Union-Hertha. O primeiro grande dérbi de Berlim sem muro

A uma semana da comemoração dos 30 anos da queda do muro de Berlim, os dois clubes da cidade vão defrontar-se pela primeira no principal escalão do futebol alemão, depois de vários anos a jogarem em lados diferentes.

Dia 9 de novembro comemoram-se 30 anos da queda do muro de Berlim, o maior símbolo da Guerra Fria e da divisão ideológica, que separava a República Democrática Alemã da República Federal da Alemanha. E neste sábado, precisamente uma semana antes, o principal campeonato germânico vai receber um jogo especial: o FC Union Berlim-Hertha de Berlim, o primeiro dérbi entre as duas equipas da mesma cidade no principal escalão do futebol germânico, que há uns anos jogavam em lados diferentes.

Os dois emblemas já se defrontaram em quatro ocasiões a nível oficial, mas todos os jogos foram realizados quando atuavam na II liga alemã - nas temporadas 2010-11 e 2012-13, com uma vitória para cada lado e dois empates. A subida do Union esta temporada ao escalão principal do futebol germânico vai assim permitir um reencontro histórico, precisamente a uma semana dos 30 anos da queda do muro, entre duas equipas que fogem à tradicional rivalidade entre adeptos da mesma cidade.

Este é um jogo que traz à memória futebol, política, ideologia e histórias. Isto porque apesar de serem da mesma cidade, antes da queda do muro jogavam em lados diferentes - o Union no lado oriental (RDA) e o Hertha do lado ocidental (RFA).

Com os estádios separados por 26 quilómetros, existiu sempre uma grande proximidade e respeito entre os adeptos das duas equipas. Com os ocidentais autorizados a passarem para o outro lado do muro, muitos apoiantes do Hertha deslocavam-se ao Estádio Alte Försterei para assistirem aos desafios do Union. E no célebre jogo dos quartos-de-final da Taça UEFA, em 1979, entre o Hertha e o Dukla de Praga, estiveram presentes na capital checa 30.000 adeptos alemães provenientes dos dois lados de Berlim.

Hertha e Union defrontaram-se pela primeira vez a 27 de janeiro de 1990, num jogo amigável, precisamente 79 dias após a queda do muro de Berlim. Um dia de grande festa, com o jogo a ter como palco o Estádio Olímpico da cidade, com um recorde de 51.270 espectadores. "As pessoas abraçaram-se e comemoraram nas bancadas", recordou Sven Kretschmer, ex-jogador do Hertha, equipa que foi derrotada por 2-1. Depois do jogo seguiu-se um jantar entre os futebolistas dos dois clubes.

Adeptos salvaram o Union Berlim

O Union Berlim, fundado em 1966 com esta denominação, tornou-se numa das equipas mais populares da RDA, onde tinha como maior rival o Dínamo de Berlim, o clube ligado à Stasi e ao regime. Ao longo da sua história passou por graves problemas financeiros, mas com a ajuda dos adeptos foi sobrevivendo.

O Union não era apoiado pelo governo e por isso tinha na sua grande maioria adeptos descontentes com o então regime comunista. Mas apesar de o Dínamo ganhar mais títulos, o Union atraía mais público ao estádio. Nessa altura, o clube era visto como um contraponto ao autoritarismo do exército e da polícia secreta, um emblema mais de cariz popular, da classe operária e de movimentos da contracultura.

Na década de 1990, após a Reunificação da Alemanha, o futebol também deixou de ter divisões no país, mas apenas duas equipas da RDA foram convidadas para participar na Bundesliga - o Hansa Rostock e o Dínamo de Dresden. O Union foi obrigado a começar na III divisão alemã e isso trouxe graves problemas financeiros, que quase levaram o clube à bancarrota - chegou a ter dois acessos negados à II divisão precisamente devido aos problemas financeiros. E em 1997 esteve para fechar as portas. Valeram as manifestações (uma ficou famosa por ter juntado milhares de pessoas nas Portas de Brandemburgo), os apelos e as campanhas dos adeptos, que chamaram a atenção de investidores e patrocinadores.

Apesar da entrada de patrocinadores, os adeptos continuaram a sua missão de salvar o clube, e nos dias de jogos reuniam-se para recolher fundos com o objetivo de evitar a falência do clube. A cantora Nina Hagen gravou até um hino - "Eisern Union" - e as receitas das vendas do disco reverteram para o clube. E assim a equipa sobreviveu.

O maior feito desportivo da história do Union aconteceu na temporada 2000-01, época em que o clube chegou à final da Taça da Alemanha. Depois de deixar pelo caminho emblemas como o Bochum e o Borussia Monchengladbach, acabou por perder o jogo decisivo diante do Schalke. A presença na final valeu ainda ao clube o apuramento para a Taça UEFA da temporada seguinte. Ainda passaram a primeira jornada (eliminaram uma equipa finlandesa), mas caíram na segunda ronda perante os búlgaros do Litex.

O clube mesmo assim não se aguentou e chegou a cair para a IV divisão alemã, novamente com o cenário de bancarrota no horizonte. Voltaram os peditórios e as campanhas dos adeptos e aos poucos o clube foi-se reerguendo. Em 2011, a direção do Union decidiu vender os 'naming rights' aos adeptos e a campanha revelou-se um sucesso financeiro. E em 2016 foi também criada uma fundação.

A equipa passou 10 temporadas na II divisão até que na época passada conseguiu finalmente subir ao escalão maior do futebol alemão, depois de ter disputado um play-off. O sonho cumpriu-se num clube onde os adeptos são muito mais que simples apoiantes. Eles que até tiveram um papel determinante na reconstrução do estádio, com 140 mil horas de trabalho voluntário para ajudar na obra.

Hertha quase fez história na Taça UEFA

A história do Hertha, o adversário deste sábado do Union, não tem a mesma emoção. O clube que sempre jogou do lado ocidental foi fundado em 1892 inicialmente com a denominação de BFC Hertha 92, o nome de um navio a vapor, e chegou a vencer dois campeonatos da Alemanha (1930 e 1931). Nos anos que se seguiram foi trocando de designação até quem em 1949 passou a chamar-se Hertha BSC Berlim. Como campeão da cidade, teve entrada direta na Bundesliga, em 1963.

Três vezes campeão da II divisão alemã (1989/90, 2010/11, 2012/13), o Hertha já conquistou duas Taças da Liga (2001 e 2002/03). E na temporada 1978/79 chegou às meias-finais da Taça UEFA, fase em que foi eliminado pelo Estrela Vermelha. No total tem 36 presenças na I liga alemã.

O Hertha chegou a ter vários jogadores da RDA no plantel. Mas depois da construção do muro, em 1961, isso deixou de ser possível. O clube, inclusivamente, perdeu nessa altura uma das suas maiores estrelas - Klaus Taube foi proibido de jogar no Hertha, pois vivia na parte oriental de Berlim.

Neste sábado, já sem muro, o pitoreco estádio Alten Försterei, com capacidade para 22 mil espectadores, vai de certeza encher para receber o primeiro dérbi oficial entre as duas equipas na Bundesliga. O Hertha é atualmente o 11.º classificado da Bundesliga com 11 pontos; o Union é 15.º com sete.

"Será um jogo muito especial, ainda mais por coincidir com os 30 anos da queda do Muro. Não temos nada contra o Hertha. Este jogo é mais uma oportunidade de união", disse à agência France Press Elmar Werner, de 65 anos adepto do Union.

"Há muitos anos, antes da queda do muro, alguns adeptos do Union até torciam pelo Hertha, principalmente quando jogava nas competições europeias. Mas quando o muro caiu passámos a ser adversários", disse Andreas Cramer, 60 anos, também adepto do Union.

"Fiquei muito feliz quando subiram à primeira divisão. Cresci com o muro e a cidade precisa de uma cultura futebolística forte. Esta é mais uma oportunidade para esquecer a política leste-oeste e de unificar a cidade", atirou Manon Düring, 55 anos, adepta do Hertha.

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