O setor automóvel é maior do que tem sido considerado até agora, revela um estudo inédito, realizado pela consultora Deloitte para a Mobinov - Associação do Cluster Automóvel, e que será apresentado hoje em Leiria na conferência Indústria automóvel: Relevância e tendências de futuro, que contará com a presença do primeiro-ministro e do ministro da Economia..Afinal, os quatro fabricantes automóveis existentes em Portugal envolvem 900 empresas fornecedoras naquele que é dos setores mais valiosos para a economia portuguesa: no ano passado, a atividade dessas empresas valeu perto de 11 mil milhões de euros, o que equivale a 5,9% do produto interno bruto (PIB). Os construtores responsáveis pela exportação de 85% da produção, que equivale a 20% dos bens transacionáveis vendidos por Portugal, representaram apenas uma "pequena fatia" do negócio, no valor de dois mil milhões de euros. Há espaço para mais um fabricante, defende o cluster Mobinov.."O setor nunca tinha sido medido desta forma, considerando não só os fabricantes ou os fornecedores de primeira linha, mas também os produtores de têxteis, de moldes e ferramentas, os modificadores de veículos (como é o caso das ambulâncias), enfim, revelando um setor muito heterogéneo e transversal com um efeito multiplicador na economia portuguesa", explicou ao DN/Dinheiro Vivo José Couto, presidente da Mobinov..A metodologia utilizada até agora para o setor considerava apenas 51 mil trabalhadores em quatro fabricantes e 220 empresas e 240 fábricas fornecedoras, geradoras de 11% das exportações de bens em 2016 (5,2 mil milhões de euros). De acordo com o estudo da Mobinov, o setor agrega afinal 900 empresas, com 72 mil trabalhadores, responsáveis por 16% do valor acrescentado bruto (VAB) da indústria exportadora nacional. "Entre 2012 e 2016, o VAB do setor automóvel cresceu 6,5%, o que compara com a evolução de 0,7% do PIB no mesmo período", notou José Couto..Esta evolução significa que a indústria automóvel portuguesa se manteve competitiva, na perspetiva deste responsável. Mas é preciso mais: "Para sermos mais competitivos, o ideal seria atrairmos mais um construtor. Esse é o objetivo do cluster", revelou. "Temos o sistema científico que suporta a atividade, temos qualidade de recursos humanos, embora possamos já não ter a quantidade e os salários tenham aumentado. O setor tem uma remuneração média cerca de 30% acima da restante indústria transformadora", diz José Couto..Apesar de persistirem desvantagens competitivas, como o transporte ferroviário e a infraestrutura logística nos portos, bem como os custos energéticos, José Couto acredita que podemos "competir com outros concorrentes no Norte de África e na Europa investindo em tecnologia e na qualidade dos recursos humanos". Para conquistar o desejado construtor, é ainda preciso que "o Estado ofereça incentivos fiscais que diminuam as desvantagens de Portugal em comparação com países concorrentes"..A maior ameaça é, para José Couto, "nada fazermos, porque se nada fizermos, vamos perder a competitividade". Portugal já tem "uma taxa de produtividade abaixo do expectável para quem queira vir para a indústria automóvel, ainda que esteja muito acima da média do resto da indústria transformadora no país"..O investimento em formação profissional e o reforço da ligação entre universidades e empresas será ainda mais importante se o país quiser continuar a produzir após 2020. "Os veículos autónomos vão alterar a mobilidade e vão causar mudanças nos setores energético e financeiro, nos seguros, nos sistemas de comunicação e nas cidades. A nossa indústria está a preparar-se, mas não vai ter muito tempo porque, em 2020, já haverá uma alteração radical da oferta da indústria automóvel", alertou José Couto..O valor calculado neste estudo para o setor automóvel em Portugal coloca-o muito perto do valor do turismo (11,5 mil milhões de euros ou 7,1% do PIB, em 2016) e logo abaixo da metalomecânica (14 mil milhões de euros ou 7,5% do PIB em 2016). O famoso setor do calçado, apesar da relevância crescente, exportou 1,9 mil milhões euros em 2016 (1% do PIB).