Com impacto ou sem impacto?

Countdown to Web Summit 2022 com Maria Miguel Ferreira, diretora de Empreendedorismo do Instituto de Arte e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa.

A tecnologia, que hoje afeta praticamente todas as áreas da nossa vida, é uma poderosa aliada da sustentabilidade. Energia solar, eólica e hídrica mais acessível, edifícios energeticamente autossuficientes, veículos que não emitem poluentes, novos materiais mais biodegradáveis - podia ficar aqui a fazer listas o dia todo. Nas dimensões da sustentabilidade social (diversidade, inclusão, igualdade no acesso a oportunidades) ou económica (nada disto é possível se o negócio falir), os exemplos de soluções tecnológicas também estão à distância de um motor de busca.

As startups, com todas as suas imperfeições, são as empresas que, de forma mais barata e mais rápida, estão a testar (e falhar, e testar outra vez, e falhar melhor) a aplicação de novas tecnologias a soluções para os problemas sociais e ambientais que, coletivamente, enfrentamos. Isto deve-se à sua cultura organizacional ágil - o que, sejamos francos, está relacionado com o facto de não possuírem a abundância de recursos humanos e financeiros das grandes empresas - mas também à consciência woke das novas gerações de empresários que lideram estas empresas. Para eles, o impacto não é uma opção: é uma estratégia de sobrevivência no longo prazo.

Claro que por cada empresa que se dedica a desenvolver produtos e serviços com impacto positivo sobre o planeta e a humanidade, há 10 corporações da velha economia que estão neste momento a construir 24.000 kms de novos oleodutos em todo o mundo, a emitir quantidades crescentes de gases de efeito estufa à boleia da pseudo-solução dos créditos de carbono, ou a fazer descargas de poluentes no rio da minha aldeia.

Mas contribuir para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) fixados pelas Nações Unidas no âmbito da Agenda 2030 e implementar boas práticas de ESG (Environmental, Social and Corporate Governance) está ao alcance de todos. Aliás, mais do que ao alcance, começa a ficar difícil não o fazer, com as normas de compliance que a UE tem proposto. Ser fornecedor de certas empresas já não é possível sem cumprir standards, estar cotado em muitos mercados e índices financeiros também não - já para não falar de atrair talento e fidelizar consumidores. E não estamos a falar de campanhas de greenwashing ou de relatórios de sustentabilidade com declarações de intenção bem paginadas: cada vez mais, só é "impacto" se houver indicadores auditáveis e auditados.

O grande capital já percebeu isto - sem dúvida com um empurrão da pandemia do Covid-19 e das crises energéticas que a guerra na Ucrânia antecipou. Investidores de capital de risco, pequenos e grandes, olham hoje com mais atenção para os indicadores de impacto dos projetos em que investem, aceitando retornos mais baixos e/ou mais lentos. Na Atomico, sociedade de capital de risco europeia, criada por (ex-)fundadores de startups, 30% dos fundos estão já investidos em empresas lideradas por empreendedores com menor representatividade no ecossistema. Mais perto de casa, a EX Capital, lançada este ano pelos cofundadores da SWORD (o sexto unicórnio português), promete investir em projetos com fundadores de minorias étnicas, sociais e de género. A MAZE, gerida pela Fundação Calouste Gulbenkian, investe e acelera apenas startups de impacto. A Casa do Impacto, incubadora de startups da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, vai no seu quarto ano de apoio a projetos de inovação social.

Com todos os fundos e estruturas de apoio que vemos surgir, há razões para assumir que nos próximos anos vamos assistir a um crescimento das startups dedicadas ao impacto social e ambiental, no contexto de um movimento empresarial mais alargado (ESG) de redução do impacto negativo de fazer negócios. Aguardo com expectativa para ver como o Web Summit vai espelhar isso no seu programa deste ano.

Nova rubrica

Countdown to WebSummit 2022 é uma nova rubrica no Diário de Notícias que antevê algumas das tendências que vão marcar o próximo encontro mundial das startups no final de outubro, em Lisboa. Até à semana do evento, estarão em análise as oportunidades e os desafios dos investidores, os exemplos inspiradores e as novidades que vão marcar a agenda dos empreendedores nacionais e mundiais. O palco passa por aqui, com a reflexão de especialistas numa nova série de artigos de opinião. O artigo hoje publicado tem a assinatura de Maria Miguel Ferreira, diretora de Empreendedorismo do Instituto de Arte e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa.

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