89% das construtoras não conseguem preencher vagas para as obras

Baixos salários e exigência de qualificações afastam trabalhadores. Situação considerada dramática. Empreitadas portuguesas em causa com o PRR em execução na Europa.

As construtoras estão longe de conseguir suprir as elevadas necessidades de mão-de-obra. A procura por profissionais qualificados disparou com a recuperação económica do país após a crise de 2011, mas o mercado de trabalho não consegue dar resposta à demanda. Atualmente, a construção é a atividade económica nacional onde o défice de trabalhadores é mais sentido, com 89% das empresas a reconhecer ter dificuldades em recrutar, revela o último estudo da Manpower sobre escassez de talentos. Esta carência - a AICCOPN (associação das indústrias de construção) estima que são precisos 80 mil empregados - deverá agudizar-se nos próximos anos, com a execução dos Planos de Recuperação e Resiliência (PRR) que os países europeus estão a pôr em marcha. Em Portugal, as obras do PRR podem ficar em causa. E a promoção imobiliária já antevê sérios problemas no avanço de novos projetos.

Vítor Antunes, diretor-geral da Manpower, lembra que "o desequilíbrio do lado da oferta tem vindo a acentuar-se em resultado da saída de talento para o estrangeiro, onde as condições salariais são mais vantajosas". Segundo o presidente do Sindicato da Construção de Portugal, Albano Ribeiro, "em seis anos e meio, com a crise da troika, saíram 300 mil trabalhadores do país, entre os quais 16 mil engenheiros civis" e não voltam. Como exemplifica, "no contrato coletivo, um carpinteiro tem um salário de 720 euros, mas na Alemanha ganha 4000 euros, na França são 2300 e na Bélgica 1900. Vão nas low cost à segunda-feira e voltam à sexta". Hugo Santos Ferreira, presidente da Associação Portuguesa de Promotores e Investidores Imobiliários (APPII), não tem dúvidas em afirmar que "o problema estrutural do país são os baixos salários". Na sua opinião, "tudo deveríamos fazer para atrair os portugueses e novos trabalhadores para um setor que carece de 80 mil trabalhadores". É que "a situação da mão-de-obra em Portugal é dramática", sublinha.

Segundo uma análise da Manpower, as profissões mais procuradas atualmente pelas construtoras são carpinteiro de cofragem, armador de ferro, ladrilhador, pedreiro, eletricista, estucador e serralheiro, funções de exigência física e de exposição ao risco, para as quais é necessária experiência profissional e, na maioria dos casos, formação específica. As convenções coletivas existentes, que abrangem 7600 empresas e 170 mil trabalhadores, estipulam valores mínimos para estes ofícios de 10 a 11 mil euros/ano, sendo que no caso dos eletricistas chegam aos 14 mil. Mas esta realidade "não permite a contratação" e "as empresas têm feito um esforço no sentido de maximizar a sua capacidade de atração. Os valores podem facilmente dobrar e para os eletricistas chegar aos 25 mil euros/ano", diz Vítor Antunes.

A política salarial é um dos maiores entraves à solução do problema, mas está longe de ser o único. Segundo o diretor-geral da empresa de recrutamento, a atração de profissionais tem de passar pela "oferta de melhores condições, sendo fundamental entender que o salário vai além da remuneração, pois é um setor onde a segurança e a saúde dos trabalhadores é muito impactante na avaliação que estes fazem das ofertas; pela formação, com as empresas a oferecer um trajeto de carreira, potenciado por investimento em qualificação que garanta a empregabilidade de longo prazo; e pelo recurso a pools alternativas de talento", como profissionais especializados de outros países. Segundo Albano Ribeiro, há já exemplos de construtoras portuguesas a formar trabalhadores nos PALOP para os trazerem para Portugal. "É uma iniciativa que aplaudo, porque as empresas têm de dar formação diretamente aos trabalhadores", sublinha, lembrando que a inexperiência na atividade põe em causa a qualidade da obra. Há ainda que ter em conta o envelhecimento dos atuais profissionais e a dificuldade em captar os jovens para estas funções. Os níveis remuneratórios, as exigências físicas e o próprio espaço de trabalho, em geral ao ar livre e exposto às condições meteorológicas, não cativam os mais novos.

Com todas estas dificuldades no recrutamento, Hugo Santos Ferreira não tem dúvidas que "o PRR vem prejudicar a colocação de habitação no mercado". Como descreve, "na última década praticamente não tivemos obra pública, toda a capacidade laboral esteve alocada aos privados. Agora, terá de ser dividida". Na sua opinião, os PRR europeus ainda vão aumentar as dificuldades. "Com os salários que a construção paga nesses países, os poucos trabalhadores que ainda temos não vão ficar cá, o que tornará a mão-de-obra ainda mais escassa e cara". Hugo Santos Ferreira fala mesmo num contrassenso: "Um programa a que dão o nome de recuperação e resiliência do país e do tecido empresarial vai acabar por tornar o setor da construção e imobiliário ainda menos resiliente".

Sónia Santos Pereira é jornalista do Dinheiro Vivo

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