Brexit tira 85 milhões aos hotéis do Algarve

Mercados alemão, holandês e irlandês compensaram menos turistas ingleses. Preços mais altos fizeram subir receita dos alojamentos para mil milhões de euros, mais 9,4%

Nunca se ouviu falar tão pouco inglês no Algarve. Com o brexit, os britânicos apertaram os cintos e travaram as viagens, preocupados com o impacto da saída da União Europeia na sua economia e nos seus empregos e, sobretudo, com menos euros no bolso - a libra perdeu quase 15% do seu valor em ano e meio.

"A partir de junho [altura em que foi acionado o artigo 50, que iniciou o processo de saída da UE, a 29 de março], o mercado britânico desceu significativamente, com valores abaixo da média dos cinco anos anteriores. Em termos acumulados, houve uma quebra de 8,5% [na taxa de ocupação] face a 2016", revelou Elidérico Viegas, presidente da Associação dos Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve (AHETA), em declarações ao DN/Dinheiro Vivo. Só em janeiro deste ano, a quebra de turistas britânicos foi de 19,4%.

O travão dos ingleses levou a uma redução entre 6% e 8% nas receitas dos hotéis e empreendimentos turísticos da região. Foram 85 milhões de euros - ou 96 milhões de libras - que deixaram de entrar nas contas. E só não levaram ao temido sinal vermelho porque os preços por noite estão mais elevados, e o aumento de turistas de outros países compensou a descida do número de ingleses.

"Os mercados que compensaram a descida do mercado britânico foram todos os outros, designadamente o alemão, holandês, irlandês, e todos os pequenos mercados com fraca expressão no número total de dormidas. Para além do mercado interno, que também subiu 1,2%", explica ao DN/Dinheiro Vivo Elidérico Viegas. "Todos os pequenos mercados juntos já representam mais do que o mercado alemão", adiantou.

As receitas totais da hotelaria no Algarve, que se distribuem entre gastos de alojamento e alimentação dos turistas, acabaram por totalizar 1025 milhões de euros no fecho do ano, uma subida de 9,4% face ao ano anterior, enquanto a ocupação aumentou 1,9%, o que indicia uma recuperação dos preços praticados e que haviam sido muito esmagados na sequência da crise de 2008", evidencia o presidente da AHETA.

Esta tendência de recuperação dos preços médios tem vindo a ser uma constante nacional. Esta quarta-feira, o INE divulga os dados da atividade turística de dezembro, que deverão confirmar um novo crescimento para níveis máximos históricos dos proveitos, dormidas e número de turistas no ano passado. Só até novembro, Portugal recebeu 19 462 hóspedes, 62,1% estrangeiros, e registou 54,8 milhões de dormidas. O Algarve ocupou o primeiro lugar do ranking nacional em número de dormidas, com 14,7 milhões.

"É a primeira região com mais dormidas de estrangeiros (37% do país), refere o Travel BI, ferramenta estatística do Turismo de Portugal, que continua a colocar os ingleses como primeiro mercado. Visitaram o Algarve, até novembro, pouco mais de um milhão de ingleses - os turistas que tradicionalmente mais gastam durante as suas estadias pela região sul do país. Mas a verdade é que valem cada vez menos no bolo total: eram 37,2% do total de hóspedes estrangeiros que visitaram a região do Algarve durante este período; em 2013, valiam mais de 40%.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG