Fruta e frescos 11% mais caros. Seis meses de guerra esvaziam o bolso dos portugueses

Transportes aéreos, férias organizadas, viagens de barco, gasolina, pão, fruta, carne e peixe estão mais caros desde janeiro. Para compensar, os serviços médicos, computadores e telemóveis estão mais em conta. A economia nacional começa a revelar sinais de fraqueza, seis meses após a invasão da Ucrânia pela Rússia, no dia 24 de fevereiro.

O Dinheiro Vivo foi investigar como mudaram os preços de mais de uma centena de rubricas (bens e serviços) do cabaz de referência usado pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) para calcular a inflação no consumidor final. Entre janeiro e julho, o leque de diferenças é amplo. Em Portugal, a inflação total deste período ronda os 7%. Tirando os alimentos e a energia, está tudo 5% mais caro. Mas nos alimentos não-transformados, o poder de compra ressente-se bastante: a inflação supera os 11% nestes sete meses. Nos produtos energéticos, é mais do dobro, atingindo 24%.

A guerra na Ucrânia veio somar-se a uma situação de constrangimento no abastecimento de matérias-primas que se agravou durante todo o ano de 2021, fazendo subir o custo de alimentos, semicondutores e componentes eletrónicos e petróleo.

Esta guerra e as sanções impostas à Rússia (e da Rússia em retaliação), um dos maiores fornecedores de gás e petróleo da Europa, conduziu a um novo choque energético, com o custo dessas matérias-primas a bater novos máximos e a lançar uma crise de poder de compra na Europa, sobretudo junto das populações mais pobres e desfavorecidas. Muitas empresas também ficaram entre a espada e a parede devido ao aumento súbito e violento do custo da energia.

Os governos europeus viram-se obrigados a amparar famílias e empresas com pacotes de medidas de âmbito fiscal e subsídios diretos, entre outras [ver exemplos na caixa ao lado].

Mas tendo em conta a gravidade da situação, a subida imparável da inflação e a duração do conflito, mais planos terão de ser implementados, nomeadamente de poupança de energia. O plano português será conhecido no final deste mês.

Entre janeiro e julho, o leque de diferenças entre preços é amplo. Em Portugal, a inflação total destes primeiros sete meses do ano ronda os 7%. Tirando os alimentos e a energia, está tudo 5% mais caro.

O que ficou mais caro

Em Portugal, o líder na inflação são os transportes aéreos, que subiram mais de 81% entre janeiro e julho. Os serviços de alojamento turísticos também consomem energia, mas terá sido a procura elevadíssima que ajudou a fazer disparar os preços praticados. Segundo os cálculos do Dinheiro Vivo, a partir dos dados do INE, a subida supera os 61% no período em análise (de início do ano até julho).
Os transportes de passageiros por barcos ou navios (marítimos ou fluviais) acompanharam ao mesmo ritmo (61% mais caros agora).

Como seria de esperar, um dos itens mais importantes do cabaz de consumo dos portugueses (os combustíveis para veículos de transporte) aumentaram 20%. O agravamento seria muito superior não fossem as medidas de amortecimento avançadas pelo governo logo em março e abril, como a redução temporária do ISP da gasolina e do gasóleo.

No turismo, também as férias organizadas (que incorporam os custos de transporte e alojamento) estão muito mais caras. Registam a quarta inflação mais alta medida entre janeiro e julho, um salto de 36%.
A conta da eletricidade e do gás também disparou, com aumentos de 29% e 23%, respetivamente.

A Ucrânia era um dos mais importantes fornecedores de cereais e sementes oleaginosas. A interrupção das suas exportações para a Europa fez disparar o preço de "óleos e gorduras" alimentares: estão 30% mais caros, atualmente.
O custo do pão foi arrastado por este ambiente inflacionista. Regista outra das maiores subidas: quase 12% mais caro em apenas sete meses.

No top dos bens que mais encareceram aparecem outros básicos da alimentação. A carne está 15% mais cara agora do que em janeiro. A fruta custa mais 12%. O trio "leite, queijo e ovos" viu o seu preço subir 11%. O peixe regista uma inflação de quase 9%.

O que está mais barato

Não sendo a maioria, alguns produtos estão mais baratos em julho face a janeiro. Os serviços médicos lideram, com uma descida de preço médio de 15%. Os serviços hospitalares vêm logo a seguir com uma quebra de 10% no preço final.
Comprar um computador está 3,5% mais barato. Os telefones, telemóveis e as máquinas fotográficas registam uma inflação negativa de quase 2%.
Os jogos de azar e as apostas também podem estar mais convidativos: estão quase 3% mais baratos.

As rubricas "ensino superior", "transportes combinados de passageiros", "abastecimento de água" e "seguros relacionados com a habitação" estão praticamente na mesma. Não se ressentiram ainda da inflação elevada.

Economia dá sinais de fraqueza

Depois de um primeiro trimestre fulgurante, muito alimentado pelo turismo e os serviços, a economia portuguesa começou a dar alguns sinais de fadiga no segundo trimestre, tendo inclusive retrocedido ligeiramente face ao início do ano.
De acordo com outro levantamento do Dinheiro Vivo, há sinais claros de que o estado de graça da retoma terá terminado nalgumas partes da economia.

O indicador de atividade económica do INE está em declínio, a carteira de encomendas externas dirigidas à indústria portuguesa não sai do vermelho, a criação de emprego está a abrandar de forma notória e o número de novos desempregados inscritos nos centros do IEFP está a crescer desde abril depois de meses de recuo.
Em sentido contrário, o indicador de investimento continua a subir, as dormidas em hotéis e similares crescem a taxas de três dígitos e a atividade da construção e dos serviços mantém um andamento sólido até junho.

O indicador de atividade do INE está em declínio, a carteira de encomendas externas dirigidas à indústria portuguesa não sai do vermelho e a criação de emprego está a abrandar de forma notória.

Medidas do governo

Tal como os seus pares europeus, o governo liderado por António Costa avançou com medidas de forma a minimizar o embate súbito da inflação nas famílias e empresas. Em abril, foi anunciado um pacote de "18 medidas". "Para conter os preços da energia, o governo aprovou a redução do Imposto sobre Produtos Petrolíferos equivalente à redução do Imposto sobre o Valor Acrescentado para a taxa de 13%, o que representa menos 0,215 cêntimos por litro de gasóleo e menos 0,207 cêntimos por litro de gasolina."

Foram ainda introduzidos mecanismos em articulação com Espanha "para limitar o impacto da subida de preço do gás no custo da eletricidade, prevendo uma redução de 690 milhões de euros nos custos da energia, através da limitação dos lucros inesperados das empresas de eletricidade".

O aumento da taxa de carbono ficou suspenso "até junho - representando menos 5 cêntimos por litro - e a sua reavaliação trimestral até final do ano".
Outras medidas de mitigação anunciadas foram "a criação do gás profissional para abastecimento do transporte de mercadorias; a flexibilização de pagamentos fiscais e diferimento das contribuições para a Segurança Social dos setores mais vulneráveis; a subvenção para apoiar o aumento dos custos com gás das empresas intensivas em energia; e o desconto de 30 cêntimos por litro nos combustíveis para o setor social.

Para a agricultura e as pescas, o governo avançou com a "isenção temporária do IVA nos fertilizantes e nas rações e redução temporária do ISP sobre o gasóleo agrícola até ao final do ano".

Para as famílias mais pobres, o Executivo anunciou o alargamento de "medidas de apoio ao preço do cabaz alimentar (60 euros) a todas as famílias titulares de prestações sociais mínimas, o mesmo acontecendo com o apoio de dez euros à compra de botijas de gás".

Mais recentemente, no âmbito das medidas contra a nova crise, o primeiro-ministro recuperou e aumentou a promessa mais antiga relativa às creches gratuitas. Diz que entra em vigor "no dia 1 de setembro". "É um processo gradual, que este ano aplica-se universalmente a todas as crianças nascidas desde 1 de setembro de 2021. No próximo ano alargar-se-á às crianças que frequentam o 1.º e 2.º anos e finalmente, em 2023/2024, a todas as crianças que frequentam as creches", referiu António Costa.

Medidas tomadas por Espanha, Alemanha e França

ESPANHA

. Novo plano para responder ao impacto da guerra na economia e nos preços pode ir até nove mil milhões de euros, até ao final do ano.
. Descida do IVA da eletricidade para 5%.
. Apoio extra de 200 euros para desempregados e trabalhadores com rendimentos mais baixos.
. Aumento de 15% das pensões de reforma e invalidez não-contributivas, as mais baixas.
. Desconto de 50% nos passes dos transportes públicos tutelados pelo Estado central e de 30% nos transportes tutelados pelos governos regionais.

Este novo pacote que entrou em vigor agora em julho vem somar ao plano de 6 mil milhões de euros de resposta inicial contra a crise energética.

Antes já vigoravam descontos diretos no custo dos combustíveis, aumento de 15% no rendimento mínimo, limites aos aumentos das rendas de casa e supressão ou redução temporária de certas componentes da tributação sobre a eletricidade.

ALEMANHA

. Novo pacote de dez mil milhões de euros em alívios fiscais com impacto na coleta de 2023.
. Aumento da base de rendimentos isentos de impostos. Rendimentos anuais livres de tributação até 10 347 euros em 2022, valor isento sobe para 10 632 euros em 2023 e para 10 932 euros em 2024.
. Taxa de imposto de 42% sobre os rendimentos mais altos com menor alcance, ou seja, mais ricos também terão alívio fiscal. Taxa máxima aplica-se a rendimentos acima de 58 597 euros em 2022, acima de 61 972 euros em 2023 e de 63 515 em 2024.
. Mais benefícios para quem tem filhos pequenos.

Antes deste pacote, Berlim já tinha avançado com um plano de 30 mil milhões de euros contra a inflação.

Corte no ISP, passe nacional/federal de apenas 9 euros por mês entre junho e agosto para usar nos transportes públicos em toda a Alemanha.

FRANÇA

. Novo pacote de medidas no valor de 20 mil milhões de euros.
. Subsídio aos combustíveis para quem usa o carro para trabalhar. Apoio de 12 cêntimos por litro em outubro e 6 cêntimos em novembro. Em dezembro, o apoio desaparece.
. Subsídio de 100 euros para os estudantes.
. Aumento de 3,5% dos funcionários públicos.
. Aumentos da conta da eletricidade limitados a 4% em 2022.
. Refeições a 1 euro nas cantinas escolares públicas para os estudantes bolseiros, mais pobres.
. Nacionalização da EDF (a companhia nacional de eletricidade), cujo custo rondará os 12,7 mil milhões de euros. Objetivo é alcançar a soberania energética, diz o governo.

Antes deste pacote, França já tinha avançado com um plano de apoio avaliado em 25 mil milhões de euros.

Cheque alimentar de 100 euros para os mais pobres, com majoração de 50 euros por criança.

Antecipação da atualização das pensões e dos apoios sociais de 4%.

Luís Reis Ribeiro é jornalista do Dinheiro Vivo

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