Calçado recorre ao PRR para projetos de 140 milhões de euros

Setor vai investir 140 milhões de euros com dois projetos na área da bioeconomia e da inovação e está a contar com verbas do Plano de Recuperação e Resiliência. Com isso a indústria do calçado quer também lançar as bases para "uma nova década de crescimento" nas exportações.

A fileira do calçado pretende ser "a referência internacional no desenvolvimento de soluções sustentáveis", ao mesmo tempo que lança as bases para "uma nova década de crescimento nos mercados externos". Ou seja, o setor quer "reforçar as exportações portuguesas, alicerçadas numa base produtiva nacional altamente competitiva, fundada no conhecimento e na inovação" e, para isso, pretende socorrer-se do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR)para financiar dois projetos, na área da bioeconomia e da inovação nas tecnologias de produção, com um investimento global de 140 milhões de euros.

Com um investimento total previsto de 60 milhões de euros, o FAIST - Fábrica Ágil, Inteligente, Sustentável e Tecnológica é um dos 64 projetos selecionados para passar à segunda fase das Agendas Mobilizadoras do PRR. Envolve 35 entidades, das quais dez são empresas de calçado e marroquinaria e cinco de fabrico de componentes; há ainda 14 empresas de bens de equipamento e de tecnologia e seis entidades associativas e de interface tecnológico. Liderado pela Carité - Calçados, o projeto engloba nomes como a AMF, Malas Peixoto ou Codenoir, Bolflex ou Atlanta, nos componentes, e Bresimar, CEI ou Roboplan, nos equipamentos e tecnologias, entre outros.
O consórcio é liderado pela Carité, que ascendeu, em 2020, ao lugar de maior grupo industrial de calçado nacional: conta com seis fábricas, distribuídas por Felgueiras, Celorico de Basto, Castelo de Paiva e São João da Madeira, dá emprego a mais de 550 pessoas e fatura mais de 32 milhões de euros. Com o apoio dos restantes parceiros e de entidades do sistema científico como o INESC TEC, a Universidade de Aveiro ou o Centro Tecnológico do Calçado, o projeto FAIST pretende "aumentar o grau de especialização da indústria portuguesa, diminuindo a dependência da fabricação de calçado de couro, que representa cerca de 90% da produção total, para novas tipologias de produto, apostando na diversidade de materiais a usar".

Quer também "aumentar a capacidade de ofertas das empresas portuguesas, através do reforço da capacidade de fabricar médias e grandes encomendas utilizando processos de montagem mais eficientes, como a injeção direta e a vulcanização direta ao corte, que são residuais em Portugal" e "apostar na produção de bens de equipamentos e tecnologias avançadas, substituindo importações e criando competências e capacidades locais tão necessárias à̀ instalação de unidades produtivas com elevados níveis de automação e robótica".
Dos 59,6 milhões de euros de investimento total previsto, 17,6 milhões correspondem a investimento produtivo e 36,5 milhões a investigação, desenvolvimento e inovação. Mas não basta robotizar as fábricas, é preciso também capacitar os recursos humanos e 1,5 milhões são para esse fim. Quase 1,2 milhões são para a qualificação e internacionalização .

E se o FAIST se concentra, sobretudo, no desenvolvimento de "novas soluções em termos de bens de equipamentos e tecnologias de produção" - investindo, não apenas em novas linhas de produção altamente automatizadas, mas também na automação das linhas de produção já existentes -, é com o complemento do BioShoes4All, projeto mais vocacionado para o desenvolvimento de novos materiais e de produtos com reduzida pegada ambiental, que o setor pretende abarcar e assegurar a sustentabilidade ao longo da fileira.
"Existe uma grande complementaridade entre os projetos. A concretização de ambos colocará a indústria portuguesa de calçado no topo mundial", pode ler-se no resumo do projeto FAIST, disponível no site do IAPMEI. A candidatura do BioShoes4All foi submetida à medida C12 - Promoção da Bioeconomia Sustentável do PRR, sendo que envolve 68 parceiros, num consórcio liderado pela APICCAPS, a associação do calçado.

Dividido em cinco pilares - Biomateriais, Calçado Ecológico, Economia Circular, Tecnologias Avançadas de Produção e Capacitação e Promoção -, o projeto BioShoes4All pretende "garantir uma base produtiva nacional resiliente para posicionamento no mercado internacional no qual a inovação, a diferenciação, a resposta rápida e eficaz, o serviço, a qualidade dos produtos, a capacitação e a promoção são argumentos competitivos que nos permitem ser superiores à concorrência", defende a coordenadora do projeto, Maria José Ferreira, diretora de investigação do Centro Tecnológico do Calçado. O investimento previsto é de 75,3 milhões, sendo que a dotação do PRR para a fileira do calçado no domínio da bioeconomia é de 41 milhões. O consórcio propõe-se desenvolver 46 linhas de ID&I, que darão origem a 51 novos produtos com melhor pegada ecológica e a 21 linhas piloto industriais.

Recorde-se que o PRR contempla 145 milhões na componente 12, para a valorização dos recursos biológicos e desenvolvimento da bioindústria sustentável e circular, "acelerando uma alteração de paradigma na produção de produtos com alto valor acrescentado a partir de recursos biológicos, em alternativa às matérias de base fóssil". Destes, 129,5 milhões são para financiar projetos integrados dos setores do têxtil e vestuário, do calçado, e da resina natural. Ou seja, menos de metade do investimento proposto pelos quatro consórcios elegíveis, que envolvem 200 parceiros no total.

Ilídia Pinto é jornalista do DInheiro Vivo

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