BCE em Sintra. Como controlar a inflação sem danificar mais a economia

Inflação começou a subir no ano passado, mas em fevereiro a guerra da Rússia contra a Ucrânia veio apertar muito mais este quadro. No Fórum BCE, em Sintra, economistas vão tentar encontrar saídas.

O mote do fórum anual do Banco Central Europeu (BCE), que começou ontem em Sintra e irá prolongar-se até ao final do dia de amanhã, é como entregar uma boa política monetária e de taxas de juro num mundo em mudança veloz, hoje ensombrado por uma nova crise.

Christine Lagarde, que ontem (segunda-feira, 27) deu as boas vindas às dezenas de convidados do Fórum BCE, admite que a tarefa dos bancos centrais é exigente e que é preciso ler os sinais com ainda mais atenção.

A inflação começou a subir na reta final do ano passado com os constrangimentos no abastecimento de várias matérias primas básicas (agrícolas, componentes informáticos, energia), mas em fevereiro a guerra da Rússia contra a Ucrânia veio apertar ainda mais este quadro de forte limitação no comércio global.

A inflação disparou e, inevitavelmente (à luz do tratado que rege a missão do BCE), as taxas de juro começaram a subir.

O Fórum BCE deste ano, de novo em modo presencial depois de dois anos de pandemia, vai focar-se justamente nesses "desafios": como controlar a inflação e trazê-la outra vez para os 2% (a meta de médio prazo do BCE), aumentando juros, mas sem que isso faça descarrilar a economia.

Aplacar a inflação sem provocar danos graves no poder de compra dos salários, sem afundar as famílias, empresas e os governos mais endividados, os mais dependentes de energia importada, sem gerar turbulência nos mercados e, inadvertidamente, alimentar instabilidade financeira e bancária.

Em suma, como pode fazer o banco central para evitar colocar as economias à beira de uma crise de procura tal que as empurre (no caso em concreto, a zona euro) para uma estagnação ou mesmo recessão. E em que a inflação ainda continua por domar.

Os sinais de que a estagflação pode estar à espreita acumulam-se à medida que a guerra na Ucrânia se prolonga.

Lagarde concedeu o primeiro ato deste Fórum BCE a dois economistas da London Business School (LBS), Hélène Rey e Richard Portes, para dissecarem o problema das "ameaças à estabilidade financeira" no momento em que hoje vivemos.

Rey apontou para o problema da falta de unidade e harmonia orçamental entre os países da zona euro, o que diz dificultar a tarefa do BCE.

"Somos uma união monetária, mas não estamos integrados a nível orçamental e, portanto, temos heterogeneidade no risco de crédito", isto é, que os países menos fortes do ponto de vista das contas públicas e com maior risco de mercado (como os da Europa do sul) sejam confrontados com juros tendencialmente superiores face aos chamados ricos (como Alemanha, Holanda, etc.), sinalizou a professora da LBS.

Esta terça-feira (dia 28), a presidente do BCE atualizará a sua avaliação da situação dos preços, dos juros, da política monetária e da economia real, depois do discurso bastante pessimista do início deste mês, quando anunciou o início da subida das taxas de juro já no próximo dia 21 de julho. E o encerramento de todos os programas não convencionais de compra de dívida pública e outros ativos.

Como os mercados reagiram mal e os juros de Portugal, Itália e Espanha dispararam logo por causa disso, o BCE teve de recuar um pouco e garantir que haveria um escudo protetor dos países mais endividados ou mais sensíveis à política de desmame do BCE.

O Fórum BCE vai debater ainda outros temas de igual importância e atualidade.

Os problemas que existem no mercado de trabalho, os que emergem da robotização e relacionados com a formação de salários (sobretudo quando estes aumentam e podem alimentar a inflação); a inflação importada por causa dos custos cada vez mais elevados da energia; os projetos de moedas digitais/virtuais e o papel do euro nestes mercados; o risco de novas crises imobiliárias.

O Fórum encerra na quarta com um debate entre Lagarde e Jerome Powell, presidente da Reserva Federal dos Estados Unidos (o maior banco central do mundo), Andrew Bailey, governador do Banco de Inglaterra, e Agustín Carstens, diretor-geral do Banco de Pagamentos Internacional.

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