O olheiro que descobriu Ronaldo, Neymar e De Bruyne e que ainda trabalha aos 85 anos

Piet Visser é holandês e responsável pela descoberta de alguns dos maiores jogadores do futebol mundial. Diz que o segredo está em ver os treinos e falar com as famílias. Quando um craque lhe interessa, toma notas em códigos.

Piet de Visser. O nome pode não dizer nada a ninguém, mas estamos a falar de um dos melhores olheiros (caça talentos) do mundo. O holandês de 85 anos foi o responsável por trazer para a Europa craques como Romário e Ronaldo 'Fenómeno', indicou também Adriano ao PSV Eindhoven, e avisou alguns grandes clubes para o potencial de Ronaldinho Gaúcho, Neymar e Kevin de Bruyne antes de terem a projeção que assumiram no mundo do futebol. Ruud Van Nistelrooy e David Luiz também fazem parte da sua lista de ilustres.

Apesar da idade, Piet de Visser continua no ativo, agora a trabalhar para clubes holandeses como conselheiro. Mas teve alguns dos seus melhores anos quando esteve no Chelsea como consultor. "Não tenho o olho que ele tem para aperceber-se das qualidades dos jovens jogadores. É verdadeiramente impressionante a necessidade que ele tem de conhecer jogadores nos quatro cantos do mundo", chegou a referir José Mourinho, que coincidiu com De Visser no Chelsea alguns anos.

Apesar dos elogios, a relação entre ambos nunca foi a melhor. E há uns anos, o olheiro deixou mesmo algumas críticas ao treinador português pelo facto de não ter conseguido durante algum tempo tirar o melhor rendimento de Eden Hazard. "Mourinho tentou criar uma versão melhor do que Messi ou Ronaldo. O Eden é bom, mas não é uma máquina. É um menino, que precisa de momentos de descanso, sem ter sempre sobre ele a pressão de puxar a carroça. Só lhe deviam pedir para jogar bonito", referiu.

Piet de Visser chegou a tentar uma carreira como jogador de futebol. Mas não tinha grande jeito para a bola e aos 23 anos tornou-se treinador adjunto do Sparta de Roterdão. Um problema no coração, contudo, levou-o a deixar os bancos em 1993. E foi a partir daí que se tornou verdadeiramente num caça-talentos, por culpa de Ronaldo 'Fenómeno'.

"Eu vi-o a jogar ainda jovem num pequeno torneio em St. Brieux. Vi os movimentos dele, a forma como jogava, o domínio da bola, o drible em movimento, a forma como passava pelos adversários em grande velocidade e a habilidade que tinha. E foi aí que eu pensei: 'quero ser olheiro para descobrir jogadores como Ronaldo", contou numa entrevista ao Canal História, em 2018.

E assim foi. Através de De Visser, Ronaldo foi contratado pelo PSV Eindhoven em meados dos anos 1990. Mas antes do 'Fenómeno', outro brasileiro chegou ao clube holandês também por indicação do olheiro, o baixinho Romário, antiga estrela da seleção brasileira que também jogou no Barcelona. Chegou também a aconselhar ao PSV o avançado brasileiro Adriano, que mais tarde viria a ter a alcunha de 'Imperador'. Mas na altura o treinador Eric Gerets não se mostrou interessado.

Ronaldinho Gaúcho e Neymar foram outras das suas descobertas em missões no Brasil. Mas na altura, apesar das boas indicações, não conseguiu trazê-los para a Europa. Hoje em dia, quando lhe perguntam sobre as suas melhores descobertas, há um nome que destaca.

"Uma das minhas maiores descobertas foi o Kevin de Bruyne. Assim que o vi tocar pela primeira vez na bola fiquei logo encantado. Uma fome única de vencer, o passe, a visão de jogo, o pé esquerdo, o direito... era quase nota 10 em tudo. E olhe que eu não dou 10 a ninguém", recordou o holandês, que levou o jovem belga então com 21 anos para o Chelsea, em 2012, oriundo do Genk.

Ruud van Nistelrooy, o temível avançado holandês que coincidiu com Cristiano Ronaldo no Manchester United, também foi uma descoberta sua, quando o viu jogar com apenas 17 anos no modesto Den Bosch. Outra 'obra' sua foi David Luiz, central internacional brasileiro que chegou à Europa pela porta do Benfica. E esta história é curiosa.

Visser descobriu David Luiz no Brasil antes de toda a gente. E aconselhou-o ao Chelsea e ao PSV. Mas ambos recusaram. Anos mais tarde, conta o olheiro, foi contactado por Roman Abramovich para lhe indicar um defesa central. "Descobri-o e ninguém o quis na altura. Acabou por ir parar ao Benfica em 2007, onde evoluiu muito. Um dia liga-me o Abramovich porque precisava de um defesa central e eu disse-lhe. 'Podias ter contratado o David Luiz por nada'. Depois acabou por pagar milhões por ele."

De Visser tem um bloco de de notas onde aponta todas as suas missões de espionagem. Mas quando um jogador lhe interessa, recorre a códigos que só ele conhece. Afinal, o segredo é a alma do negócio: "Com os jogadores que eu quero, eu uso códigos, códigos especiais. Ninguém pode entender."

A ligação de vários anos ao Chelsea, e por ser uma pessoa muito próxima do presidente Roman Abramovich, fizeram com que De Visser tivesse responsabilidade na demissão de Luiz Felipe Scolari do clube inglês em 2009. "Fui assistir aos treinos do Chelsea e fiquei chocado. Era tão fraco que os treinos dele não tinham qualquer solidez. E isso depois tinha influência durante os jogos", referiu.

Afinal, qual é o segredo para este apurado sentido de detetar talento em jovens? "Eu dou muita importância à mentalidade. Não vou apenas aos jogos. Vou ver os treinos e falo com as famílias. Pela família entendo um pouco do caráter do jogador. Eu sinto o cheiro dos talentos, vejo todas as coisas que os jogadores fazem bem e todas as que eles fazem de errado."

O olheiro já não vai para novo, está com 85 anos, e até já foi aconselhado pelos médicos a parar a sua atividade, até porque implica muitas viagens pelo mundo fora e o holandês sofre de problemas de coração. Mas Visser não está para aí virado. E continua a trabalhar como consultor para alguns clubes holandeses. "O meu médico já me disse que estou com mais de 80 anos e que tenho de parar de viajar. Mas eu respondi-lhe: não, você não conhece o Piet de Visser. Eu amo o futebol. E vou dizer ao mundo que amo o futebol."

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