Luísa Pestana: "O aumento do salário mínimo não será, certamente, um fator negativo para a economia do país"

Luísa Pestana faz parte do Conselho de Administração da Vodafone.

Como antevê o retrato da saúde em Portugal?
Estes últimos dois anos mostraram claramente a importância de Portugal reforçar, cada vez mais, os seus sistemas de segurança social e de saúde pública e privada de uma forma articulada e inclusiva. O mesmo poderei dizer relativamente a todos os países do mundo, em geral. A covid-19 está a demonstrar, infelizmente, que nenhum país está imune à terrível pandemia que grassa pelo mundo. E não há bolhas protetoras, como às vezes arrogantemente se pensa, mesmo para os países mais ricos. A cura, a solução, terá de ser global. E cooperação internacional inquestionável. Ora, iguais perante a lei, também devemos ser todos iguais na proteção social e na saúde. Para isso, no nosso caso - a receita é igual para todos - precisamos de investir fortemente nos sistemas de saúde e da segurança social para defesa das populações. Esta tem de ser, acima de tudo, a prioridade de qualquer governo. Sem saúde não há economia, não há desenvolvimento, não há dignidade humana.

Qual seria para si o governo ideal para o país?
Não há governos ideais, nem para Portugal, nem para o mundo. Infelizmente. Mas temos direito, e por isso devemos bater-nos, a ter governos eficientes, justos, estáveis e que - independentemente de ideologias, ou sistemas políticos - ponham os interesses das populações acima de interesses pessoais, ideológicos, partidários e, até em alguns casos, de egoísmo, nacionais. Esse tem de ser o compromisso de qualquer governo e de qualquer país. Penso, aliás, que, quanto a Portugal, os governos em geral têm caminhado nesse sentido. E, num contexto mais alargado, o da União Europeia, são dignos de nota, por exemplo, o seu papel no esforço comum de combate à pandemia e ao aquecimento global (o encerramento da última central a carvão e o aumento da produção de energia solar, por exemplo, são relevantes) e na defesa da democracia, da liberdade e da paz.

De que forma poderá o país voltar a colocar a economia na rota de crescimento?
Apesar da pandemia, e depois de uma queda inevitável e global, a nossa economia tem vindo a crescer. E, como dizem as previsões das organizações internacionais, nomeadamente a OCDE, iremos continuar a crescer nos próximos anos. Não ao ritmo desejável e necessário, certamente, quando comparável a outros países da União Europeia. Os próprios economistas se dividem quanto a uma receita para o crescimento. Há, no entanto, questões fundamentais onde temos de progredir, como é o caso da produtividade. Precisamos também de diversificar e especializar a economia, avançar para a transição digital e apostar em sectores onde potencialmente somos bastante competitivos, como o da chamada economia verde.

Salário mínimo: um desafio ou uma oportunidade? Vai ajudar ou desajudar o país?
O aumento do salário mínimo não será, certamente, um fator negativo para a economia do país. Trata-se de uma questão complexa, que não se pode debater em meia dúzia de palavras. Como defendem os professores David Card, Joshua Angrist e Guido Imbens, que ganharam o prémio Nobel da Economia, um salário mínimo justo pode mesmo ser uma oportunidade. Pessoalmente, no caso português ressalvo, por ordem arbitrária, três aspectos essenciais que temos de equacionar na questão do salário mínimo: em primeiro lugar - e não querendo arvorar-me em ativista feminina - a desigualdade salarial, mesmo ao nível do salário mínimo, entre homens e mulheres; em segundo lugar, a necessidade de aumentar os salários médios, também muito baixos, induzindo ao crescimento dos próprios salários mínimos; em terceiro lugar, o aumento da produtividade através da formação, qualificação e especialização dos trabalhadores e outros recursos humanos.

A natalidade é um dos desafios nacionais. Que medida(s) poderá o novo governo implementar para colmatar a falta de nascimentos?
Indiscutivelmente. Direi que é um dos maiores problemas do nosso país e mesmo da União Europeia. Evidentemente, este e os futuros governos devem fazer um forte investimento financeiro e não só - como uma vasta rede de creches, por exemplo - em políticas de natalidade, apoiando sobretudo as mulheres, as mães solteiras e os jovens casais. Mas também é óbvio que o próprio estilo de vida, sobretudo nas sociedades ocidentais, não propicia muito, como se sabe, o aumento da natalidade.

Envelhecimento ativo é outra preocupação. O que fazer em 2022 para cuidar dos
mais velhos (que tanto sofreram, ficando isolados com a pandemia)?

Penso que também neste tema precisamos ampliar a discussão a partir de uma abordagem mais holística, que inclui ainda - e insisto na questão - a desigualdade de género. Somos já um país de velhos. E não podemos arrumar e esconder o assunto, fazendo dos lares "depósito" de velhos. Também aqui penso que o governo tem de investir em novas políticas públicas centradas, por exemplo, nas tecnologias, na medicina e na saúde, em programas envelhecimento ativo através da promoção de espaços públicos que tenham em limitações na funcionalidade e incentivem a sociabilidade. A talho de foice, importa deixar aqui uma palavra sobre o fenómeno do envelhecimento das mulheres. Há fatores conhecidos que as levam para situações de maior vulnerabilidade na sociedade, como a menor escolaridade, a violência doméstica e o risco mais elevado de extrema pobreza.

Alterações climáticas: que contributo irá dar, a título pessoal e através da sua empresa, para colmatar esses efeitos?
A Vodafone é uma empresa socialmente responsável que tem no seu escopo um conjunto de valores inegociáveis. Tem por isso um posicionamento extremamente responsável e proativo e um papel relevante na defesa do Ambiente. Na melhoria contínua desse escopo de valores procuramos envolver parceiros relevantes em projetos e ações em prol da qualidade de vida da comunidade. Assumimos de resto o compromisso de reduzir para metade o nosso impacto ambiental até 2025, desenvolvendo projetos como o da reciclagem e a reutilização de resíduos elétricos e eletrónicos e a aquisição de 100% de eletricidade produzida por fontes renováveis, já em prática desde abril de 2021. No âmbito desta cultura empresarial, na qual me empenho com o maior entusiasmo, eu própria participo no meu quotidiano, tanto quanto me é possível, na redução da chamada pegada carbónica. É um dever, aliás, de cidadania.

Qual é aquele livro/desporto/viagem/atividade que tem vindo a adiar e que quer mesmo ler/fazer no novo ano?
O ano de 2021 não foi fácil, certamente, para nenhum de nós. Ademais, para além das exigentes funções que desempenho, sou esposa e mãe. Dito de outro modo, sobra-me pouco tempo para atividades pessoais de lazer. Tem sido um tempo de resistência para todos. Nessa perspectiva, tenho em mente ler, muito proximamente, a obra The Resilient Society, de Markus Brunnermeier, professor da Princeton University, que despertou a minha curiosidade, não apenas por ter sido nomeado pelo Financial Times como um dos melhores livros de negócios deste ano, mas por usar como base a ideia de que a resiliência será uma das características mais importantes para sobreviver na sociedade pós-covid. É exatamente nisso que acredito, tanto a título pessoal como às funções de liderança que desempenho na Vodafone. Se houve algo que aprendemos este ano é que, sendo resilientes, conseguimos reagir às dificuldades e sair ainda mais fortes e conscientes enquanto pessoas e sociedades.

Se fosse um super-herói, qual seria?
Disse o filósofo Agostinho da Silva que "é muito pesado o fardo de ser herói". Sinto-me muito bem no meu papel de mulher. Verdadeiramente "super-heroínas" são todas as mulheres que sofrem ainda na pele desigualdades inaceitáveis.

Um luxo para si, em 2022, é?
Tempo e saúde. A covid-19 pôs de pernas para o ar todos os nossos paradigmas de vida. Oxalá a pandemia seja travada e nos permita o "luxo" humano de ter vida e saúde. O resto virá por acréscimo...

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