"Temos de identificar os energúmenos e proibi-los de entrar nos estádios"

Joaquim Evangelista, presidente do Sindicato dos Jogadores, admite ao DN que têm ocorrido "vários casos" de insultos racistas em Portugal, embora menos mediáticos, e defende punição exemplar para os prevaricadores.

Joaquim Evangelista, presidente do Sindicato dos Jogadores, elogia, em entrevista ao DN, a coragem de Marega por ter tomado uma posição no Estádio D. Afonso Henriques por estar a ser alvo de insultos racistas durante o V. Guimarães-FC Porto, mas defende que da próxima vez devem ser todos os futebolistas a abandonar o relvado. O dirigente garante que existem leis e que é preciso ser "mais eficaz" na sua aplicação.

Qual a posição do Sindicato dos Jogadores em relação ao que se passou em Guimarães com os insultos racistas dirigidos a Marega?
O sentimento é de indignação e condenação. Trata-se de um ato inqualificável e um atentado até ao nosso modo de vida. Não é apenas um problema do desporto, mas hoje está muita gente a reagir, alguns hipocritamente, outros de forma genuína, mas quem fez realmente a diferença foi o Marega, pela coragem que teve e pela forma como alertou para este problema. No futuro não podem ser apenas os Maregas a deixar o campo, têm de ser todos os jogadores a sair, a exigir respeito pelo ser humano e por todas as pessoas.

E o que se tem de fazer para prevenir situações destas?
Temos de identificar os prevaricadores e os energúmenos para que possamos interditá-los de entrar nos estádios. Acredito que, por aquilo que tem sido a sua atuação, as autoridades estão a fazer o seu caminho neste caso do Marega. Contudo, é preciso articular posições entre todas as instituições do futebol nesta matéria do racismo, mas também da xenofobia, da homofobia e da violência no desporto. No Sindicato dos Jogadores, defendemos que é preciso educar os jovens, os treinadores e os dirigentes para estes problemas que estão no subconsciente de todos, é uma questão cultural, que emerge em qualquer sítio. Só através da educação será possível combater, pois os clubes não podem estar contra o racismo quando os problemas se passam na casa do vizinho e optem pela desculpabilização quando se passa na casa deles. A indignação tem de ser permanente.

Em casos anteriores de racismo, os prevaricadores foram sancionados com multas. Não considera que a lei é branda?
A lei não é branda, acho mesmo que é adequada, só que é preciso aplicá-la de forma eficaz. Desde a alteração da lei contra a violência no desporto, a Autoridade para a Prevenção e o Combate à Violência no Desporto tem mostrado que pretende atuar e quer a Liga quer a Federação Portuguesa de Futebol têm condenado todas as situações que têm surgido. O problema está na aplicação da lei e no comportamento dos nossos dirigentes, mas também pela forma como esta questão do racismo está a ser explorada por oportunistas e populistas sem escrúpulos. Não podemos aceitar pactuar com bolsas de racismo. Temos de ser como o Marega porque precisamos de nos revoltar, acusar e mostrar quem prevarica, como fizemos no sindicato quando publicámos os rostos dos devedores de salários aos jogadores. Estes fenómenos são cobardes porque são normalmente feitos em situações em que as pessoas estão encapotadas em grandes massas, que torna impossível identificar os indivíduos.

O Sindicato dos Jogadores tem conhecimento de mais casos de racismo, além deste Marega, nos tempos mais recentes?
Já houve vários casos de insultos racistas em Portugal. Estamos a fazer o levantamento e posso dizer que são vários, só não são tão mediáticos como este, por isso digo que é preciso educar os mais jovens, para que o futuro seja mais garantido em relação aos valores do desporto e da tolerância.

Este caso do V. Guimarães poderá levar à interdição do Estádio D. Afonso Henriques. Será a medida mais adequada para lidar com situações destas?
Tenho dúvidas sobre a utilidade da interdição dos estádios. Esvaziar o espetáculo é estar a dar um tiro nos pés e contribuir para a degradação do futebol, seria melhor aplicar medidas limitadoras para os adeptos que provocam estas situações. Temos de identificar quem está a mais no desporto e, além disso, é preciso que a maioria se manifeste contra esses grupos de adeptos dentro dos próprios clubes, como tem acontecido, por exemplo, no Sporting, onde a maioria dos adeptos têm assobiado os comportamentos dessa minoria das claques. Além dessa mobilização, temos de ser mais eficazes na aplicação da lei. Inglaterra é um bom exemplo, mas temos de ir além do exemplo e atuar.

Numa entrevista recente à TVI, o diretor nacional da PSP disse que têm identificados os elementos perigosos das claques, mas a verdade é que eles continuam a ir aos estádios. A resolução deste problema do racismo e da violência não devia começar por aqui?
Vi essa entrevista e fiquei muito bem impressionado com aquilo que disse o senhor diretor nacional da PSP, mas reconheço que é um problema de difícil resolução a nível das claques porque elas têm uma grande importância nos clubes, até a nível intimidatório. Constato, de facto, que há um sentimento de impunidade nesses grupos porque olham para as autoridades com a convicção de que não lhes causam problemas. A polícia tem de fazer a diferença e tem de exercer a autoridade, mas o que se nota no desporto é que esses grupos não reconhecem a autoridade porque a PSP não atua na altura certa e vai perdendo essa autoridade. O diretor nacional da PSP disse que exige respeito pela autoridade e isso é um bom sinal de que as coisas podem mudar.

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