Autoeuropa. Trabalhadores discutem nova greve nos plenários

Grupo de trabalhadores apresentou proposta para greve de dois dias entre final de janeiro e início de fevereiro contra imposição de horários

Voltou o cenário de greve na Autoeuropa. Um grupo de trabalhadores da fábrica de Palmela apresentou uma proposta de paralisação de dois dias entre o final de janeiro e o início de fevereiro nos plenários iniciados ontem de manhã, e que estavam previstos terminar às duas da manhã de hoje, já depois do fecho desta edição.

A moção em que esta proposta foi lançada terá sido chumbada no primeiro plenário, que foi realizado antes do turno da manhã, mas terá sido aprovada no segundo plenário, apurou o DN/Dinheiro Vivo junto de três fontes presentes nas reuniões entre operários. Os autores deste documento estão contra a imposição de um novo horário pela administração da empresa, a partir de 29 de janeiro.

Se este cenário se confirmar, a Autoeuropa poderá enfrentar a segunda paragem em menos de cinco meses. A primeira greve da história da empresa realizou-se a 30 de agosto (ver caixa) e foi decidida nos plenários realizados após o chumbo do primeiro pré-acordo entre a comissão de trabalhadores - liderada, na altura, por Fernando Sequeira - e a administração.

Nos plenários de ontem, a comissão de trabalhadores, liderada por Fernando Gonçalves, apresentou a proposta de aumento salarial de 6,5%, com um valor mínimo de 50 euros, para vigorar até setembro de 2018 e com efeitos retroativos a a partir de outubro deste ano.

Esta é a principal proposta do caderno reivindicativo para 2018 e que já foi entregue à administração da empresa, dirigida por Miguel Sanches. A comissão de trabalhadores também quer que todos os operários com contrato a termo há mais de um ano a 1 de janeiro passem imediatamente a efetivos, segundo o documento divulgado ontem pelas rádios Antena 1 e Renascença.

É exigido ainda que a empresa se comprometa a não realizar qualquer despedimento coletivo até 31 de dezembro de 2019. A comissão de trabalhadores não comentou os pormenores do documento, apesar dos contactos do DN/Dinheiro Vivo.

Os plenários na Autoeuropa realizaram-se dois dias depois da primeira reunião entre a comissão de trabalhadores e a administração para discutir o modelo de trabalho após agosto. Este foi o primeiro encontro depois do anúncio da imposição de horário, que dá mais dinheiro mas menos descanso aos operários.

A partir de 29 de janeiro, a fábrica de Palmela vai funcionar com 17 turnos semanais, de segunda a sábado. O sábado será pago como dia de trabalho extraordinário, apesar de a semana de trabalho ser de apenas cinco dias. Por outro lado, em cada dois meses garantem-se quatro fins de semana completos e mais um período de dois dias consecutivos de folga. O domingo é o único dia de descanso fixo.

As negociações entre a comissão de trabalhadores e a administração foram desbloqueadas após a intervenção do ministro do Trabalho, Vieira da Silva, que se comprometeu com a "criação e o reforço de equipamentos sociais de apoio à família", com "mais creches e creches com horário diferenciado". O anúncio foi feito na sexta-feira após uma reunião de três horas no ministério, que envolveu também o secretário de Estado do Emprego, Miguel Cabrita, e a secretária de Estado da Indústria, Ana Teresa Lehmann.

A Autoeuropa prepara-se para produzir 240 mil automóveis no próximo ano, por causa do veículo utilitário desportivo T-Roc. Este é o primeiro modelo produzido em larga escala em Palmela, e que pode colocar a fábrica "num patamar mais elevado e mais exigente na rede de empresas do grupo Volkswagen", como salientou o ministro Vieira da Silva após a reunião. A Autoeuropa é responsável por 1% do produto interno bruto e dá emprego, direta e indiretamente, a 8700 trabalhadores.

Ler mais

Premium

João Gobern

País com poetas

Há muito para elogiar nos que, sem perspectivas de lucro imediato, de retorno garantido, de negócio fácil, sabem aproveitar - e reciclar - o património acumulado noutras eras. Ora, numa fase em que a Poesia se reergue, muitas vezes por vias "alternativas", de esquecimentos e atropelos, merece inteiro destaque a iniciativa da editora Valentim de Carvalho, que decidiu regressar, em edições "revistas e aumentadas", ao seu magnífico espólio de gravações de poetas. Originalmente, na colecção publicada entre 1959 e 1975, o desafio era grande - cabia aos autores a responsabilidade de dizerem as suas próprias criações, acabando por personalizá-las ainda mais, injectando sangue próprio às palavras que já antes tinham posto ao nosso dispor.