Vítor Oliveira. O filho de pescadores que se tornou no rei das subidas

O Paços de Ferreira de Vítor Oliveira garantiu este sábado a subida à I Liga. É a 11.ª promoção que o treinador natural de Matosinhos consegue na carreira, numa saga que começou em 1990/91 curiosamente na equipa da capital do móvel. Saiba mais sobre o treinador rei das subidas.

E vão 11 subidas de divisão para Vítor Oliveira, que há muito é conhecido como o rei das subidas, um cognome que lhe assenta na perfeição. Este sábado, a história repetiu-se. O Paços venceu o Académico de Viseu (2-1) e a quatro jornadas do final do campeonato da II Liga já tem a promoção assegurada, um ano depois de o clube ter baixado de divisão.

Quando foi apresentado como treinador do Paços de Ferreira, no dia 2 de julho de 2018, Vítor Oliveira não escondeu que o objetivo da equipa passava por voltar ao convívio entre os grandes. "Eu já passei por tanto lado que os sentimentos começam a normalizar. É evidente que há um objetivo muito grande. Há 28 anos subi o Paços na Liga de Honra, era fantástico voltar a subir, era marcante. Mas temos uma missão difícil. É complicado pegar numa equipa que desceu e que quer subir logo a seguir, não acontece com muita frequência", referiu naquela ocasião.

Curiosamente, o Paços de Ferreira foi a primeira equipa que Vítor Oliveira subiu de divisão, na temporada 1990/91. Seguiram-se mais três nos anos 90, todas de forma consecutiva: Académica (1996/97), União de Leiria (1997/98) e Belenenses (1998/99).

Na viragem do século, o técnico, de 65 anos, subiu o Leixões (2006/07), antes de mais cinco promoções consecutivas - Arouca (2012/13), Moreirense (2013/14), União da Madeira (2014/15), Desportivo de Chaves (2015/16) e Portimonense (2016/17). Este sábado somou mais uma promoção com o Paços de Ferreira. A 11.ª da carreira. Provavelmente um registo único a nível mundial. Em metade dessas subidas, Vítor Oliveira foi campeão, em 1991, 1998, 2007, 2014 e 2017. E esta temporada pode repetir o feito pela sexta vez.

Como jogador, Vítor Oliveira começou no Leixões, clube onde se formou. Passou ainda pelo Paredes, Famalicão, Sp. Espinho, Sp. Braga e Portimonense, onde terminou a carreira. Aos 31 anos estreou-se no banco do Portimonense, por indicação de Manuel José, que entretanto rumou ao Sporting - quando foi convidado para o cargo até pensou que o presidente do clube algarvio lhe ia oferecer a renovação de contrato como jogador. Isto apesar de muitos anos antes (1979) ter orientado o Famalicão apenas num jogo - era o capitão de equipa e com a saída do técnico Mário Imbelloni foi ele que comandou nesse dia as operações. Seguiram-se quase mais uma vintena de clubes, alguns na I Divisão, como foram os casos das aventuras no Gil Vicente, V. Guimarães, Sp. Braga, Portimonense, entre outros. O melhor que conseguiu foi um sétimo lugar, proeza que alcançou com o Portimonense, logo no seu ano de estreia.

Mas foi sempre na II Divisão que se sentiu como peixe na água, ele que a determinada altura da carreira, apesar de ter convites, preferiu quase sempre voltar ao segundo escalão depois de promover uma equipa. Por isso só assina contratos de um ano, para poder trabalhar onde se sente bem. "Porque com um contrato de um ano, podemos avaliar se estamos todos satisfeitos e renovar. Sem problemas, E eu já renovei vários contratos e inclusive já saí e já voltei a alguns clubes. Mas quando uma das partes não está satisfeita, acaba o contrato e cada uma das partes segue o seu caminho", explicou ao Tribuna do Expresso, numa entrevista em 2017, onde confessou que atualmente quando é contratado por um clube da II Liga "não há outra conversa". "Se me abordam é com a intenção de subir."

Sem mágoa de não ter treinado um grande

Nessa mesma entrevista, Vítor Oliveira confessou que há muito perdeu a ilusão de poder trabalhar num dos três grandes do futebol português: "Houve fases em que, como todos os treinadores, também aspirava a ter a possibilidade de chegar a um grande. Mas não cheguei. Provavelmente é verdade que haveria pessoas mais competentes do que eu nessas alturas para assumir essas equipas. Mas não tenho qualquer mágoa nem nunca fiquei a pensar que poderia ter sido eu e porque é que foi aquele. Nunca tive grandes expectativas. E a verdade é que trabalhei sempre onde quis. Foi uma das grandes virtudes que tive na carreira. Nunca estive em lado nenhum contrariado. Isso manteve-me sempre feliz no futebol, porque quando trabalhamos onde queremos, fazemos o que gostamos e ainda por cima somos bem pagos, penso que é muito bom para qualquer pessoa que trabalhe. Eu tive essa felicidade. E onde não gostava de estar ia-me embora."

Quando em 1985 decidiu iniciar a carreira de treinador, Vítor Oliveira impôs a si mesmo uma única condição relacionada com aspetos familiares: não treinar o Leixões, o clube da terra onde nasceu, enquanto o pai fosse vivo. O motivo era simples: o pai era um pescador (e a mãe peixeira) conhecido em Matosinhos, e não queria sujeitá-lo a comentários infelizes por parte das pessoas da terra.

"Tive uma infância de grande liberdade e de alguma responsabilidade, porque os meus pais nem sempre estavam presentes. O meu pai era pescador e passava as noites no mar, na pesca da sardinha. A minha mãe era peixeira e levantava-se às quatro da manhã para ir para a lota. Mas havia um grande sentimento de família", contou numa entrevista ao jornal Correio do Porto, em agosto de 2015, onde também confessou que era um aluno acima da média a física e matemática, mas fraco nas línguas, e que chumbou no sexto ano.

Apesar de ter nascido numa família de pescadores, os pais nunca o quiseram no mar - "o meu pai chegou a naufragar três ou quatro vezes. Era sempre uma aflição, não só para eles que estavam no mar mas para toda a família, para toda a comunidade". Começou como jogador no Leixões e ainda conciliou algum tempo o futebol com o curso de Engenharia da Universidade do Porto. Mas acabou por desistir e dedicar-se de corpo e alma ao futebol.

Católico não praticante, diz que não é de ir à missa, rezar à noite ou fazer promessas. "Mas trago sempre comigo, no bolso ou no carro, duas imagens pequeninas, em cartão, da Senhora de Fátima e da Santa Rita. Sei que não é por causa disso que se ganha ou perde, mas é a minha fé."

Esta semana, vésperas de mais uma promoção, perguntaram-lhe sobre a sensação de estar perto da 11:º subida da carreira. E a resposta saiu o mais sincera possível: "Uma sensação normalíssima." Afinal, não foi nem uma, nem duas, nem três vezes que passou por uma situação semelhante. Agora a pergunta é: que clube da II Liga vai Vítor Oliveira treinar na próxima época? Ou irá abrir uma exceção ao que tem sido norma nos últimos anos e manter-se no comando do Paços na I Liga, como fez na época passada com o Portimonense? Quando a época acabar haverá resposta...

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