"Havia interferência política na parte técnica, por isso quis sair do Turismo de Portugal"

Almoço com João Cotrim de Figueiredo

Chegamos ao mesmo tempo ao Rabo d"Pêxe, com o sol a deixar pouca vontade de nos metermos entre quatro paredes mas a ameaçar assar-nos antes que o peixe açoriano chegue à brasa - por isso a opção pela mesa ao canto do pátio interior, fresco e bem temperado de luz natural, não demora mais do que alguns segundos. Para mim, é uma estreia, mas qualidade e conveniência - João Cotrim de Figueiredo divide-se entre "três poisos, um na Avenida da Liberdade, outro na Fontes Pereira de Melo e outro na Luís Bívar" - fizeram da casa um dos restaurantes onde é fácil encontrar o ex-presidente do Turismo de Portugal. O conceito promete - "isto era uma coisa tradicional e virou petiscaria oriental com produtos açorianos. Tem coisas ótimas sem serem estapafúrdias". Hei de confirmar que não há engano ou exagero nos elogios à cozinha ali criada pelo chef Paulo Morais.

Há seis meses que o tempo de Cotrim voltou a estar dividido entre a administração da Faber Ventures (cria e investe em startups de base tecnológica), a Jason Associates (focada no desenvolvimento e gestão de pessoas) e a Ulisses Foundation e é evidente que isso lhe fez falta. "Quando faço estes tirocínios de assalariado, sei que deixo as coisas bem entregues - tenho miudagem muito boa, gosto da maneira de pensar dos miúdos -, mas é bom voltar a pôr as mãos na massa."

Não é que lhe custem as transições, que não goste de mudar - sair da sua área de conforto é, aliás, um exercício a que constantemente se obriga e do qual visivelmente retira prazer. Mas as empresas são o seu mundo e ainda que já tenha passado por missões tão diferentes como a gestão da Compal e da TVI, ou desempenhado funções em organizações tão distantes como o Banco Privado Português e o Lisbon MBA, nunca tinha assumido um cargo público até chegar ao TP. E garante que se surpreendeu com o que encontrou. "O que achava que seria mau não era assim tão mau, e o que achava que seria bom era muito melhor. Sobretudo a qualidade das pessoas, que estavam muito massacradas com reduções salariais, congelamento de carreiras, e no entanto conseguiam fazer coisas fantásticas. É possível fazer coisas muito giras na função pública."

Interrompe para sugerir que partilhemos três ou quatro pratos: "Não pode perder a tempura de camarão e as vieiras coradas"; eu junto-lhes o peixe em folha de bananeira com curgete grelhada e a espetada. Concordamos no vinho branco, João escolhe o Diálogo, bem fresco. E retoma exatamente onde parou - tem essa capacidade de nunca perder o fio, mesmo quando há histórias que teimam em meter-se pelo meio das ideias. "Isto não tem nada que ver com política, simplesmente havia ali um conjunto de gente tecnicamente muito capaz." E o que governo e Turismo de Portugal fizeram não teve influência nos recordes sucessivos que o setor bate? "Podemos ter feito algumas coisas bem feitas, mas a melhor foi a capacidade de enquadrar sem sufocar o movimento. O Estado não tem nenhuma intervenção direta em atividades concorrenciais, exceto no turismo: através do TP promove o destino, tentando torná-lo mais atraente do que os outros. É o mais perto de um negócio que o Estado tem e isso significa que é responsável por criar o pano de fundo, a envolvência que dê às pessoas que querem entrar uma ideia do que se passa. O que achei mais interessante quando me desafiaram para esta função foi a possibilidade de exercer uma gestão em que todas as variáveis são privadas. Se tivesse este mandato numa empresa seria igualzinho."

Não é preciso usar ferramentas de análise de sentimento - uma evolução tecnológica que "vai transformar brutalmente a forma como a sociedade está organizada e como as pessoas se relacionam com empresas e produtos" - para perceber os temas que mais o entusiasmam. Um deles é precisamente o potencial da business intelligence, que já integrou na sua estratégia para o Turismo de Portugal. "As decisões que tomamos são cada vez mais emocionais. E para quem está no mundo dos negócios, a quantidade de informação que está disponível e que podemos organizar e selecionar (de acordo com os objetivos pretendidos) é essencial para perceber como podemos aproveitar esse processo de tomada de decisão, de forma a tornarmo-nos mais relevantes."

Também é bastante claro que ainda se entusiasma quando o tema é o turismo. "Continuo a falar com muita gente, tenho muitos amigos com quem gosto de discutir estas coisas. Mas nunca abriria um hotel". A resposta vem sem precisar de pergunta: "Porque individualmente não me fascina. Gosto muito é da estratégia, da política de turismo." Mas então porque saiu, apenas meses depois de entrar o novo governo?

Água e vinho depositados na mesa - distração zero. "Eu antecipei que pudesse passar-se algo como isto... apesar de as pessoas mostrarem muito apreço pelo trabalho que estava a ser feito e de sempre ter sentido apoio de todos os partidos. Mesmo antes das eleições disse que trabalharia sem preconceitos com qualquer governo, desde que soubesse separar o lado técnico e o político."

Diz que sempre deixou as orientações políticas a quem competiam - primeiro Adolfo Mesquita Nunes, depois Ana Mendes Godinho. "E nunca ouvi dizer que estava a pôr a foice em seara alheia." Mas saiu. "Saí, e isso tem uma leitura muito direta: não se separou o técnico do político." Houve interferência da secretária de Estado? "As instâncias políticas estavam a tomar decisões puramente técnicas. É legítimo que a tutela o faça, mas é uma forma de relacionamento que não é a minha. Se a secretária de Estado estava a tomar decisões técnicas, eu estava no TP a fazer o quê? Assim que os objetivos estão definidos, a forma de lá chegar é técnica. Percebi que havia interferência política na parte técnica, e ia continuar a haver, e quis sair."

Admite, contudo, que teve pena de não ter ficado mais um ou dois anos para consolidar o trabalho desenvolvido, incluindo conquistar um relacionamento mais estreito entre o TP e o investimento privado, mas garante que não guarda ressentimentos. "Não vou dizer que foi a última vez que desempenhei um cargo público, mas não gosto muito desta coisa de interromper projetos - e que essa decisão seja tomada à minha revelia."

Os peixes vão chegando e a competição pelo mais saboroso é impossível de decidir, mas o camarão enrolado em amêndoas laminadas já ganhou o prémio do mais surpreendente. Aos 55 anos, pai de dois rapazes e duas raparigas (entre os 14 e os 26 anos), com quem gosta de conversar, e benfiquista dos quatro costados - "em miúdo ficava eufórico quando ganhávamos e deprimido quando perdíamos; agora já tenho uma relação saudável com o futebol e sei desligar no fim do jogo" -, João não se incomoda minimamente com os malabarismos que tem de fazer para equilibrar todas as atividades em que se mete. "Tenho horários flexíveis, por isso consigo fazer tudo: estar com a família, trabalhar, fazer desporto..." As férias não implicam realmente parar de trabalhar - as manhãs são passadas no escritório -, mas apenas ter mais tempo para tudo o resto. "No mesmo dia, gosto de ir das 50 às 150 pulsações", que é como quem diz que até pode deitar-se ao sol desde que daí a uma hora esteja a fazer qualquer coisa que lhe provoque uma descarga de adrenalina. E quanto a planear viagens, as suas são necessariamente para fora do catálogo. Este ano, talvez vá ao Kilimanjaro - "não faço montanhismo, mas gosto da ideia de estar no sítio mais alto de África".

Sensações, experiência, aprendizagem potencial, reflexão. É assim que João toma decisões, esteja em causa o destino de férias ou uma mudança de carreira. Há uma grande dose emocional nestes processos mas a parte racional está lá - faz perguntas, nota-se que gosta de pensar as coisas, de entender as razões mesmo das reações mais espontâneas. Talvez por isso identifique razões diferentes das que ouvimos diariamente para o boom que o turismo português teve neste par de anos. "Portugal perdeu as grandes vagas de investimento das cadeias hoteleiras de peso. Mas isso acabou por nos dar vantagem: somos um destino turístico muito mais diversificado, somos especiais, conseguimos manter a escala humana que já não existe nas grandes zonas de Espanha, por exemplo. E neste ano acho que vamos chegar aos oito mil milhões de saldo da balança turística, isto são 5% do PIB! Sem esta evolução a nossa balança de pagamentos era negativa."

Já com os cafés em cima da mesa, explica que, com a ajuda das plataformas digitais e da equipa que não se cansa de elogiar, foi possível entender como podíamos fazer da nossa história uma coisa que fazia sentido, algo consistente e atraente, e mostrá-la junto de quem procurava destinos de férias. "Isto fez a procura crescer brutalmente e com muita gente a repetir o destino Portugal duas e três vezes. O que permitiu investir com muito mais segurança - é isto que compete ao Estado."

Não esquece o papel dos agentes económicos, a quem aliás dá destaque nesta equação. Mas admite que se fez o que era preciso para dar o impulso que faltava a muita gente para mudar de vida e arriscar nesta área. "Ao tornarmos mais fácil e rápido o acesso a determinadas atividades turísticas num momento de crise, tivemos uma entrada de muitos milhares de pessoas sem relação para o setor, para prestar uma oferta de qualidade, adaptada ao cliente, fugindo à armadilha típica do fazer sem saber bem para quem. Eram projetos originais, que não copiavam o que viam noutros sítios, mas respeitavam a identidade local, contribuindo para a autenticidade de que nos gabamos. Não se trata de uma visão ideológica do mundo, é uma visão sociológica, quando muito: os portugueses têm ambição, querem fazer melhor e se tiverem oportunidade vão avançar".

Mas não é preciso evitar que todos avancem no mesmo sentido, ao mesmo tempo? Cotrim de Figueiredo não é adepto de proibições preventivas. "Quem está na política tem de gerir o entorno e dar oportunidades para que se construa - e isso não se faz só com as linhas de crédito do IAPMEI, faz-se dando às pessoas força para avançarem, não desconfiando da iniciativa privada e não limitando antes de acontecer. Mal comparado, é como educar um miúdo: deixem-no esfolar o joelho e lá estaremos com o betadine."

Hora e meia depois de nos encontrarmos, a conversa continua fácil e um segundo café dá-nos a desculpa perfeita para voltar ao setor que, apesar de profissionalmente desligado, continua a envolvê-lo tão profundamente. João aponta dois assuntos que o preocupam: o ritmo de crescimento relativo do turismo e o brexit. "Quando eu saí do TP, estávamos a crescer duas a três vezes o que crescia Espanha, fomos capazes de capturar o triplo do crescimento deles - todas as semanas eu olhava para os números, comparava região a região. Nestes últimos meses, só estamos a crescer 20% ou 30% acima, o que significa que Espanha está a aproveitar melhor as inseguranças recentes. É preciso ver o que se está a passar, que trabalho temos de fazer para o contrariar."

Os riscos do brexit também lhe fazem soar campainhas. Diz que há um lado emocional e um económico na influência que a vitória do sim pode ter e aponta o caminho que vê como necessário para ganhar esta oportunidade. "Os britânicos que viajam para Portugal têm uma idade média que é a daqueles que votaram para ficar. Essas pessoas ficaram sem representação". O que Cotrim propõe é que se crie uma campanha que apele aos britânicos emocionalmente, que recorde a ligação história do seu país com Portugal e mostre que continuamos a contar com eles, também em termos turísticos. E isto é tanto mais necessário num contexto em que a libra perdeu valor face ao euro e países que têm uma relação diferente com a moeda britânica, como alguns do Leste, podem sobrepor-se a nós enquanto destino - com a vantagem acrescida da novidade. "Espero que tudo isto esteja realmente a ser visto."

A tarde faz-se longa e no Rabo d"Pêxe já quase não há mesas ocupadas. Não fosse isso, podíamos desenvolver muito mais temas. Terá de ficar para outro dia.

Rabo D"Pêxe

› Vieiras coradas com picadinho de morango e beterraba

› Tempura d"camarão com amêndoa

› Espetada d"espadarte

› Pexe em folha de bananeira

› Vinho branco Diálogo

› Água

› 4 cafés

Total: 62,50 euros

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