Dois terços dos gestores colocam recessão prolongada no topo das preocupações

O cenário de uma recessão global prolongada figura no topo das principais preocupações dos gestores de empresas, revela um relatório do Fórum Económico Mundial. A possibilidade de falência ou a falha na recuperação das indústrias também está entre as preocupações.

No relatório "Covid-19 Risks Outlook", elaborado pelo Fórum Económico Mundial, em parceria com a Marsh & McLennan e o grupo Zurich, foi pedido a 350 gestores de risco que estabelecessem quais as dificuldades que o panorama global e as empresas vão enfrentar nos próximos 18 meses. Entre fatores económicos e sociais, é o cenário de recessão global prolongada que mais preocupa os inquiridos, tanto numa perspetiva geral (68,6%), como em relação às suas áreas de negócio. Dois terços dos gestores colocam a recessão prolongada no topo das dificuldades que as suas empresas enfrentarão (66,3%) ao longo dos próximos meses.

A lista de preocupações continua com fatores como o aumento das falências (tanto de grandes empresas como de PME), apontado por 52,7% dos inquiridos, ou ainda a falha na recuperação da indústria (50,1%).

Com a internet a figurar como uma forma de muitas empresas continuarem a trabalhar durante a pandemia, surgiram também as fragilidades associadas à segurança informática. Assim, 50% dos inquiridos revelam que os ataques informáticos ou fraude de dados devido às alterações que a pandemia trouxe à rotina de trabalho são uma preocupação para a empresa. Os inquiridos também temem a disrupção das cadeias globais de abastecimento.

Outros fatores, como restrições mais apertadas a movimentos fronteiriços, tanto de pessoas como de mercadorias, representam uma preocupação transversal aos gestores inquiridos, assim como a possibilidade de um novo surto de covid-19 ou de outra doença infecciosa, que preocupa mais de um terço dos entrevistados (35,4%).

"Esta crise devastou vidas e meios de subsistência. Despoletou uma crise económica com profundas implicações, trazendo as insuficiências do passado à superfície. Tal como na gestão do efeito imediato da pandemia, agora os líderes têm de trabalhar em conjunto e com todos os setores da sociedade para enfrentar os riscos emergentes já conhecidos e construir resiliência contra o desconhecido. Temos uma oportunidade única para aprender com esta crise e começar a fazer as coisas de forma diferente e reconstruindo melhores economias que sejam mais sustentáveis, resilientes e inclusivas", refere Saadia Zahidi, managing director do Fórum Económico Mundial.

Já Peter Giger, group chief risk officer do Zurich Insurance Group fala ainda noutros fatores de preocupação, que vão além dos fatores económicos. "Uma vez que o elevado nível de desemprego afeta a confiança no consumo, desigualdade e bem-estar e desafia a eficácia dos sistemas de proteção social, a pandemia vai trazer efeitos a longo-prazo. Com pressões significativas no emprego e na educação - mais de 1,6 mil milhões de estudantes faltaram às aulas durante a pandemia - enfrentamos o risco de mais uma geração perdida. As decisões tomadas agora virão determinar o rumo destes riscos ou oportunidades", explica.

Para o presidente da Marsh, John Doyle, o cenário de riscos que as empresas enfrentam cresceu devido à pandemia, mas haverá mais trabalho a fazer daqui para a frente. "Ainda antes da crise da covid-19, as empresas foram confrontadas com um cenário de riscos globais altamente complexo e interconectado. Das ameaças cibernéticas às cadeias de fornecimento e ao bem-estar dos colaboradores, as empresas vão agora repensar as diversas estruturas das quais dependiam anteriormente. Para criar as condições para uma recuperação mais célere e um futuro mais resiliente, os governos e o setor privado precisam de trabalhar em conjunto e de forma mais eficaz. A par de grandes investimentos para melhorar os sistemas de saúde, infraestruturas e tecnologia, uma das conclusões que podemos retirar desta crise é que as sociedades têm de se tornar mais resilientes e capazes de resistir a uma nova pandemia no futuro e a outros grandes choques".

O relatório apresenta fatores de risco económico, social, tecnológico, geopolítico e ambiental. Como seria de esperar, os fatores económicos e sociais têm maior peso nas preocupações, enquanto a categoria ambiental contempla apenas duas preocupações - um risco de falha do investimento na área climática e ambiental (11,5%) e a erosão acentuada dos efeitos de descarbonização global (6,9%).

Os inquiridos trabalham em diversos setores de atividade, com maior peso na amostra das empresas da área dos seguros e gestão de ativos, banca e mercados e retalho.

Cátia Rocha é jornalista do Dinheiro Vivo

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