Indústria do mobiliário vai precisar de cinco mil trabalhadores nos próximos cinco anos

Empresas pedem reconhecimento do estatuto de "mestre" para que, mesmo reformados, artesãos possam dar formação às novas gerações. Numa década, exportações do setor quase duplicaram para 1,9 mil milhões de euros.

Portugal quer ser a referência internacional no segmento da fileira casa, que engloba indústrias como os têxteis-lar, a iluminação, cerâmica, vidro ou cutelaria, e exporta 2,5 mil milhões de euros ao ano. Só o mobiliário e colchoaria é responsável por 1,9 mil milhões de euros, tendo "praticamente duplicado" as vendas ao exterior na última década. Para continuar a crescer, o setor vai precisar de três a cinco mil trabalhadores nos próximos cinco anos, e pede ao governo a criação do estatuto de mestre, de modo a permitir que os artesãos que se vão reformando possam ajudar os jovens a aprender a arte.

"Temos cerca de três mil pessoas em idade de reforma e que vão sair das empresas num curto espaço de tempo. Uma das nossas propostas aos sucessivos governos tem sido de ser criado um estatuto de mestre para as funções mais tradicionais, de artesãos, para que eles possam, mesmo estando reformados, continuar a dar algumas horas nas empresas a formar jovens que queiram aprender a arte. Porque a valorização dos nossos produtos está exatamente nessa capacidade de saber trabalhar os materiais, defende o diretor-executivo da APIMA - Associação Portuguesa das Indústrias de Mobiliário e Afins. Gualter Morgado garante que, sem esta medida, "o conhecimento destes artesãos vai-se perder, como já aconteceu noutros países - como a França, por exemplo - que querem recuperar a sua indústria e não o conseguem por falta de know how".

Em contrapartida, Portugal ficou a ganhar. A França é hoje o principal mercado de destino das exportações portuguesas de mobiliário, seguido de Espanha. A captação de jovens é uma das prioridades do setor, designadamente pela transformação que a própria indústria tem vindo a sofrer. "Começamos a necessitar de outro tipo de mão de obra, designadamente pessoas para trabalhar os meios digitais".

A Portugal Home Week está de volta ao Centro de Congressos da Alfândega do Porto a 21 e 22 de junho, para dar a conhecer o que de melhor a fileira casa portuguesa produz

Apesar do desenvolvimento crescente dos meios digitais, esta é uma indústria que depende do contacto direto com os clientes, pelo que as feiras internacionais continuam a ser vitais para a fileira casa. "Nós vendemos experiências sensoriais. Quem compra um sofá quer experimentar primeiro qual é o nível de conforto dele e, para isso, é preciso uma presença física. Ao contrário de outros setores, que metem os artigos numa mala e levam-nos para onde querem, no mobiliário eu tenho que quase criar a experiência de uma casa num stand numa feira internacional, para que o comprador possa chegar lá e experimentar os produtos, ver como são conjugados, quais são as tendências. E se estamos a falar de marcas portuguesas de valor acrescentado, elas já não vendem só o mobiliário, vendem também todo um conceito, a carpete, o candeeiro e os têxteis-lar".

E é para dar a conhecer toda esta fileira, que conta com cerca de sete mil empresas responsáveis por 60 mil postos de trabalho, que a APIMA organiza, a 21 e 22 de junho, no Centro de Congressos da Alfândega do Porto, a segunda edição da Portugal Home Week - a pandemia impediu a realzação do evento nos últimos dois anos -, na qual participarão 60 expositores, mais 20% do que na última edição, sendo esperados mais de mil visitantes profissionais, maioritariamente estrangeiros. A proximidade às unidades industriais permite, ainda, levar estes profissionais a conhecerem, in loco, onde se produzem os artigos expostos.

"Em dez anos, a indústria do mobiliário praticamente duplicou as exportações, para quase dois mil milhões. Beneficiamos do bom nome português criado, durante anos, pelos têxteis-lar e outras indústrias, como o calçado, e fomos trilhando o nosso caminho. Primeiro como subcontratados pelas grandes marcas internacionais e, mais recentemente, com o desenvolvimento de marcas portuguesas", explica este responsável, sublinhando que a "etiqueta" Made in Portugal é já valorizada como "fator de decisão" pelos clientes internacionais. "A marca Portugal, que muitas das vezes até retirava valor ao produto, já é um valor acrescentado. É reconhecida como sinónimo de qualidade", garante.

Sem capacidade para ser a maior no mundo, a fileira casa portuguesa quer, pelo menos, ser "a referência internacional" neste segmento. E, por isso, o Portugal Home Week conta, em simultâneo, com um fórum de discussão, o Home Summit, no qual dará palco a oradores internacionais de renome, que irão debater temas como a formação, a internacionalização, a sustentabilidade ou a ligação da fileira casa ao turismo.

Sobre as perspetivas para 2022, Gualter Morgado aponta o clima de incerteza gerado pela guerra da Ucrânia e os efeitos da inflação no poder de compra das famílias. "Com a pandemia houve muitos projetos de hotelaria que foram suspensos e que estão, agora, a ser retomados, o que é uma boa perspetiva. Mas, em compensação, o disparar do custo das matérias-primas está a condicionar muitos projetos de imobiliário. Até ao momento, as nossas exportações estão ligeiramente acima do ano passado, mas ninguém sabe como o que se vai passar nos próximos meses, o que torna muito difícil fazer quaisquer conjeturas. Podemos ter mais probabilidade de sermos os eleitos na decisão de compra dos consumidores, mas haverá menos gente a comprar e isso pode condicionar-nos", diz o diretor-executivo da APIMA, sublinhando que a meta do setor é sempre tentar crescer ao nível do valor acrescentado.

Ilídia Pinto é jornalista do Dinheiro Vivo

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