Yupido. Investigação à misteriosa empresa que "vale" 29 mil milhões foi arquivada

Ainda que não tenha apresentado ao público qualquer produto ou serviço, a empresa com o maior capital social do país sai isenta de todas as acusações.

Quase dois anos depois da abertura do inquérito ao caso Yupido, o Ministério Público decidiu arquivar o processo. A lenta investigação à empresa com o maior capital social do país - no valor inusitado de 29 mil milhões de euros - não levou à constituição de qualquer arguido. "O nosso capital social podia ser igual ao PIB português que isso não era crime" explicava à SIC, no início do ano, Torcato Jorge, um dos fundadores da empresa.

A Yupido captou a atenção da imprensa e das autoridades em setembro de 2017, depois de, no Twitter, o economista Carlos Pinto ter revelado que, durante um trabalho, tinha esbarrado acidentalmente no capital social da empresa. O valor de 29 mil milhões de euros ultrapassa a soma do capital social das doze maiores companhias do país e logo levantou dúvidas sobre a legalidade da atuação da Yupido, que não tinha à data - e continua sem ter - qualquer atividade pública ou produto lançado.

O montante é justificado por uma "plataforma digital inovadora de armazenamento, proteção, distribuição e divulgação de todo o tipo de conteúdo media", que se destaca "pelos algoritmos que a constituem", indicam os documentos oficiais da Yupido. Este bem intangível foi avaliado por António Alves da Silva, um revisor oficial de contas independente, com mais de 50 anos de experiência e reconhecido entre os seus pares.

A avaliação levantou dúvidas à Ordem dos ROCs e também à Comissão de Mercado de Valores Mobiliários que decidiram investigar a atuação de Alves da Silva. Dessa investigação, indica a SIC, resultou, em maio de 2018, uma suspensão por dois anos ao revisor, no âmbito de um procedimento administrativo de avaliação da idoneidade que chumbou as capacidades do auditor.

A Ordem dos ROCs não confirma nem desmente as conclusões do canal de Carnaxide, preferindo não comentar o caso. Contudo, o Dinheiro Vivo sabe que a investigação feita foi à metodologia usada por Alves da Silva na avaliação dos ativos e que mesmo um parecer negativo não obriga a Yupido a requerer nova avaliação. Ou seja, o capital social da empresa pode manter-se no seu valor atual.

O caso levantou dúvidas, em 2017, também ao revisor oficial da empresa. José Rito tinha aprovado as contas de 2015, mas não fez o mesmo às de 2016. "Não me considero satisfeito com as informações que me foram prestadas pelo revisor independente e muito menos pela administração, que não me deu nenhuma informação objetiva que justifique aquele valor", indicou, na altura ao Dinheiro Vivo, acrescentando ainda que, ao longo do tempo, foi detetando várias outras falhas. "Situações de falta de boa-fé ou de transparência. Vim a constatar que houve informações que me prestaram que não eram verdade".

O técnico acabaria mesmo por fazer uma denúncia da empresa ao Ministério Público. Contudo, a sua atuação acabou por também motivar uma ação disciplinar da Ordem dos ROCs e ainda um processo por difamação, movido pelos fundadores da Yupido.

Em 2017, Torcato Jorge assegurava, ao Jornal Económico, que primeiro grande serviço iria ser lançado "a nível mundial" em 2018, altura em que seriam contratadas "cerca de 206 pessoas". Ao mesmo tempo, estaria a ser preparado o registo de 42 patentes. A meio de 2019, a Yupido continua sem apresentar qualquer produto ou serviço. À SIC, o fundador garantiu que a tal plataforma inovadora irá ver a luz do dia. "É uma certeza. Nós vamos inevitavelmente pôr este negócio a funcionar."

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