Comboio no Montijo custaria cem milhões e teria "utilidade limitada"

Metro e comboio podem voltar a ser considerados no âmbito da construção da terceira ponte sobre o Tejo.

Custo elevado para uma utilização limitada. É esta a razão que retirou o comboio dos planos de acessibilidades para o aeroporto complementar do Montijo. A opção foi estudada pela Infraestruturas de Portugal (IP), mas o resultado indicou que esta não seria uma "infraestrutura prioritária" no suporte aos passageiros que vão utilizar o novo aeroporto, disse ao Dinheiro Vivo, o Ministério das Infraestruturas. "No caso concreto, essas análises apontavam para um investimento de cem milhões de euros, investimento com utilidade limitada, pelo menos, nos primeiros anos de funcionamento do aeroporto."

As previsões de tráfego, adianta a equipa de Pedro Nuno Santos, apontam para que mais de 80% da procura do aeroporto do Montijo tenha origem ou destino a norte do Tejo. "Qualquer uma das soluções de transporte coletivo que estão a ser consideradas, seja fluvial ou autocarro, apresentam melhor desempenho." À procura de passageiros com origem na Margem Sul, o governo responde com o Programa Nacional de Investimentos que tem previstos 200 milhões de euros para a ligação rodoviária entre os concelhos do Arco Ribeirinho Sul, incluindo duas pontes entre o Barreiro, Seixal e Montijo, e que, justifica, "criará condições para o desenvolvimento de soluções de transporte coletivo mais adequadas às necessidades das populações".

Embora o comboio fique de fora dos planos considerados preferenciais para a entrada e saída de passageiros no novo aeroporto - que tudo indica entrará em operações em 2022 -, a equipa de Pedro Nuno Santos deixa uma janela aberta para o futuro. "Naturalmente que nenhuma hipótese foi descartada definitivamente, sendo matéria a avaliar continuamente em função da evolução real da procura no aeroporto do Montijo."

Os estudos que suportam a solução Portela+Montijo apontam para um aumento da capacidade aeroportuária de Lisboa para 72 movimentos por hora, 48 na Portela e 24 no Montijo. O prazo de validade do Montijo está apontado para 2050, mas o aumento do tráfego aéreo mundial tem baralhado as contas aos profissionais. Nem é preciso ir longe: o aeroporto de Lisboa fechou no ano passado com 29 milhões de passageiros, ou seja, dez milhões acima das previsões, e apenas a um milhão do limite máximo de capacidade daquela infraestrutura. O limite da capacidade foi atingido em apenas três anos quando as previsões apontavam para nove. Um estudo divulgado no ano passado, e que inclui o antigo bastonário da Ordem dos Engenheiros Carlos Matias Ramos, diz mesmo que a saturação no Montijo pode chegar em 2035.

Para já, e tendo por base o que se conhece, o governo realça que a criação de um shuttle que ligue o Montijo à estação ferroviária de Pinhal Novo "responde bem". Mas aponta para o futuro novas soluções. "A longo prazo, as hipóteses do metropolitano e da ferrovia através da Terceira Travessia do Tejo não devem ser afastadas", destaca o executivo.

A ANA - Aeroportos de Portugal vai investir 1,15 milhões de euros na expansão da capacidade aeroportuária - 650 milhões para melhorar a Portela e 550 milhões para converter a base militar do Montijo num aeroporto internacional. "No âmbito do acordo celebrado em janeiro deste ano, a ANA assumiu responsabilidade pelo financiamento, até um montante de 156 milhões de euros, de investimentos complementares relacionados com o ajustamento do dispositivo militar e acessibilidade", recorda o governo, destacando que "nesse investimento estão abrangidas intervenções nas redes viárias envolventes ao Montijo."

De fora dos planos de investimento da gestora aeroportuária fica, contudo, a ligação rodoviária à A12 que, destaca o gabinete das Infraestruturas, terá um "modelo de financiamento autónomo, já que deverá beneficiar do aumento de receita que irá induzir na Ponte Vasco da Gama".

Em todo o caso, o governo remete todas as "decisões subsequentes", tal como o "modelo de execução" destes acessos, para depois de conhecido o relatório de Avaliação de Impacto Ambiental (AIA), um documento que, segundo a Agência Portuguesa do Ambiente (APA), não será divulgado antes do final de outubro, isto é, já depois das eleições de dia 6.

Os passos, porém, já estão bem definidos: "Após a conclusão do procedimento de AIA, desencadeou-se um conjunto vasto e articulado de atividades, nos planos técnico, jurídico e financeiro", diz o governo, destacando que "serão concluídos os projetos de detalhe do aeroporto do Montijo, será concluída a negociação contratual, será definido e implementado o modelo de execução das acessibilidades e serão concretizados os investimentos de ajustamento do dispositivo militar".

Em paralelo corre a reorganização do espaço aéreo com os militares, liderada pela NAV - Navegação Aérea de Portugal, e as obras no Aeroporto Humberto Delgado que avançam no próximo mês, "independentemente do processo do aeroporto do Montijo".

Ana Margarida Pinheiro é jornalista do Dinheiro Vivo

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