados de importação, de onde Portugal comprou 11,2 milhões de pares no valor de 55 milhões de euros: a quota é de 25% das importações em quantidade, mas apenas 9% em valor. Em 2019, com 21,9 milhões de pares no valor de 91 milhões de euros, o mercado chinês era responsável por 34% do total de sapatos importados em Portugal e por 12% do valor.

A Micam, a maior feira mundial do calçado, arrancou no domingo em Milão e encerra hoje. São 34 as empresas portuguesas que se fizeram representar no certame, cerca de um terço do número habitual.
Apesar da incerteza da pandemia, o ambiente é de ânimo quanto ao futuro. É que, ao contrário da última edição, há um ano, em que a ausência de visitantes era notória - a edição de março de 2021 foi cancelada -, neste ano há quem não tenha mãos a medir para atender os clientes.

É o caso da Ambitious que admitiu perante o secretário de Estado da Economia, que visitou a feira no domingo, que "já regressou quase à normalidade" no segundo trimestre do ano. A marca esteve presente em 15 certames nesta temporada, entre grandes feiras e presenças em eventos mais localizados, em que a Ambitious foi representada não pelos comerciais da marca, mas pelos seus agentes locais. "Sente-se que há muitas lojas que não aguentaram o embate destes 18 meses, mas, curiosamente, são as mais antigas que parecem ter sobrevivido melhor, porque têm uma autonomia financeira diferente dos grandes grupos internacionais", explicou Pedro Lopes ao governante.

Em Milão

Ilídia Pinto é jornalista do DInheiro Vivo

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