Dois anos de pandemia. Fruta, combustíveis, obras em casa, banca e seguros estão bem mais caros

Inflação média de 2021 foi apenas 1,3%, mas esconde grande dispersão de casos. Alimentos e energia dispararam, mas telemóveis e computadores estão mais baratos.

Produtos alimentares básicos, como frutas, bens hortícolas e óleos alimentares, mas também os combustíveis líquidos e o gás, a par de serviços bancários e seguros de saúde são alguns dos itens do cabaz de consumo que maior rombo provocaram no poder de compra dos consumidores em Portugal desde o final de 2019, estava o País à beira da pandemia covid-19.

Os cálculos são do DN/Dinheiro Vivo com base em dados novos, ontem publicados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE).

O aumento exponencial do custo das matérias-primas (petróleo, gás, componentes industriais e de alta tecnologia, fertilizantes agrícolas, papel, etc.) que se começou a sentir, sobretudo, no segundo semestre do ano passado aliado à sobrelotação no transporte de mercadorias (que interrompeu cadeias de fornecimento regulares entre a Ásia e a Europa, por exemplo), acabou por ser a machadada final.

Muitos preços não aumentaram logo quando a pandemia começou, no início de 2020, mas com o tempo e as restrições à mobilidade e à produção, viriam a disparar. É nesse ponto que estamos hoje.

Em Portugal, os jornais aumentaram 12% entre dezembro de 2019 e igual mês deste ano, sendo inclusive o item do cabaz, que serve para apurar o Índice de Preços no Consumidor (IPC), que mais aumentou neste período.

A inflação geral, total, foi de apenas 2,5%, indicou o INE.

Com a informação ontem libertada é possível fazer um ranking dos maiores aumentos (ver infografia mais abaixo).

O segundo lugar vai para um item do segmento alimentar. O custo final dos óleos alimentares, alguns importados, está agora mais de 11% acima do nível anterior à pandemia.

A fruta ocupa o terceiro lugar. Custa hoje mais 11% do que antes da pandemia (em dezembro de 2019).

Os combustíveis líquidos (como gasóleo e gasolina) estão 10% mais caros; fazer obras em casa ("serviços de reparação de habitações") custa mais 10%, também; o gás acompanha, com mais 6% face ao final de 2019.

Mas há outros que também estão acima da média nacional. O INE mostra que os serviços bancários e financeiros estão mais caros em 6,6%, entrando assim no top 10 dos itens que mais viram o preço agravado.

Aqui não é tanto a crise das matérias-primas que explica, mas antes o ambiente regulatório que incentiva e permite que os bancos aumentem comissões de forma persistente, por exemplo.

O aumento da procura também pode ajudar a explicar outros fenómenos. No top 10 dos aumentos, aparecem as bicicletas, que foram muito procuradas quando foram levantadas restrições que reduziram o tempo de trabalho, a faturação de muitos negócios de proximidade social e a mobilidade por via dos transportes tradicionais, por causa do advento do teletrabalho.

Neste contexto de maior receio por causa da pandemia e de maior sensibilidade em relação às doenças e dúvidas sobre a resposta do sistema público (que entrou claramente em rutura no início de 2021), o preço médio dos seguros de saúde avançou 5,6%.

Há ainda outros itens que, pela sua importância, são dignos de nota. O preço do pão subiu 3,4%, o peixe e a carne quase 5%. O trio "leite, queijo e ovos" destoa, com um aumento de apenas 1%, mostra o instituto.

As rendas de casa agravaram-se quase 4%.

O ranking das maiores quedas

A inflação não é ou ainda não é um problema grave e abrangente para o poder de compra em Portugal porque os salários médios líquidos têm vindo a subir neste período em análise, ajudados pela atualização anual do salário mínimo, claro.

As pensões têm subido menos, em todo o caso, pelo que pensionistas mais pobres, mesmo com a atualização extra, podem estar já a sentir o agravamento de preços dos alimentos e das contas da luz e do gás. A maioria das pensões atribuídas em Portugal é, efetivamente, muito baixa.

A atenuar esta pressão, também se assistiu a uma forte desvalorização no preço de muitos itens do cabaz de consumo.

A liderar estão os computadores, que atualmente custam, em média, menos 10% do que há dois anos. Em segundo lugar, estão os telemóveis: o desconto já vai nos 9%. O preço de equipamentos de desporto, campismo e lazer ao ar livre, e o custo dos pequenos eletrodomésticos, a mesma coisa.

Os serviços de transportes custam agora menos 7%, o ensino superior está 5,6% mais barato, o preço do calçado está 5% mais baixo.

O vinho e a cerveja também estão mais em conta. Segundo os nossos cálculos, estão cerca de 1% mais baratos.

O despertar da inflação?

A inflação registou uma forte aceleração no segundo semestre do ano passado, mas antes disso a tendência até foi de grande enfraquecimento, com os preços a serem fortemente manietados pela pandemia e o confinamento das pessoas e da procura em geral.

A evolução homóloga dos preços do consumidor (variação do IPC entre períodos iguais de dois anos consecutivos) chegou a ser negativa entre junho e setembro de 2019, recuperou um pouco, mas nunca passando de 1%. Com a pandemia e a forte quebra na procura interna e externa, os preços viriam a quebrar fortemente durante 2020.

Em 2021, com a reanimação da economia e o surgimento dos referidos estrangulamentos rotas comerciais e na disponibilidade de matérias-primas (num quadro de abertura desfasada das economias e de desequilíbrio na vacinação, com o ocidente a abrir primeiro e os países menos ricos a ficarem para trás), a inflação surgiu, finalmente.

O BCE considera que o fenómeno não deve preocupar, tem defendido que deve ser algo passageiro.

Olhando para a evolução média dos últimos 12 meses, parece que, em Portugal, a inflação ainda está contida, de facto.

O INE refere que "em 2021, o Índice de Preços no Consumidor (IPC) registou uma variação média anual de 1,3%, sucedendo a uma variação nula registada no conjunto do ano de 2020" e que "excluindo do IPC a energia e os bens alimentares não transformados [onde estão muitas matérias primas], a taxa de variação média situou-se em 0,8%", tendo sido "nula no ano anterior".

Mas mais recentemente, os preços estão a subir, de facto. "A taxa de variação homóloga do IPC total evidenciou um forte movimento ascendente ao longo de 2021, em particular na segunda metade do ano em que as variações observadas foram sempre superiores ao valor da média anual", observa o INE.

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