A empreendedora que cresceu no mundo e democratiza a arquitetura em Portugal

Mariana Morgado Pedroso, arquiteta que trouxe para Portugal a Architect Your Home.

Foi passo de coragem que pôs Mariana Morgado Pedroso no caminho de um conceito de arquitetura que não tinha - nem tem ainda - paralelo por estas bandas: uma espécie de projeto por catálogo, em que os clientes, particulares ou empresas, podem escolher passo a passo, detalhe a detalhe, à medida daquilo que pretendem mudar e da margem financeira que têm, conseguindo singularizar o custo e o tempo de cada pormenor do processo. Mas mais do que a coragem que levou uma profissional que já passara pelos grandes gabinetes de arquitetura a soltar-se dessa garantia de estabilidade e usar a sua experiência para criar algo arrojado, o que mais terá influenciado Mariana a embarcar nesta aventura provavelmente encontra respaldo numa vida em tudo diferente da maioria.

Ainda criança, passou por vários países da Europa - "a minha mãe é um espírito livre e cresci em muitos sítios, passei por muitas escolas e fui sempre uma aluna interessada e com muito bons resultados", conta-me, explicando a facilidade com que aprendeu a falar francês, inglês e mais tarde italiano, nos tempos de faculdade e em que trabalhou num showroom de moda, fruto da vontade de se exprimir, de entender e ser bem entendida. Do pai, diz que herdou o gosto pelo conhecimento, mas certamente que a veia artística lhe corre por via materna, da avó que se lembra de ver sempre a fazer esculturas, da mãe, que ainda tece macramés. A cabeça aberta ao mundo foi-se construindo desde esses tempos de firmar raízes, em que teve oportunidade de ir experimentando várias vivências e culturas, absorvendo o que ia vendo e encontrando. Mas o espírito aventureiro moldou-o de forma diferente dos pais - filhos verdadeiros dos anos 70 -, preferindo fixar-se aqui e construir a vida com a sua própria dose de originalidade, mas de pés fixos à beira do mar português que lhe permite as insubstituíveis escapadelas nas ondas da linha.

No novo escritório em Paço d"Arcos, com vista para o oceano que traz na profundidade do olhar, vai-me contando como teve coragem para forjar o seu próprio percurso a partir da decisão de trocar a segurança de uma casa com provas dadas - estava então no ateliê de Frederico Valsassina - pelo futuro que podia moldar à sua própria imagem. "Estávamos em tempos de crise e tal como muitas outras empresas também ali surgiu a necessidade de reduzir a estrutura e cheguei a acordo para sair. Foi a transição laboral que me deu o impulso para fazer algo que tinha visto em Londres e cujo conceito tinha achado incrível. Então pedi o subsídio de desemprego adiantado na totalidade e com esses 40 mil euros (e a então sócia Alexandra Moura) meti mãos à obra."

Mãos à obra significa que Mariana pegou na sua vontade e poder de persuasão, voou até Londres e convenceu os criadores da Architect Your Home (AYH) a entregar-lhe a chave do projeto para o implementar na Península Ibérica. O ano era 2012 e os criadores do conceito nem quiseram escutar muito sobre a apresentação que ela preparara: reconheceram-se na garra e "os pontos ligaram-se naturalmente", conta.

As artes e as ondas na gestão

Nesse voto de confiança que recebeu, muito pesou a sua personalidade, adquirida da experiência de vida, a crescer em viagem com os pais, mas também depois de estes se fixarem no Algarve e de Mariana ter dado o salto para Lisboa, onde veio viver com os tios - Saldanha Sanches e Maria José Morgado, de quem guarda o carinho e apoio recebido a cada momento. Bem como a mais-valia somada com a licenciatura que escolheu tirar no Técnico por ser "inovador e à medida de quem tinha uma certa aptidão, que sempre tive, pelas artes mas também pela Matemática".

A sabedoria que bebe no mar também contou: habituou-se a lê-lo, a ver da praia se as ondas estão em condições para serem surfadas, para identificar a melhor para apanhar sem perder noção de riscos e oportunidades. O mar, em que Mariana faz bodyboard diariamente - na verdade, "toda a família faz alguma coisa, da minha mãe às minhas filhas, incluindo o meu marido; temos todo o tipo de pranchas lá em casa", ri-se -, é o melhor paralelo que encontra para os negócios, para o empreendedorismo. "Um bom gestor é um bom surfista."

Tudo somado, o ontem, o todos os dias e o amanhã, talvez ajude a trazer alguma luz sobre o "acaso" de Mariana estar normalmente um passo adiante do que está para acontecer. Não apenas na visão de trazer um conceito de arquitetura revolucionário para Portugal como, por exemplo, no seu interesse precoce pela reabilitação.

Se desde que se lembra de ser gente recorda a paixão pelas artes, hoje Mariana reconhece que talvez tivesse optado por um caminho ligado à gestão, porque essa capacidade de fazer de raiz, de conduzir todos os aspetos de um projeto, de fazer as escolhas e burilar os caminhos é algo que a encanta - e isso também se explica com aquela veiazinha dos números. "Gerir uma empresa é um desafio que adoro, fazer acontecer - em determinada altura, senti que ou ganhava capacidade de liderança ou ia acabar por sair", admite, simplificando a decisão de abandonar os grandes ateliês. Já passara por dois: além de Valsassina, o Risco, de Manuel Salgado, com quem começou e diz ter aprendido brutalmente e para quem só guarda elogios - "é uma referência na arquitetura e uma pessoa extraordinariamente idónea; basta ver que quando foi para a Câmara de Lisboa retirou o Risco de qualquer possibilidade de contrato com a autarquia, para não haver possibilidade de misturar águas".

No seu caminho profissional, antes de se lançar à AYH, Mariana ainda acumulava as aulas que dava no Técnico, de Arquitetura para futuros engenheiros civis, e a especialização em Reabilitação, Restauro e Recuperação do Património Arquitetónico, pela qual se interessou quando Portugal, no rescaldo dos anos de oiro da construção nova da Expo 98, ainda não olhava sequer à possibilidade de ressuscitar as zonas mais nobres das suas cidades. Com essa mais-valia, havia de deixar o seu nome em projetos como o Palácio Nacional de Queluz e a Escola Portuguesa de Arte Equestre, Picadeiro Henrique Calado.

Mas a lentidão com que tudo se desenrola nesta profissão deixava-a com vontade de andar mais e mais depressa. "Começou a crescer a vontade de fazer alguma coisa minha, mas na escola, ninguém nos ensina a fazer propostas, a gerir, a apresentar planos financeiros - e sabia que precisaria dessa vertente." Prática, objetiva e sem tempo para perder, não demorou muito - uma vez desfeita a ligação ao ateliê e com a AYH a caminho de se materializar - a identificar o caminho que melhor lhe servia. Com a simplicidade e objetividade que lhe tecem o caráter e o sorriso transparente que lhe revela a alma, juntou-se à Sotheby"s para aprender. "Deixei logo claro que não seria para ficar, mas eles aceitaram e correu muito bem." Tão bem que quando se desvinculou para abraçar o seu projeto a Sotheby"s quis ser sua parceira.

Arquitetura à la carte

Entre esse e outros apoios de peso - como a Ordem dos Arquitetos ou a Câmara de Comércio Luso-Britânica -, o conceito inovador da Architect Your Home era lançado em Portugal, solidificando-se e crescendo sustentadamente até contar, aos dias de hoje, com uma rede de uma dúzia de escritórios que contribuem para uma oferta tão diversificada como rica. "O que temos de absolutamente diferente é que não somos um gabinete de assinatura com uma proposta de honorários mas um escritório com um menu de serviços e uma rede de arquitetos e decoradores a quem os clientes podem recorrer, seja para mudar uma divisão da casa seja tudo de fio a pavio, com custos otimizados, tempos definidos total transparência. Os clientes sabem exatamente o que custa o quê, quanto tempo demora, quanto podem gastar em cada fase de um projeto e adaptar a sua escolha e necessidades. Num projeto de arquitetura, as coisas normalmente são complexas e não se sabe bem onde estão os custos. Aqui é tudo muito simples e transparente porque está tudo listado. É tudo muito democrático", resume a arquiteta.

Um projeto regular de um cliente individual pode custar tão pouco quanto mil euros - e a rede de 12 gabinetes espalhados pelo país está disponível para todo o tipo de trabalhos mas também aconselhamento, ajudar apenas na parte criativa, por exemplo. E com um espírito colaborativo com o cliente que não é muito comum entre arquitetos. "Quando estamos a trabalhar os espaços onde as pessoas vão viver, temos de estar abertos ao que elas querem e precisam, ao que valorizam - e cada vivência é diferente; por exemplo, há quem escolha ter a sanita separada do resto da casa de banho, isso é normal em certas culturas", simplifica Mariana. E logo acrescenta: "Não concordo nada que a decoração seja um parente pobre da arquitetura. Fazer um projeto de decoração para alguém é ganhar um amigo para a vida!"

Mas há também espaço na AYH para clientes empresariais, construtoras, projetos bem maiores. O b2b entrou apenas há quatro anos no universo da firma, mas está a ganhar lastro - além do peso crescente da área da reabilitação, aquilo a que Mariana chama de "trabalho de artesão" -, o que levou a empresa a criar a Invest, uma espécie de liga especial para apoiar os grandes projetos, muito suportado na inovação, construção limpa e rápida, otimização de processos que a AYH consegue entregar a gigantes como a Teixeira Duarte, com quem tem já dois projetos em curso.

O caminho das pedras duma empreendedora

"É difícil quebrar as paredes de um país como o nosso, pequeno, muito masculino e ainda fechado, cujos decisores (na construção sobretudo) estão habituados a uma certa forma de fazer as coisas - que não é a natural para uma mulher. Ser mulher e empreendedora é um caminho das pedras", reconhece Mariana, explicando que o grande poder do género feminino reside mais na subtileza da influência. E vinca: "Não temos de ser iguais, homens e mulheres são diferentes, têm características e formas de estar e de trabalhar diferentes, têm tempos de carreira diferentes. E isso deve ser reconhecido e valorizado, enquanto se puxa pela capacidade feminina. Temos de dar tempo às mulheres para fazerem o seu caminho profissional e o pessoa também", diz quem faz bandeira de promover a liderança e o empreendedorismo no feminino.

Aos 41 anos, com duas filhas, Maria e Matilde, de 7 e 12 anos, Mariana Morgado Pedroso sabe bem do que fala. "Há alturas da minha vida, do meu percurso, em que nem me lembro bem como fazia, o que fazia, é um blackout total, tal era o cansaço." Esses eram os tempos em que erguia a nova empresa, era mãe pela segunda vez - "muitas vezes levei a minha filha bebé para reuniões, porque tinha de lhe dar de mamar", lembra. Não que não tivesse apoio - o marido, também um artista mas em fotografia, Ricardo Bravo (um dos mais famosos a registar os desportos de ondas), "sempre foi incrível", a família encarada como "um trabalho a dois", as tarefas partilhadas. Mas há coisas em que uma mãe não é substituível. E se homens e mulheres têm de ser reconhecidos e valorizados pela diferença, as oportunidades que lhes são postas na mesa, essas sim, têm de ser semelhantes.

Hoje com mais de 550 projetos em mãos e a faturação da AYH a chegar aos 6 milhões de euros, as coisas começam a ficar "fáceis" - mesmo com o bodyboard, a corrida, o ginásio e a família pelo meio. E Mariana Morgado Pedroso não é pessoa de se encostar ao que conquistou. O que explica que tenha projetos bem definidos para os próximos tempos. "Já consolidámos a empresa aqui. Está na hora de ativar a licença que temos para o mercado espanhol. É o momento de nos expandirmos", diz-me, confessando a vontade de liderar todo o processo de internacionalização da empresa-mãe. "Já fazemos exportação de serviços para várias regiões do mundo, mas gostava de levar a AYH muito mais além. Tem sido uma viagem incrível!"

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