"A Google junta 100 milhões de pessoas por dia em videoconferência"

"Já entrámos na Saúde 24 com assistentes virtuais e nas consultas por videochamada", revela o country manager da Google Portugal. Até 5 de abril, o Google Maps registou quebra de 89% na mobilidade dos portugueses.

Desde o início da pandemia há três milhões de novos utilizadores do Google Meet por dia, num total de 100 milhões de pessoas que o fazem diariamente em todo o mundo, revelou Bernardo Correia. O mesmo se passa com as aulas à distância, através do Google Classroom, assegura o country manager da empresa em Portugal, que já levou estas plataformas e a inteligência artificial para o Serviço Nacional de Saúde.

Quanto é que o tráfego da Google aumentou desde o início da pandemia?

Bastante. As pesquisas incidiram muito sobre o coronavírus e superaram mesmo as do pico do Super Bowl. Nos downloads das nossas apps, o crescimento foi de 30% entre fevereiro e março. Também no Youtube, o tráfego subiu substancialmente, em particular, nas transmissões de vídeo ao vivo. Só o concerto do Andrea Bocelli, na Páscoa, teve mais de 39 milhões de visualizações.

E nas outras plataformas?

O Google Classroom, o nosso serviço para professores e alunos poderem ensinar e aprender remotamente, teve uma utilização muito maior do que prevíamos. O número de estudantes a usar essa plataforma ultrapassou os 100 milhões, duplicando face ao início de março. E acabámos também por ver um pico de utilização no Google Meet, a plataforma de videoconferência - que era paga e só para profissionais - e que desde 29 de abril é grátis em todo o mundo. Tivemos três milhões de novos usuários por dia, com uma utilização 30 vezes superior ao que era em meados de janeiro. Neste momento há qualquer coisa como 100 milhões de utilizadores diários do Google Meet.

E como está a decorrer em Portugal?

Estamos a seguir mais ou menos os padrões internacionais. O setor da saúde também tem grande potencial para estas plataformas. Vamos ter consultas por videoconferência? Estamos muito focados no apoio a este setor, seja através das consultas virtuais por telechamada para alguns dos parceiros que temos nessa área, seja com o apoio à linha de Saúde 24, em parceria com a Portugal Telecom, com quem desenvolvemos o serviço de assistente virtual, que teve um pico de procura.

O que fazem estes assistentes virtuais?

Os assistentes virtuais já estão a apoiar os profissionais. No caso dos hospitais permitem fazer consultas por videochamada. No caso das linhas de saúde permitem substituir uma pessoa real a atender telefonemas. Para os casos mais simples, a triagem é feita pelos assistentes inteligentes (em vez de ter de carregar na tecla 1 para isto e na 2 para aquilo). Ou seja, permite uma abordagem um pouco mais personalizada e retirar peso aos profissionais, de modo a que fiquem reservados para os casos mais graves.

Estas mudanças no sistema de saúde vieram para ficar?

Eu acredito que, tal como em quase todos os outros setores de atividade, vai haver aqui uma mudança permanente devido à transformação digital, que foi acelerada por esta pandemia. Não é exclusiva da saúde. Estamos a assistir a isso em quase toda a economia.

Mas sendo a saúde um setor muito pesado em meios e custos, esta digitalização vai permitir poupanças significativas?

Qualquer processo transformação digital implica sempre uma poupança de custos. Há aqui uma lista de espera e há a possibilidade de agilizar o atendimento ao público e torná-lo não só mais seguro - por via do distanciamento social que as ferramentas permitem -, mas também mais rápido. Ao mesmo tempo, além da redução de custos, existe a capacidade de tornar esse atendimento mais útil, mais informativo e mais eficaz. Por exemplo, nós sabemos que há situações que dispensam a deslocação a uma urgência hospitalar. Por outro lado, a tecnologia vai permitir gerir todo o sistema de saúde de forma muito mais eficaz. Estão a dar-se passos importantes, mas é um setor onde é preciso acelerar ainda mais. A Google anunciou um fundo de 800 milhões de dólares para as PME.

Como vai funcionar, nomeadamente, cá em Portugal?

É um fundo global, não é gerido país a país, e serve para oferecer publicidade gratuita. É automático, ou seja, a maior parte das empresas que já sejam nossas clientes vão receber um e-mail e acedem a um fundo de publicidade gratuita que aparece nas suas contas google. É mais orientado para pequenas do que médias empresas, que precisem desse apoio para poderem continuar a comunicar e disponibilizar os seus serviços. Também acabam de anunciar um fundo de apoio para a imprensa.

Em que consiste?

A nossa preocupação é mais com a imprensa local, que vive muito da circulação em papel em comunidades mais pequenas. Criámos um fundo de emergência a que os jornais têm de se candidatar, num processo que já está a terminar. A ideia é disponibilizar fundos sem quaisquer condições para essas redações. Não vai resolver todos os problemas do jornalismo, mas é uma contribuição que podemos fazer nesta altura e que simboliza o nosso respeito e a nossa vontade de apoiar o jornalismo local em Portugal e no mundo. Só no fim saberemos quais os fundos disponibilizados para Portugal, mas espero que esteja bem representado, tal como no passado, em que o Google News Initiative trouxe mais de 8 milhões de euros para Portugal. A Imprensa tem sofrido os efeitos da disponibilização gratuita das notícias, justamente pelos motores de busca.

Há margem para a Google ter um papel mais decisivo na compensação desta situação?

Enquanto o jornalismo não for sustentável, a questão nunca estará encerrada e estamos disponíveis para apoiar. Inclusive depois de anunciar o fundo para a imprensa, tornámos gratuitas - até cinco meses - as nossas ferramentas de publicidade online, utilizadas por muitos meios de comunicação, para que os jornais possam tirar maior partido da circulação online, para compensar aquela que está a cair no papel. Podem continuar a esperar do nosso lado uma postura pró-ativa de apoio em projetos de inovação, em financiamento, em dados e insights e, por exemplo, uma coisa que fazemos muito em Portugal é tentar ajudar a promover a internacionalização do jornalismo português.

E como se faz a internacionalização do jornalismo português?

Isso é um tema de paixão para mim. Nós temos uma qualidade de jornalistas e de criadores de conteúdos em Portugal absolutamente fantástica, world class, mas temos pouco mercado, pouca escala. Vemos que Espanha conseguiu conquistar os mercados da América do Sul, seja em jornalismo, seja noutras áreas, como séries televisivas. Por exemplo, o El Mundo ou o El País já têm mercados como o Brasil - onde se fala português - e nós vemos que isso deveria ser o território natural para os media em Portugal. Temos 300 milhões de pessoas que falam português e esse deveria ser o nosso mercado natural. O nosso papel aqui é tentar ajudar o jornalismo português a encontrar o seu nicho de mercado. Que pode não passar por política, porque é menos atrativo para fora, mas, por notícias desportivas, tecnologia, cultura. Temos, aliás, um projeto muito interessante com o Ministério da Cultura, de promoção dos museus, em que a digitalização desses museus está toda no Google Arts, e acho que essa promoção da cultura passa pela internacionalização do jornalismo e da produção de conteúdos. Até pela fluência em línguas estrangeiras dos portugueses, não há razão nenhuma para não produzirmos conteúdos a nível internacional.

O que nos diz o Google Maps na pandemia?

Os dados de mobilidade são um excelente indicador de como a população reage às indicações dos governos para restrições de mobilidade. Quando se olha para os dados de Portugal no Google Mobility Reports vê-se que foi muito respeitado. Houve uma quebra de 89% na mobilidade até 5 de abril face ao que era normal. Em parques 89%, em recriação e retalho 85%. Vamos continuar a disponibilizar esses dados aos governos.

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