Ana Costa Freitas: "A geringonça só funcionou enquanto repôs o que a troika retirou"

Ana Costa Freitas é reitora da Universidade de Évora.

1 - O que espera da maioria absoluta de António Costa?
Uma maioria absoluta é sempre uma responsabilidade. Espero que o PS seja capaz de fazer as reformas estruturais de que o País precisa e que consiga utilizar os fundos da União Europeia como um forte impulso para que Portugal saia desta "cauda da Europa" e os portugueses possam vir a ter uma melhoria da sua qualidade de vida. Esta será, talvez, a ultima oportunidade para Portugal. Desde 1985 temos recebido "milhões" da Europa, que alguns tanto criticam, e sem isso não teríamos sequer a vida que temos agora, que não é boa, 43% das pessoas estão no limiar de pobreza. É assustador.

2 - O país será melhor governado com maioria absoluta do que com acordos ou geringonças?
É difícil, sempre que a maioria absoluta é próxima dos partidos em nos revemos temos tendência a achar que o pais será melhor governado. Em qualquer situação, no entanto, a maioria absoluta dá, ao partido que a consegue, uma responsabilidade acrescida: mais ninguém será responsável pelos resultados. Daqui a 4 anos saberemos, exatamente, que partido é responsável por estarmos como estivermos e não haverá acusações de "quem fez o quê". Acredito profundamente na Democracia. A geringonça/acordos só funcionou enquanto repôs o que a troika retirou, fruto do "desgoverno" do governo Sócrates. Ficou provado, nem todos os acordo são válidos, como aliás se previa.

3 - O que espera da atual ​​​​​​​oposição?
Espero que faça o seu papel. Oposição, construtiva. É muito fácil dizer o que está mal, difícil é dizer como corrigir. Espero que a oposição seja capaz de discutir no parlamento problemas de fundo de Portugal e não nos entretenham com questões menores, fraturantes, que ninguém realmente quer discutir e que nenhum partido falou em campanha. Esta legislatura devia, por exemplo, discutir, calma, friamente e com tempo, a lei Eleitoral. O interior do País de Norte a Sul elege 24 deputados (9 do Algarve). Não faz sentido! São regiões e gentes esquecidas e são 670 mil votos (dados deste ato eleitoral) que não servem para nada.

4 - O PSD deve preparar-se para ser uma alternativa ​​​​​​​mesmo que demore mais quatro anos a chegar ao poder?
Tem que se preparar! A democracia vive da alternância. O poder não é o objetivo final, ou não deve ser, o objetivo final é, ou deve ser, fazer propostas e exprimir ideias que ajudem, por um lado, o governo a governar melhor, por outro que dêem a conhecer ao povo Português porquê essas propostas serão melhores no curto, no médio ou no longo prazo. Mas, tem razão, confunde-se tudo com a ânsia de poder.

5 - Dois ou três deputados a que vai estar particularmente atenta? E porquê?
Vou estar atenta aos deputados por Évora, porque me preocupa a coesão territorial.

6 - Que expectativa tem em relação aos pequenos partidos que viram as suas bancadas ​​​​​​​reforçadas no parlamento?
Tenho poucas expectativas, o Chega não tem nem programa nem ideologia. É um vazio, é populista e não diz nada a não ser que está contra. Este não é um modelo político que eu aprecie. Tem soundbites que as pessoas ouvem mas é OCO. A IL, nunca referiu que tipo de liberalismo propõe. Há vários! É demasiado URBANO não conhece o País real. Num País com 43% de pessoas no limiar de pobreza, com as desigualdades que temos o Estado SOCIAL é fundamental. É certo que temos que crescer mas NUNCA sem preocupações sociais. As pessoas têm que estar no centro das políticas.

7 - Preocupa-a que um partido histórico da democracia, o CDS, esteja agora ausente do parlamento?
Preocupa-me muitíssimo. O CDS tem o seu espaço e a sua doutrina que é a Democracia Cristã. Houve uma tentativa, falhada sempre, de abarcar os conservadores, liberais e democratas cristãos, tem agora partidos à sua direita que assim se denominam. Deve ser repensado fazendo a si mesmo a pergunta se a Democracia Cristã, baseada na doutrina social da igreja tem ou não sentido? Para mim este partido tem mais sentido com esta base doutrinária. O liberalismo não me convence porque me pergunto que liberalismo é este? O populismo do Chega ainda me convence menos, o slogan "vamos destruir o sistema" é inaceitável num estado democrático.

8 - O Governo está prestes ​​​​​​​a tomar posse. Para a educação e ensino superior, qual será a seu ver a medida mais urgente?
A medida mais urgente, para além de repensar totalmente o modelo de financiamento, o que obrigará a mais financiamento, será rever o RJIES o ECDU e o ECDESP. Já temos experiências de anos e anos que nos permitirão ter esta discussão construtiva.

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