Como a viagem de Paddy mudou Lisboa e Dublin

Em 2009, três jovens irlandeses iniciaram um ciclo de conferências que abriu a porta ao nascimento da maior cimeira tecnológica do mundo. Arrancou em Dublin, mas foi em Lisboa que ganhou asas.

Adrian Weckler lembra-se bem de quando o multimilionário Elon Musk aceitou ser orador da Web Summit (WS). O evento ainda estava em Dublin e longe de mobilizar as 70 mil pessoas de hoje. "Musk disse que aceitara ir a Dublin porque esperava uma grande festa com pessoas como o Bono dos U2", conta o editor de tecnologia do Irish & Sunday Independent ao Dinheiro Vivo. A "atmosfera da cidade" era a grande vantagem da capital, cujas infraestruturas e transportes de pouca capacidade, além do wi-fi, acabariam por ser fundamentais na mudança do evento para Lisboa.

A Irlanda foi casa da Web Summit entre 2009 e 2015. Mas a organização liderada por Paddy Cosgrave só começa a contar em 2010. "Na altura fiz duas coisas, a Lectures Ireland e a Dublin Web Summit Series, uma série de talks que arrancou em fevereiro 2010 e outra em junho", conta o fundador e CEO. "A primeira Web Summit a sério, que recebeu os fundadores do Youtube e do Skype, foi em outubro de 2010", recorda.

"Dublin era um local interessante em 2009, quando se sentia ainda o impacto da recessão", conta Jess Kelly, jornalista da rádio Newstalk. O PIB irlandês, longe dos dias de Tigre Celta, terminaria o ano a contrair 5,1%. Em 2010, a economia cresceu 1,8%, mas o défice era de 32% - Bruxelas não permite mais de 3%. No final desse ano, veio a troika e o resgate financeiro que prometia salvar a banca da bolha imobiliária.

"A WS começou na altura certa, quando o ecossistema começou a crescer e fazia todo o sentido que Paddy e cia. criassem um evento", diz a jornalista. No piloto, em 2009, não houve mais de 120 participantes "e quase todos se conheciam", porque estavam interessados ou envolvidos no mundo tecnológico, lembra Paddy. Mas rapidamente o evento passou as fronteiras da Irlanda e começou a atrair mais tecnológicas. "Mais de 40 vieram à Irlanda e só depois abriram escritórios", conta o empreendedor.

O país "já estava no mapa porque oferecia algo bem diferente do que Portugal dá - os incentivos fiscais", que começaram por ser atribuídos à Apple. "A maioria das empresas está em Dublin por questões de impostos, têm ali a área de vendas e o apoio ao cliente. É muito diferente de criar software", como está a acontecer em Portugal, reforça Cosgrave. Quando o governo de Passos piscou o olho à cimeira, em 2015, Lisboa já tinha seguido a "saída limpa irlandesa". Nesse ano, o PIB cresceu 1,8% (depois de 0,8% em 2014), porém o défice ainda era de 4,4% e a dívida batia recordes: 132,9% do PIB.

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