A nova vida de Santa Apolónia tem um hotel lá dentro

Rossio e Cais do Sodré já têm hostels - e estão entre os melhores da Europa. São Bento vai ficar mais jovem. Com lojas e cafés, as estações estão a ganhar vida além dos comboios

O edifício principal da estação de comboios de Santa Apolónia, em Lisboa, pode vir a ser ocupado por um hotel. A possibilidade, que não implica encerrar a estação nem tirar dali os comboios, está a ser estudada pela Infraestruturas de Portugal (IP), a empresa que nasceu da fusão da Estradas de Portugal e da Refer e que está a gerir o espaço.

"Gostaríamos de ter Santa Apolónia valorizada, até por causa da proximidade do novo Terminal de Cruzeiros [que fica em frente], e não era nada de estranho ter um hotel", disse o presidente da IP, António Ramalho, ontem numa audição no Parlamento.

À saída, o gestor não quis revelar mais detalhes, dizendo que era apenas uma opção em estudo "para o edifício principal, aquele em forma de u" e voltou a realçar que não vê mal nenhum em ter ali um hotel. Aliás, "na estação do Rossio e na do Cais do Sodré já há dois hostels, ambos considerados dos melhores da Europa". Neste caso, poderia ser um hotel de luxo, precisamente por causa dos cruzeiros.

Valorizar as estações implica arrendar espaços vazios. Rossio já rende um milhão

O problema (ou não) é que nem todos partilham da mesma visão. Em junho do ano passado, o vereador do Urbanismo da Câmara de Lisboa, Manuel Salgado, foi mais radical e defendeu mesmo o encerramento de Santa Apolónia. A ideia era fazer ali um espaço verde com ligação ao rio Tejo, porque "não faz sentido" que a estação esteja no centro da cidade, já que grande parte dos passageiros que chegam a Lisboa saem na Gare do Oriente. Além disso, a estação é hoje mais usada para "estacionar e lavar os comboios". Ontem, Salgado avisou: "Qualquer alteração de uso tem de ser pedida à câmara, pois o atual uso é ferroviário."

Objetivo é arranjar receitas extra

A possibilidade de instalar um hotel em Santa Apolónia é uma estratégia puramente comercial para aumentar e diversificar as receitas da IP. Aliás, a abertura do Pingo Doce junto ao metro foi nesse sentido e foi depois reforçada pela fusão da Estradas de Portugal com a Refer. Esta tem como principal meta reduzir a dependência do Estado, encontrando fontes de receitas alternativas aos apoios do Estado e impostos.

António Ramalho estima que arrendar os espaços vazios ou não usados das estações - só em Santa Apolónia são 18 mil m2 - pode render 600 mil euros. E dá como exemplo a estação do Rossio, onde, além do hostel, há lojas, um café Starbucks e escritórios. "Aqui, as rendas subiram 271 mil euros e já superam o milhão de euros."

Nesse sentido, a IP está ainda a estudar o que fazer nos outros dois edifícios de Santa Apolónia e que ficam mais para dentro da estação e ainda como valorizar a estação de São Bento, no Porto. "Aí queremos fazer o aproveitamento das laterais onde antes estavam estacionados os carros dos bombeiros e agora já não estão e onde se guardava o ferro velho", adiantou.

Está ainda a vender os imóveis que antes pertenciam à antiga Estradas de Portugal, como por exemplo a sede do outro lado do rio, logo ao lado da ponte 25 de abril. Segundo António Ramalho eles podem representar "um potencial de 11,2 milhões de euros". Aliás, já foram feitas "vendas de 3,4 milhões de euros", revelou o gestor.

Espaços têm de ficar vazios

Para que a IP possa vender, arrendar ou mesmo concessionar estes espaços é primeiro preciso que eles fiquem vazios. E é por isso que, no último ano, tem havido uma intensa recolocação de trabalhadores, que o presidente da IP considera de normal não só por causa da fusão com a Refer, mas porque existe um claro "interesse comercial" nos imóveis.

"As mudanças são sempre um constrangimento para os trabalhadores. Foram já 717 pessoas que mudaram de local, umas mudaram duas vezes e umas até mudaram 13 vezes. E há pessoas a mudar de Santa Apolónia para Santa Apolónia e do Edifício Coimbra para Santa Apolónia, que são 100 metros. Eu próprio mudei para um gabinete mais estreito", rematou.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG