Bancos portugueses são menos rentáveis e sólidos do que os concorrentes europeus

Um estudo de um professor do IESEG comparou a banca em Portugal com a de outros países europeus. O retrato mostra um setor mais frágil, pouco rentável e com muito crédito malparado.

Menos rentáveis e menos sólidos. É este o retrato que um estudo faz sobre a banca portuguesa em comparação com a de outros países europeus. Um dos "males" dos bancos em Portugal continua a ser o elevado nível de crédito malparado. Mas não só. "A rentabilidade dos bancos portugueses é insuficiente. A taxa média de retorno dos fundos próprios é mais baixa do que na maioria dos outros países europeus", refere a análise realizada pelo professor e diretor de estudos económicos da escola de gestão francesa IESEG, Eric Dor. O estudo teve por base o relatório da Autoridade Bancária Europeia (EBA na sigla inglesa) publicado a 30 de novembro.

Na rentabilidade, Portugal aparece no fundo da tabela neste indicador. É certo que a média do país é prejudicada pelos elevados prejuízos registados pelo Novo Banco, explica o estudo. Mas em junho de 2019, o Painel de Risco Bancário da EBA, que utiliza uma amostra que inclui mais bancos examinados que o exercício de transparência, "confirma que a taxa média de retorno dos fundos próprios dos bancos em Portugal permanece abaixo da maioria dos países europeus".

Outra das conclusões é que "os bancos portugueses são menos capitalizados, em média, do que os da maioria dos outros países europeus. Essas médias nacionais ocultam, no entanto, uma grande heterogeneidade entre bancos do mesmo país", destaca. O estudo analisou como os ativos ponderados pelo risco dos sistemas bancários são cobertos pelo património líquido. Dos 131 bancos analisados pela EBA, classificados por ordem decrescente em termos de solidez - rácio dos fundos próprios CET1 fully loaded - o Caixa Central (Crédito Agrícola) está em 72º, a Caixa Geral de Depósitos na 82ª posição, o Millennium bcp aparece em 110º lugar, o Banco Montepio em 120º e o Novo banco (LSF Nani Investments) em 126º.

O elevado nível de crédito malparado explica o retrato atual. "A percentagem de empréstimos improdutivos, em que os créditos estão vencidos há mais de 90 dias ou cuja recuperação do é implausível, é muito alta para os bancos portugueses", nos 10,74%. "Isso explica por que os ativos ponderados pelo risco dos bancos portugueses são grandes em proporção aos seus ativos. Muitos ativos de empréstimos de bancos portugueses têm um alto fator de risco".

Os bancos portugueses já não ficam tão mal na fotografia no que toca à cobertura de créditos improdutivos por provisões. Em junho, a taxa de cobertura situava-se em 51,4%, acima da média do conjunto de bancos analisados.

Usando uma outra medida para avaliar a solidez, o estudo avalia a adequação do capital dos bancos face ao total de ativos ou exposição, em vez de comprar com os ativos ponderados pelo risco. Olha então para o índice de alavancagem - definido como capital de nível 1 (Tier 1) dividido pela exposição total. "Os bancos portugueses têm um melhor rácio de alavancagem médio do que os dos principais países europeus", concluiu. "O paradoxo é que os bancos portugueses são menos bem capitalizados em termos do índice de capital CET1, mas melhor do ponto de vista do quociente de alavancagem". O estudo adianta que "a explicação é que os ativos ponderados pelo risco dos bancos portugueses, em percentagem dos ativos não ponderados, são em média mais elevados do que os de muitos outros países europeus". Isto porque, "o risco médio dos ativos bancários em Portugal é superior".

E em Portugal, a Caixa Geral de Depósitos apresenta o melhor rácio de alavancagem, de 7,93%. O Banco Montepio tem o pior, de 6,47%. "Mas ainda é um bom rácio comparado a muitos bancos".

Por outro lado, "Os bancos portugueses geralmente apresentam uma exposição média mais baixa aos ativos de nível 2 e nível 3", de maior risco por terem uma avaliação mais incerta nos balanços dos bancos. Uma forte exposição a este tipo de ativos comporta um maior risco para os bancos. Isto porque, em caso de crise, são ativos que podem ser mais difíceis de vender ou cujos preços podem cair face aos valores contabilizados.

Os ativos são classificados por diferentes classes, consoante a fiabilidade da sua avaliação. A melhor categoria - nível 1 - é aquela para a qual os preços dos ativos são observados diretamente no mercado, como acontece com a maioria das ações e títulos. Seguem-se os ativos para os quais não existe um preço diretamente observado no mercado, mas para o qual é possível calcular facilmente um valor com um modelo baseado em outros elementos observados, como taxas de juros. Os swaps de taxa de juros entram nesta categoria. Já os ativos de nível 3 são ativos em que é mais difícil apurar o seu justo valor, como os títulos hipotecários ou derivados complexos.

Um indicador positivo num estudo cujas conclusões mostram uma banca ainda frágil após anos de crise, marcados pelo fecho de balcões e de milhares de despedimentos.

jornalistas do Dinheiro Vivo

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG